Rewatch de ‘O Confronto Final’: como ‘Doutor Destino’ redime o pior X-Men

Em 2026, o rewatch de O Confronto Final Doutor Destino ganha outro sentido: analisamos por que o filme de 2006 falhou como “final” — e como o retorno do elenco pode rebaixá-lo de desastre definitivo a prólogo útil.

Reassistir ‘X-Men: O Confronto Final’ em 2026, com ‘Vingadores: Doutor Destino’ dominando trailers e a promessa de ver Patrick Stewart, Ian McKellen, James Marsden e Kelsey Grammer vestindo de novo os uniformes da era Fox, é uma experiência estranhamente deslocada. O filme de 2006 ainda carrega a reputação de ser o ponto mais baixo da trilogia original — e é difícil contestar. Mas há algo que muda quando você aperta o play sabendo que aquilo não é mais “o último ato”. A relação entre ‘O Confronto Final’ e ‘Doutor Destino’ recontextualiza o desastre: não como fechamento, e sim como prólogo torto — um rascunho apressado de conflitos que agora podem, finalmente, ganhar peso.

Nota de honestidade editorial: este texto parte do que já foi visto em materiais promocionais e anúncios públicos. Sobre enredo de ‘Doutor Destino’, o filme ainda é uma incógnita; a análise aqui é sobre como a expectativa de retorno mexe com a reputação de 2006 — sem precisar apostar em spoilers.

Por que ‘O Confronto Final’ falha como desfecho (e ainda falha)

Vamos ser diretos: Brett Ratner herdou uma bomba e dirigiu como se fosse um cronômetro. O roteiro tenta comprimir a Saga da Fênix Negra — material que pediria arco longo — em menos de duas horas, enquanto encaixa a trama da “cura mutante” e ainda apresenta figuras como Angel e Callisto. O resultado não é só correria; é colisão de prioridades. A montagem salta de set piece em set piece sem o tempo mínimo para que escolhas virem consequências.

O exemplo que mais dói continua sendo Ciclope. A morte de Scott (James Marsden) nos primeiros vinte minutos é um desperdício duplo: joga fora um protagonista e ainda o faz de um jeito narrativamente covarde. A cena no lago — Jean Grey retorna, ele se aproxima, corte, e o filme já está pronto para seguir — não tem elaboração, nem luto, nem impacto dramático equivalente. Nem é “frieza” intencional: é pressa. Reassistir isso hoje, sabendo que Marsden volta ao tabuleiro em ‘Doutor Destino’, troca a indignação pura por uma sensação mais incômoda: a de ter assistido a uma franquia desmontar um personagem porque achou que não haveria amanhã.

O mesmo vale para as viradas que deveriam ser definitivas. Xavier é desintegrado; Magneto é “curado” — para recuperar os poderes numa cena pós-créditos que parece uma piscadela desesperada para fãs. A cura, por sua vez, é tratada como remédio e arma e dilema moral… até virar um truque reversível de roteiro. Isso não é só incoerência: é a marca de um filme que quer parecer final, mas não se compromete com nenhuma finalização. O rewatch em 2026 escancara a ironia: o longa prometeu “último confronto” e entregou um intervalo barulhento.

Quando o filme acerta: espetáculo, atores e duas cenas que ainda funcionam

Seria desonesto dizer que ‘O Confronto Final’ é irrecuperável. O problema é de estrutura e escolhas; não é ausência total de cinema. Há momentos que resistem — e justamente por isso doem mais: você vê o que poderia ter sido.

A sequência da Ponte Golden Gate continua sendo o grande “ícone visual” do filme. Funciona não apenas como efeito, mas como ideia: Magneto literalmente redesenha a geografia para levar seu povo até Alcatraz. E funciona ainda melhor por Ian McKellen. Erik Lensherr aqui não é vilão de piada: é um líder que transforma trauma em destino, e convicção em fanatismo. O texto do filme não é sutil, mas McKellen dá subtexto com o corpo — a calma de quem acha que está do lado certo da História. É o tipo de material que um retorno em ‘Doutor Destino’ pode enriquecer, se houver tempo para o confronto ideológico com Xavier respirar (e não só “acontecer”).

Outra coisa que sobrevive é Kelsey Grammer como Fera: voz, postura e um cansaço de diplomata que combina com Hank McCoy. A maquiagem ainda segura (especialmente em closes, sem depender de corte rápido), e Grammer encontra um registro raro em blockbuster de 2006: o de alguém que pensa antes de reagir. A aparição do personagem no pós-créditos de ‘As Marvels’ (2023) virou termômetro de nostalgia por um motivo; ele não parece “participação especial”, parece continuidade emocional. Reassistir ‘O Confronto Final’ com essa volta no horizonte faz a presença do Fera parecer menos “desperdício” e mais um primeiro capítulo mal aproveitado.

E há duas cenas menores que ganham valor quando você procura o filme que existe por baixo do caos:

  • Rogue e a cura: Anna Paquin vende, com o mínimo de diálogo, o peso de uma vida onde toque é ameaça. O filme não desenvolve as implicações, mas o dilema está lá — e continua atual.
  • O discurso da doença: quando a cura vira linguagem de “normalização”, o longa encosta numa metáfora sobre eugenia e conformidade que merecia ser o centro, não um subplot correndo ao lado da Fênix.

O que falta não é tema; é coragem de escolher um tema e sustentar as consequências em cena.

O fantasma do inacabado: o que a era Fox nunca entregou

O fantasma do inacabado: o que a era Fox nunca entregou

O problema central de ‘O Confronto Final’ não é apenas técnico: é existencial. Depois de dois filmes de Bryan Singer que construíram uma mitologia relativamente séria sobre preconceito e aceitação, o terceiro vira uma espécie de cancelamento com orçamento alto. Não há “adeus” para aquela geração; há um apagar de luz.

O que veio depois na Fox é sintoma dessa ferida: reboots parciais (‘Primeira Classe’), cronologias que se remendam via viagem no tempo (‘Dias de um Futuro Esquecido’), e finais alternativos que funcionam em bolhas (‘Logan’ é excelente, mas é outra proposta). A sensação de encerramento coletivo — o equivalente emocional a um ‘Ultimato’ — nunca aconteceu para Stewart/McKellen/Marsden e companhia. Por isso, o rewatch em 2026 parece leitura de um último capítulo que, na prática, não era último.

Como ‘Doutor Destino’ pode redimir o legado de 2006 (sem “apagar” o filme)

A melhor promessa de ‘Vingadores: Doutor Destino’ não é reescrever ‘O Confronto Final’ — é dar a esses personagens algo que 2006 negou: tempo, centralidade e consequência. Se Marsden tiver espaço para existir como líder (e não como obstáculo a Wolverine), se Stewart e McKellen puderem travar um confronto dialético que não seja reduzido a “encontro de roteiro”, o que muda não é a qualidade de 2006: é o lugar dele na experiência do fã.

Também é inevitável que a expectativa reorganize nossas memórias. Em 2006, a morte apressada de Scott parecia definitiva e, por isso, imperdoável. Em 2026, com a volta do ator ao horizonte, ela continua ruim — mas passa a ter outra função na cabeça do público: vira o símbolo do que precisa ser consertado. É uma diferença sutil, porém poderosa: não é que o filme melhore; é que ele deixa de ser sentença final.

E existe uma ironia poética, quase cruel. ‘O Confronto Final’ é obcecado por finais falsos — cura que não cura, morte que não dura, status quo que se desmancha. Duas décadas depois, o verdadeiro “último confronto” desses X-Men (se de fato for um último) parece estar por vir. Se ‘Doutor Destino’ for competente, ele não transforma 2006 em bom — transforma 2006 em passo.

Veredito: um mau filme que pode virar um prólogo útil

‘X-Men: O Confronto Final’ continua sendo o elo mais fraco da trilogia original. É apressado, desperdiça personagens e trata a Fênix com a sutileza de um martelo pneumático. Mas reassistir hoje, no contexto de ‘O Confronto Final’ e ‘Doutor Destino’ como duas pontas de uma mesma nostalgia, transforma a experiência: você enxerga melhor o que foi sabotado — e, justamente por isso, entende por que tanta gente quer uma reparação.

A recomendação é paradoxal e honesta: vale o rewatch antes de ‘Doutor Destino’ não porque o filme “merece”, mas porque ele funciona como contraste. Se o novo capítulo entregar o que 2006 prometeu (peso, despedida, consequência), o alívio será parte do evento. E, pela primeira vez, talvez esses personagens tenham um fim que pareça… fim.

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Perguntas Frequentes sobre ‘X-Men: O Confronto Final’ e ‘Doutor Destino’

Quanto tempo dura ‘X-Men: O Confronto Final’?

‘X-Men: O Confronto Final’ tem 1h44 (104 minutos). É justamente essa duração enxuta que força o filme a correr para equilibrar Fênix Negra e “cura mutante”.

‘X-Men: O Confronto Final’ tem cena pós-créditos?

Sim. Há uma cena pós-créditos que sugere Magneto recuperando seus poderes, o que muda a leitura do “final” do personagem.

Preciso assistir ‘O Confronto Final’ antes de ‘Vingadores: Doutor Destino’?

Não necessariamente. Mas, se você acompanhou os X-Men da Fox, rever ‘O Confronto Final’ pode ajudar como “termômetro emocional”: ele concentra as frustrações que um retorno do elenco tende a querer resolver (especialmente com Xavier, Magneto e Ciclope).

Por que ‘O Confronto Final’ é tão criticado pelos fãs?

Porque o filme tenta contar duas histórias grandes (Fênix Negra e “cura mutante”) em pouco tempo, sacrificando desenvolvimento e consequências. Além disso, decisões como a morte repentina de Ciclope e a resolução apressada de Jean Grey viraram símbolos de desperdício.

Qual é a ordem ideal para rever a trilogia original dos X-Men antes de um retorno do elenco?

Para foco no elenco original, a ordem mais direta é: ‘X-Men’ (2000), ‘X-Men 2’ (2003) e ‘X-Men: O Confronto Final’ (2006). Se você quiser contexto do “remendo” de cronologia da Fox, ‘Dias de um Futuro Esquecido’ (2014) é o complemento mais relevante.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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