Dan Trachtenberg revelou que ‘Predador: Terras Selvagens’ quase trouxe Dutch e até um Xenomorph na cena dos hologramas — mas cortou tudo para não transformar o filme em vitrine de franquia. Entenda por que segurar Naru foi uma decisão narrativa (e não só marketing) nos cameos.
Existe uma diferença sutil entre fanservice inteligente e desperdício de munição narrativa. Em Predador: Terras Selvagens, Dan Trachtenberg caminha na corda bamba entre os dois — e, em entrevista recente, revelou que quase caiu do lado errado antes de corrigir a rota. A cena dos hologramas planetários, que passa voando no início do filme, chegou a ser concebida como um buffet de referências com Dutch (Arnold Schwarzenegger), o Xenomorph de Alien e até a criatura “backbiter” de Predador: Assassino de Assassinos. Só que Trachtenberg fez algo raro em cinema de franquia hoje: tirou o dedo do gatilho.
Essa escolha não é “odiozinho de cameo”. É direção. É entender que referência, quando vira ruído, quebra o ritmo, rouba foco do filme que você está tentando contar e — pior — transforma o universo em checklist de IP. A revelação dele, no fundo, é um recado: Terras Selvagens não quer ser um trailer de cinco filmes futuros; quer ser um capítulo com autonomia.
A cena dos hologramas: o que o corte final mostra (e o que quase virou vitrine de franquia)
Na abertura de Predador: Terras Selvagens, Dek e seu irmão Kwei vasculham arquivos históricos da caça Yautja dentro da nave. É um trecho expositivo e extremamente acelerado: telas, silhuetas, planetas, troféus — informação demais em segundos de menos. No corte final, a referência mais “legível” (ainda assim, discreta) é a silhueta de Naru (Amber Midthunder), em soft focus, praticamente subliminar.
Trachtenberg contou que versões anteriores (no roteiro e em VFX temporário) iam além: Naru dividiria espaço com Dutch, com o Xenomorph e com o “backbiter” do curta animado Predador: Assassino de Assassinos. A intenção era clara: um “painel de greatest hits” — um museu digital de confrontos históricos que funcionaria como vitrine do que a franquia pode usar depois.
O problema é que vitrine tem custo dramático. O próprio diretor explicou que a cena foi encurtada na montagem. Havia um diálogo maior entre Dek e Kwei — incluindo a linha “Pick Your Planet” em um contexto mais espaçoso — que daria tempo para o espectador entender o que está vendo. Sem esse respiro, as referências virariam piscadas confusas: você não absorve, só caça frame no pause.
Editorialmente, faz sentido: se a cena já é “rápida demais” com uma referência, com três ela vira barulho. E barulho, nesse tipo de sequência, mata a única função que importa ali: estabelecer mundo e motivação sem deslocar o centro emocional do filme.
Por que segurar Naru (em vez de usá-la como muleta) é a decisão mais adulta do filme
É aqui que Predador Terras Selvagens cameos vira estudo de caso de gestão de franquia. Perguntado sobre uma versão em que Naru entraria de fato na trama — encontrando Dek no planeta Genna ou participando do conflito — Trachtenberg foi direto: era “mais o oposto”. Ele evitou o encontro óbvio.
A justificativa que ele dá é cinematográfica antes de ser comercial: “já vimos um Yautja fazer dupla com um humano antes”, lembrando Alien vs. Predator (2004). E, goste ou não do filme, o diagnóstico procede: a dinâmica do “inimigo meu” virando aliado é uma solução pronta, fácil de reconhecer e mais fácil ainda de previsivelmente repetir.
Mas existe um motivo ainda mais interessante: Trachtenberg diz que queria um filme de criaturas onde os humanos não roubassem o protagonismo — “é o filme das criaturas. Só delas. Sem humanos”. Numa franquia que nasceu do esporte sádico de caçar gente, isso é quase uma heresia… e por isso mesmo é um caminho novo. Colocar Naru em cena (ainda mais como heroína carismática e já amada pelo público) mudaria o equilíbrio na hora: Terras Selvagens deixaria de ser sobre Dek e Thia para virar “o retorno de Naru”.
O resultado do corte final é mais elegante: Naru aparece como promessa, não como serviço. E a ausência de informação concreta sobre o paradeiro dela preserva o que cameo costuma destruir: expectativa com peso narrativo.
O que o curta ‘Predador: Assassino de Assassinos’ muda nessa conversa (e por que isso importa)
O detalhe que dá contexto a essa “economia” é o curta animado Predador: Assassino de Assassinos. Nele, Naru surge em um pod criogênico, prisioneira em Yautja Prime, ao lado de Dutch e Mike Harrigan (Danny Glover). Essa cena funciona como uma confirmação estratégica: personagens clássicos ainda estão ativos, o universo tem continuidade e existe um “tabuleiro maior”.
Justamente por isso, enfiar Dutch e o Xenomorph como holograma em Terras Selvagens corria o risco de virar redundância — ou pior, de transformar uma informação que deveria ser “evento” em decoração de fundo. Se você já plantou a bomba no curta, por que gastar a explosão num frame borrado?
Há também um cuidado de tom: o curta já opera na lógica do “cofre de personagens” e do “pós-créditos que abre portas”. Terras Selvagens, por outro lado, tenta se sustentar como filme, com começo-meio-fim, e com uma proposta formal (criaturas em foco) que seria sabotada pelo desfile de ícones humanos.
Paramount, first-look e o calendário invisível por trás do “não agora”
A conversa ganha camada industrial quando você lembra que Trachtenberg fechou um acordo de first-look de três anos com a Paramount Pictures. Isso alimentou dúvidas sobre disponibilidade e prioridade dele com Predador. O diretor, porém, afirmou que está tocando projetos originais para a Paramount em paralelo às continuações no universo Yautja.
Traduzindo: o “economizar” pode ser, ao mesmo tempo, uma decisão artística e um controle de calendário. Guardar Naru, Dutch e Harrigan não é só “deixar para depois” — é evitar que o filme atual vire refém de promessas que talvez dependam de outra janela de produção, de outro estúdio parceiro, de outros contratos e até de outra estratégia de lançamento.
Daí a pergunta que o próprio filme acende sem responder: qual será a prioridade quando ele decidir abrir esse cofre? Uma continuação direta de O Predador: A Caçada (2022), mostrando Naru após a captura? Ou um projeto mais ambicioso que expanda lore Yautja por Dek e Thia sem usar humanos como muleta de marketing?
Veredito: o melhor cameo é o que não estraga o filme que você está vendo
Predador: Terras Selvagens funciona melhor quando resiste à tentação de virar crossover. A presença quase fantasmática de Naru no holograma é eficaz porque atua como gancho temático (há história ali) sem sequestrar o protagonismo. Já o corte de Dutch e do Xenomorph — por mais frustrante que seja para o fã que caça easter egg — protege a integridade do filme como história centrada em Dek e Thia.
Se você pausou a cena dos hologramas esperando achar “a grande pista”, saiba que quase teve. E talvez essa seja a melhor notícia: em vez de queimar cartuchos em referência barata, Trachtenberg parece estar construindo o universo Predator com uma qualidade rara hoje — paciência. Quando (e se) ele finalmente tirar Naru do sono criogênico ou colocar Dutch em colisão com um novo Yautja, isso precisa ser cena, não thumbnail.
Ou, para parafrasear o próprio Dutch: se tem valor narrativo, pode esperar.
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Perguntas Frequentes sobre os cameos em ‘Predador: Terras Selvagens’
Dutch (Arnold Schwarzenegger) aparece em ‘Predador: Terras Selvagens’?
Não. Dan Trachtenberg disse que Dutch chegou a estar em versões iniciais/temporárias da cena dos hologramas, mas a aparição foi cortada na edição.
O Xenomorph de ‘Alien’ aparece em ‘Predador: Terras Selvagens’?
Não no corte final. Segundo o diretor, houve intenção (em rascunhos e VFX temporários) de inserir o Xenomorph como referência na sequência dos arquivos/hologramas, mas isso foi removido.
Naru aparece em ‘Predador: Terras Selvagens’?
Sim, de forma rápida e discreta: ela surge como uma silhueta/holograma em soft focus na cena dos arquivos. Trachtenberg evitou colocá-la na trama para guardar a personagem para um projeto futuro.
Preciso assistir ‘O Predador: A Caçada’ para entender ‘Terras Selvagens’?
Não é obrigatório para acompanhar a história principal de Dek e Thia, mas ajuda a reconhecer quem é Naru e por que a referência dela no holograma tem peso dentro do universo.
O que Trachtenberg quis dizer com “economizar” Naru?
Que ele preferiu não usar Naru como participação especial “fácil” em ‘Terras Selvagens’. A ideia é guardar o retorno dela (e possíveis encontros com outros personagens) para uma história em que isso seja o centro dramático, e não um detalhe de fundo.

