‘Spider-Noir’ troca Peter Parker por Ben Reilly para acertar o tom noir: menos juventude, mais cinismo e identidade fraturada. Entenda por que Nicolas Cage funciona nessa versão e quais pistas sugerem que o nome Ben Reilly pode esconder um twist.
Em um ano em que Peter Parker parece estar em todo lugar — de ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ à segunda temporada de ‘Your Friendly Neighborhood Spider-Man’ — a série ‘Spider-Noir’, da Prime Video, faz o movimento mais barulhento possível: tira Peter do centro do tabuleiro. A troca por Ben Reilly não soa como capricho de casting nem como truque burocrático de direitos; é uma decisão de tom. Se o noir clássico vive de desilusão e de protagonistas que já perderam a fé no “jeito certo” de fazer as coisas, então Peter — associado ao impulso juvenil, à culpa como motor e à esperança teimosa — vira quase um corpo estranho. Ben, ao contrário, chega carregando a ideia de identidade fraturada desde a origem.
O resultado é que Spider-Noir Ben Reilly nasce como proposta: um Aranha que não está “aprendendo a ser herói”, e sim tentando sobreviver ao que já viu — e ao que já fez — numa Nova York dos anos 1930 onde o sistema não recompensa bondade, só insiste em cobrar.
Por que ‘Spider-Noir’ trocou Peter Parker por Ben Reilly (e por que isso combina com o noir)
A confirmação já está nos sinais mais objetivos do material divulgado: Nicolas Cage interpreta Ben Reilly, não Peter Parker. No trailer, o escritório do detetive particular traz “B. Reilly” na porta e Lamorne Morris o chama pelo primeiro nome. Para quem conhece os quadrinhos, o estranhamento é imediato: no cânone de Spider-Man Noir, o Aranha dos anos 30 é Peter Parker; Ben Reilly, por sua vez, vem da mitologia do clone (o Scarlet Spider), ligada a crise de identidade e substituição.
Oren Uziel (showrunner) e Chris Lord (produtor) enquadraram a mudança como escolha narrativa. Em falas de bastidores citadas pela imprensa de entretenimento, Uziel aponta o problema de tom: Peter Parker é imediatamente lido como “garoto”, ainda em formação. Só que noir, quando funciona, não é fantasia de anti-herói com filtro preto e branco: é gênero sobre gente que já foi esmagada pelo mundo e aprendeu a operar dentro do cinismo. Trocar para Ben abre espaço para um protagonista mais velho, mais duro — alguém que, nas palavras atribuídas à equipe, “não tem medo de socar um cara bêbado no rosto”.
Isso é mais do que estética. O noir é uma ética quebrada: personagens que entendem que a cidade é um organismo corrupto, que boas intenções não impedem tragédias e que “fazer a coisa certa” pode custar caro demais. Se Peter costuma carregar o peso do tio Ben como bússola moral (culpa virando responsabilidade), a série sugere um herói em que essa equação está corrompida. A própria ideia de “sem poder, não há responsabilidade” (tagline divulgada) funciona como tese: aqui, poder não eleva; poder ameaça. Responsabilidade não é virtude; é chantagem.
O que a escolha do nome Ben Reilly pode estar escondendo (e por que isso importa)
O detalhe mais interessante não é o nome em si — é o modo como ele foi tratado. Chris Lord deixou no ar que há um motivo específico para ele se chamar Ben Reilly, algo que o público “vai descobrir”. Quando uma equipe evita explicar uma decisão tão central, normalmente não é para “proteger o marketing”; é porque o nome é informação de trama.
Aí entra o ponto que transforma notícia em leitura de mitologia: nos quadrinhos, Ben Reilly existe como identidade derivada — clone, substituto, eco. Ou seja, o nome já carrega, por definição, a pergunta “quem é o verdadeiro?”. E noir adora essa pergunta. Não por acaso, os criadores mencionaram ‘Chinatown’ como referência: o filme constrói sua crueldade em cima de segredos de família, documentos, nomes e verdades que só servem para quebrar o protagonista quando finalmente aparecem.
Há outra pista: em parte da comunicação, Cage aparece creditado como “The Spider” (O Aranha), não necessariamente como “Spider-Man Noir”. Pode ser só simplificação de divulgação — mas, num projeto que está vendendo mistério como atmosfera, também pode ser escolha deliberada. Se a série estiver desenhando um twist de identidade, Ben Reilly funciona como aviso ao fã: não confie no que a máscara diz.
Mesmo que o roteiro não use literalmente o conceito de clone, o nome ainda serve para operar uma ideia de noir: o herói não é íntegro. Ele pode ser um homem que assumiu um nome por culpa, por fuga, por chantagem — ou porque a cidade o rebatizou depois de um “momento Chinatown” que ele preferia esquecer.
Nicolas Cage aqui não é “continuação” do Noir de ‘No Aranhaverso’
É tentador ler ‘Spider-Noir’ como uma versão live-action do personagem que Cage dublou em ‘Homem-Aranha: No Aranhaverso’. Mas a série parece se esforçar para não ser isso. Na animação, o Noir é Peter Parker — e, apesar da casca sombria, ele ainda obedece ao esqueleto moral clássico do Aranha. Em ‘Spider-Noir’, a troca para Ben Reilly é um corte de DNA.
Essa decisão é boa para o multiverso por um motivo simples: ela evita a “continuidade contorcida”. Em vez de explicar por que um Peter virou Ben (o tipo de explicação que mata o clima noir), a série cria um mundo onde Ben sempre foi o detetive mascarado — e deixa o público descobrir por quê. E Cage, pelo que os trailers sugerem, está sendo escalado pelo que ele tem de melhor quando está contido: melancolia, humor seco e uma violência que explode sem aviso, mais compatível com um investigador amargo do que com um adolescente tentando equilibrar escola e heroísmo.
Por que 2026 é o momento perfeito para um Aranha sem otimismo
O curioso é que a ausência de Peter Parker em ‘Spider-Noir’ não acontece por falta do personagem no mercado — acontece por excesso. Entre ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ (31 de julho) e a animação do Disney+, 2026 já está saturado da versão mais “tradicional” do mito: jovem, elástica, esperançosa. Some a isso as especulações de participação de Tom Holland em ‘Vingadores: Doutor Destino’ (18 de dezembro), e fica claro por que a Prime Video quer se diferenciar no braço, não no detalhe.
É aí que a escolha de Ben Reilly ganha valor editorial. Ela posiciona ‘Spider-Noir’ como alternativa adulta — não no sentido raso de “mais violenta”, mas no sentido de um herói que já sabe que algumas histórias não fecham. Se ‘Um Novo Dia’ tende a vender reconstrução e esperança, ‘Spider-Noir’ promete o contrário: chuva constante, traição como regra, e um protagonista que não está se tornando melhor — está tentando não piorar.
No fim, a troca de Peter por Ben não é rejeição ao Aranha icônico. É um teste de elasticidade do mito: até onde a ideia de Spider-Man aguenta ir sem perder o coração? A série parece responder com uma provocação noir: talvez o coração exista, mas esteja enterrado — e a trama seja justamente desenterrá-lo.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Spider-Noir’ e Ben Reilly
Quando estreia ‘Spider-Noir’ na Prime Video?
‘Spider-Noir’ estreia em 27 de maio de 2026 na Prime Video, segundo a data divulgada junto ao material promocional da série.
‘Spider-Noir’ se passa em que época?
A série é ambientada em uma Nova York dos anos 1930, usando o período como base para um tom de investigação noir (corrupção, cinismo e moralidade ambígua).
O Spider-Man Noir dos quadrinhos é Ben Reilly?
Não. Nos quadrinhos, o Spider-Man Noir é tradicionalmente Peter Parker. A escolha de Ben Reilly na série é uma mudança de adaptação — e a produção indica que isso faz parte do mistério da trama.
‘Spider-Noir’ é continuação do Noir que Nicolas Cage dublou em ‘No Aranhaverso’?
Não necessariamente. Em ‘No Aranhaverso’, Cage dublou um Noir que era Peter Parker; em ‘Spider-Noir’, ele interpreta Ben Reilly, sugerindo uma variante diferente e sem obrigação de continuidade direta com a animação.
Preciso assistir aos filmes do MCU para entender ‘Spider-Noir’?
Não. A proposta é de um universo próprio (anos 1930, tom noir) e deve funcionar como história independente, mesmo para quem não acompanha a cronologia do MCU.

