Em vez de comprimir 4000+ páginas em ação genérica, A Torre Negra série Mike Flanagan pode funcionar por um motivo simples: o formato longo permite construir ritmo, vínculo e obsessão — a essência de Roland. Aqui, explicamos onde o filme de 2017 quebrou e por que Flanagan tem o método certo para consertar.
Em 2017, eu saí do cinema com uma sensação rara e amarga: a de que tinha acabado de testemunhar um assassinato. Não no sentido literal, claro, mas o massacre que Akiva Goldsman e Nikolaj Arcel cometeram com ‘A Torre Negra’ — tentando comprimir 4000+ páginas de mitologia densa em 95 minutos de ação genérica — ainda ressoa como um dos maiores desperdícios da história das adaptações. Anos depois, a frustração permanece: Idris Elba e Matthew McConaughey presos em um roteiro que parecia ter medo do próprio material. O que muda agora é que, pela primeira vez, existe uma combinação rara de formato, método e autor certo no comando. A Torre Negra série Mike Flanagan tem chance real de redimir a obra-prima central de Stephen King — não por “ser mais fiel”, e sim por entender o que deve ser preservado.
O diferencial não é só orçamento nem tecnologia em 2026; é a convergência entre obsessão e carpintaria. Flanagan construiu um repertório específico: terror como drama de personagem, e adaptação como tradução de temas (não como checklist de cenas). Ao se afastar do conforto de uma parceria bem-sucedida na Netflix para dedicar anos a Mid-World, ele sinaliza uma coisa que faltou em 2017: compromisso com a escala emocional e narrativa do projeto, não com a “vendabilidade” de um blockbuster.
O erro fatal de 2017: transformar mitologia em sinopse de ação
O filme não falhou por falta de carisma. McConaughey como o Homem de Preto e Elba como Roland Deschain tinham presença — faltou estrutura. ‘A Torre Negra’ não funciona como “uma história sobre salvar a Torre”; ela funciona como um caminho longo onde cada desvio importa. A decisão de tratar a adaptação como uma “sequência” e pular o miolo da jornada — o deserto, os encontros, a formação do ka-tet, a sensação de mundo quebrado — produz exatamente o oposto do que os livros oferecem: urgência vazia.
E o problema não é só quantidade de páginas. É ritmo. King escreveu uma odisséia em que a repetição, a demora e a obsessão são parte do significado: Roland anda, insiste, sacrifica, perde. Quando você arranca isso e substitui por um conflito genérico, o que sobra é uma casca: nomes conhecidos sem peso. É por isso que a adaptação de 2017 parece “pequena”, mesmo tentando soar grandiosa.
O método Flanagan: adaptar tema, não checklist
Flanagan já provou que sabe ampliar literatura sem diluir essência. Em ‘A Maldição da Residência Hill’, ele não “filmou o livro” de Shirley Jackson: ele filmou uma ideia — o horror como herança emocional — e construiu dez horas em torno disso. A força está no controle de cadência (quando segurar, quando explodir) e na confiança de que monólogos, silêncio e dinâmica familiar podem ser tão aterrorizantes quanto qualquer criatura.
Esse é um trunfo direto para Mid-World. ‘A Torre Negra’ é menos sobre set pieces e mais sobre o custo da busca: a obsessão como motor e como veneno. Se a série capturar isso, ela já estará “fiel” no ponto certo — mesmo que mude eventos, compacte arcos ou redesenhe conexões.
E há um elemento de credibilidade difícil de ignorar: King tem sido publicamente receptivo aos roteiros iniciais (ainda que declarações variem de tom ao longo do tempo). Não é selo de garantia — King já aprovou coisas ruins —, mas é um sinal de alinhamento de intenção: a série pretende conversar com a alma da saga, não apenas com sua iconografia.
Por que a forma “série” é a única linguagem que serve a Roland
A primeira frase — “O Homem de Preto fugiu através do deserto, e o pistoleiro o seguiu” — não é um gancho de ação; é uma promessa de perseguição. Essa promessa pede duração. Roland não é herói de aventura no molde tradicional: ele é um cavaleiro trágico num mundo que “se moveu”, preso a um propósito que destrói tudo ao redor. Para isso fazer sentido na tela, o espectador precisa viver tempo com ele — não apenas vê-lo atirar.
O filme de 2017 tentou fabricar, em minutos, o que a saga constrói em volumes: vínculo. A relação entre Roland e Jake (e, depois, com o ka-tet inteiro) é a diferença entre “história” e “destino”. Sem esse lastro, conceitos como portas entre mundos, ka, ka-tet e as ramificações do multiverso King viram exposição apressada — e exposição apressada é sempre o inimigo da fantasia.
Há também um ponto técnico que costuma passar batido: televisão seriada permite calibrar linguagem. Mid-World pode ser faroeste em um episódio, horror cósmico no outro, fantasia sombria no seguinte — e ainda assim parecer a mesma obra, desde que haja uma mão firme na direção de tom, fotografia, som e montagem. Flanagan, quando acerta, é exatamente esse tipo de regente.
Os dois obstáculos reais: o estranho e o meta
O otimismo precisa vir com honestidade: adaptar ‘A Torre Negra’ ainda é uma tarefa ingrata. Existe o “estranho filmável” (criaturas, cenários, batalhas, mundos colapsados) e existe o “estranho conceitual” — especialmente quando a saga flerta com metaficção e com a presença do próprio King na engrenagem do enredo. É o tipo de material que pode soar ridículo se a série não conquistar confiança antes.
É aqui que a experiência de Flanagan com terror ajuda de novo: ele entende que o sobrenatural só funciona quando o emocional já está no lugar. Você pode até filmar a Casa de Chuchupá com efeitos medianos, mas se a sequência estiver amarrada ao medo, ao trauma e ao senso de inevitabilidade do personagem, o público compra. O contrário — efeitos grandes, personagem pequeno — foi exatamente a armadilha de 2017.
Mais importante: Flanagan não vende “fidelidade literal”. Ele vende fidelidade de espírito. E o espírito desta saga é uma pergunta moral, não um objetivo de videogame: quando Roland finalmente chega mais perto da Torre, o que ele perdeu no caminho? E, sobretudo, valeu a pena?
O que está em jogo quando você adapta o “nexo” de King
‘A Torre Negra’ não é só mais uma série de livros do autor mais adaptado do planeta. Ela é o ponto de convergência — o lugar onde a obsessão de King por destino, repetição, Estados Unidos míticos e horror como paisagem emocional vira arquitetura. Por isso tanta coisa “conecta” (às vezes explicitamente, às vezes como eco): não é fan service; é estrutura de mundo.
Uma adaptação que trate isso como “multiverso” no sentido de franquia pode cair no mesmo erro do filme: pressa por referência, pouco interesse por consequência. A versão que pode dar certo é a que entende que as conexões são subproduto, não motor. Primeiro vem Roland, Jake, o ka-tet. As pontes com outros livros vêm depois — se vierem.
Veredito: pela primeira vez, o projeto parece entender o que precisa ser contado
Para quem é fã de King e saiu ferido de 2017, a recomendação é simples: mantenha expectativas moderadas, mas não trate a série como causa perdida. A Torre Negra série Mike Flanagan é a primeira tentativa com uma premissa estrutural correta: tempo para construir vínculo, espaço para o estranho, e um showrunner que costuma priorizar tema e personagem acima de “momento de trailer”.
Para quem nunca leu os livros, esta pode ser a porta de entrada que o filme não conseguiu construir — não por simplificar, e sim por organizar. E, para a fantasia contemporânea, talvez seja o lembrete mais saudável: algumas histórias não cabem no molde de 95 minutos. Algumas torres só se conquistam devagar, um degrau por vez.
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Perguntas Frequentes sobre ‘A Torre Negra’ (série do Mike Flanagan)
A série ‘A Torre Negra’ do Mike Flanagan vai adaptar todos os livros?
A intenção é cobrir a saga com tempo de desenvolvimento (múltiplas temporadas), mas a adaptação não deve ser “livro a livro” de forma literal. O mais provável é uma estrutura que combine arcos e reorganize eventos para manter clareza e ritmo na TV.
Preciso ler os livros para entender a série ‘A Torre Negra’?
Não. A série deve ser pensada como ponto de entrada para novos públicos, explicando regras do mundo e personagens aos poucos. Ler os livros ajuda a captar camadas e ecos com outras obras de King, mas não deve ser requisito.
O filme de 2017 ‘A Torre Negra’ serve como “introdução” para a série?
Não é necessário (e dificilmente será útil) ver o filme de 2017 para acompanhar a série. A nova adaptação tende a recomeçar o universo com outra lógica e outra construção de personagens, justamente para evitar os atalhos do longa.
A série vai conectar ‘A Torre Negra’ com outros livros do Stephen King?
É possível que existam referências e conexões, porque isso já é parte do material original. Mas o que deve determinar o sucesso da série é a jornada de Roland e do ka-tet; conexões com ‘It’, ‘The Stand’ e outros livros funcionam melhor como consequência orgânica, não como obrigação de “franquia”.
Quando estreia ‘A Torre Negra’ (série do Mike Flanagan) e onde assistir?
Até o momento, a informação mais citada é que o projeto está em desenvolvimento para o Prime Video (Amazon), mas datas exatas podem mudar. O ideal é tratar qualquer previsão de estreia como estimativa até haver anúncio oficial do serviço e início de filmagens.

