As primeiras reações a Manual Prático da Vingança Lucrativa explicam por que o thriller da A24 está sendo comparado a Psicopata Americano: Glen Powell usa carisma “distorcido” para transformar sátira de herança em desconforto moral — e é aí que o filme pode virar cult.
Quando uma dark comedy da A24 é comparada a Psicopata Americano antes mesmo de estrear, o instinto é desconfiar. Desde 2000, todo thriller com protagonista rico e instável tenta pegar carona na sombra de Patrick Bateman. Mas as primeiras reações a ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ sugerem que, desta vez, a comparação pode ser mais do que marketing — principalmente por causa de Glen Powell, descrito por quem já viu o filme como “magnético” e “distorcido” ao mesmo tempo.
O longa chega aos cinemas americanos em 20 de fevereiro (a data de estreia no Brasil ainda não foi confirmada). E funciona também como um movimento calculado na carreira de Powell: depois de virar estrela de bilheteria com Top Gun: Maverick, Todos Menos Você e Twisters, ele precisa provar que consegue sustentar um protagonista que não depende de simpatia automática — e que, em certos momentos, até exige que o público se envergonhe do próprio fascínio.
O que é ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ (e por que a premissa é mais venenosa do que parece)
A história é um motor de sátira embalado como thriller: Becket Redfellow (Powell) foi deserdado ao nascer por uma família ultrarrica e cresceu levando uma vida de “colarinho azul” enquanto parentes que ele considera inúteis se beneficiavam do sobrenome. A “correção” que ele encontra para esse erro original é direta e monstruosa: eliminar, um a um, os familiares que estão à frente dele na linha sucessória.
Se a premissa lembra uma mistura de Knives Out com Emily, A Criminosa, há um motivo concreto: o diretor e roteirista John Patton Ford é o mesmo de Emily, A Criminosa. E o elenco de apoio aponta para um tom excêntrico, quase de galeria de tipos: Margaret Qualley, Jessica Henwick, Ed Harris, Bill Camp, Zach Woods e Topher Grace.
Um detalhe útil para quem acompanha bastidores: o filme circulou por um tempo com o título Huntington. Essa mudança costuma sinalizar reposicionamento (tom, público-alvo, vendabilidade) — e combina com o tipo de obra que quer ser “cult” sem abrir mão de acessibilidade.
Por que críticos estão citando ‘Psicopata Americano’ — e o que isso diz sobre o filme
Rachel Leishman resumiu o impulso comparativo sem rodeios: disse que o filme a lembra Psicopata Americano — e chamou isso de “perfeição absoluta”. O ponto não é a estética “yuppie assassino” por si só, e sim o que ela costuma carregar: crítica social disfarçada de entretenimento cruel.
Em Psicopata Americano, Mary Harron transforma Patrick Bateman num instrumento para satirizar a vacuidade e a violência simbólica do capitalismo dos anos 80. Aqui, o que aparece nas reações é uma atualização do alvo: Becket funciona como caricatura do “self-made man” e do delírio meritocrático levado às últimas consequências. Se a cultura do “hustle” já normaliza a ideia de que “vale tudo” para vencer, a lógica do personagem seria apenas a versão literal — e homicida — desse mantra.
A diferença mais interessante está no tipo de distância que o filme parece criar. Harron observava Bateman com frieza clínica; Ford, pelo que se comenta, brinca com uma identificação mais escorregadia. Jairo Jiménez descreveu Powell com “carisma magneticamente distorcido e assustador” — um elogio que é quase um aviso. Quando o protagonista é atraente e abjeto ao mesmo tempo, a sátira não está só na tela: ela também acontece no espectador, que se pega “comprando” a lógica do monstro por alguns minutos.
Glen Powell e o risco (deliberado) da simpatia
Powell construiu a fase recente da carreira em cima de um capital muito específico: ele é o astro que parece acessível, o cara que a câmera gosta porque o público gosta. Em Todos Menos Você, isso é virtude de comédia romântica; em Twisters, vira heroísmo sem esforço. Em ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’, a graça está em corromper essa moeda.
Tessa Smith citou a “química elétrica” com Margaret Qualley e a sensação incômoda de que o filme faz você torcer por Becket mesmo sabendo exatamente o que ele é. Isso exige um tipo de atuação que manipula microviradas: não basta ser “charmoso”, é preciso sugerir o abismo por baixo do sorriso — e deixar o público cair ali sem perceber.
Adriano Caporusso ofereceu o contraponto mais útil para calibrar expectativas: apontou que o material pode ser “simples” e “desleixado em partes”, mas que o charme de Powell eleva trechos “subescritos” para algo mais envolvente. Traduzindo: pode não ser um roteiro cirúrgico, mas a performance parece ser o elemento que dá liga e coerência emocional ao delírio.
Outro comentário recorrente nas reações — e o mais revelador sobre o tom — é o adjetivo para as mortes: “bonkers”. Não é só violência; é violência coreografada como piada sombria, com criatividade macabra. Para um filme com DNA A24, isso costuma significar duas coisas: personalidade visual e uma aposta consciente em desconforto moral como entretenimento.
Margaret Qualley como catalisador: a dinâmica que pode salvar (ou destruir) a sátira
Se Powell é o centro gravitacional, Qualley parece funcionar como o agente que acelera a colisão. A descrição de Julia Steinway como alguém de “energia levemente desvairada” sugere que ela não existe para humanizar Becket, e sim para validar — e talvez amplificar — suas piores decisões. A química “explosiva” citada por mais de uma reação remete a pares do noir: duas pessoas que se reconhecem na própria disfunção e chamam isso de romance.
Qualley tem um histórico de projetos que desmontam arquétipos (de Once Upon a Time in Hollywood a Drive-Away Dolls). Aqui, a impressão é que ela evita a “garota problemática decorativa” e vira cúmplice real do tom do filme. Isso importa porque, numa sátira sobre herança, ressentimento e violência, o risco é a obra se apaixonar pelo próprio cinismo. Uma personagem capaz de deslocar a energia da cena — e de denunciar o ridículo quando necessário — costuma ser a diferença entre humor negro e fetichização.
John Patton Ford depois de ‘Emily, A Criminosa’: da urgência econômica ao thriller elegante
Ford vem de um filme cuja tensão era social e física: Emily, A Criminosa tinha urgência, precariedade, a sensação de que as paredes fechavam. Em ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’, Matt Neglia descreveu um “ritmo confiante, fluido”, com a ressalva de que essa elegância também pode passar rápido por alguns aspectos mais intrigantes da história.
Essa observação é o tipo de “alerta de festival” que costuma se confirmar quando um filme aposta em energia e estilo para manter a plateia junto, mas deixa temas grandes (classe, ressentimento, moralidade) como decoração. Ao mesmo tempo, se o objetivo é um thriller ácido com vocação de cult, a fluidez pode ser parte do golpe: você se diverte — e só depois percebe o que o filme fez você aceitar.
Por isso, a comparação com Psicopata Americano funciona melhor como parâmetro de ambição: ambos dependem de um protagonista que vende loucura como lógica. A pergunta não é “parece Bateman?”, e sim “o filme te pega pela identificação e, quando você percebe, já te expôs?”.
O que dá para concluir das primeiras impressões (sem comprar hype nem cinismo)
As reações não parecem unânimes sobre o roteiro, mas convergem num ponto: Powell carrega o filme. Quando críticos chamam a escrita de “subescrita” ou “desleixada em partes” e, ainda assim, descrevem o resultado como “divertido” e envolvente, estamos diante de um tipo específico de experiência — um thriller em que a coerência importa menos do que o pulso e a sedução.
Para o público brasileiro, o maior risco não está no filme, e sim no enquadramento: vender como “o novo filme do cara de Top Gun” pode atrair a audiência errada. O caminho mais honesto é posicionar como thriller ácido de humor negro, na linha do público que abraçou O Menu e Corpo, Corpo, Corpo.
Quanto ao rótulo Psicopata Americano, vale cautela. Patrick Bateman era um espelho vazio; Becket Redfellow, pelo que indicam as reações, é um espelho cheio de raiva que o filme trata como “compreensível” — e isso pode ser ainda mais perigoso. Se o tal final “chocante” mencionado por Tessa Smith sustenta essa lâmina até o último minuto, a comparação deixa de ser muleta e vira conversa: não sobre quem mata, mas sobre por que o cinema ainda consegue fazer a gente torcer — e rir — quando a vingança se disfarça de meritocracia.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’
Quando estreia ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’?
Nos EUA, a estreia nos cinemas está marcada para 20 de fevereiro de 2026. Até o momento, não há data oficial confirmada para o lançamento no Brasil.
‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ é baseado em livro ou história real?
Não há indicação de que seja baseado em história real. O filme é um projeto original escrito e dirigido por John Patton Ford.
Por que estão comparando o filme a ‘Psicopata Americano’?
Porque as primeiras reações citam uma sátira de classe com protagonista carismático e perturbador, além de uma crítica à lógica do sucesso a qualquer custo — paralelos temáticos com o filme de Mary Harron, mais do que uma semelhança literal de trama.
Quem dirige ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’?
John Patton Ford, o mesmo diretor e roteirista de Emily, A Criminosa (2022).
O filme é mais comédia, thriller ou terror?
Pelas reações iniciais, é principalmente um thriller com humor negro (dark comedy), com mortes descritas como criativas e absurdas — mais sátira violenta do que terror tradicional.

