‘Alice in Borderland’ termina na 3ª temporada: entre o cyberpunk e o País das Maravilhas

‘Alice in Borderland’ encerra na 3ª temporada apostando no seu híbrido mais arriscado: cyberpunk na superfície, País das Maravilhas na estrutura. Analisamos por que o retorno ao Borderland entrega espetáculo, mas enfraquece o sentido de conclusão que a 2ª temporada já tinha conquistado.

Quando ‘Alice in Borderland’ estreou na Netflix em 2020, muita gente tratou a série como “mais um thriller asiático de jogos mortais” — e, com ‘Squid Game’ virando fenômeno no ano seguinte, a comparação ficou inevitável (ainda que invertida no calendário). Só que a graça aqui sempre foi outra: por baixo dos lasers vermelhos, dos mapas de Tóquio esvaziada e do techwear funcional, existe uma lógica de fábula. A série respira Lewis Carroll. E é justamente nessa mistura — cyberpunk na superfície, País das Maravilhas no DNA — que a terceira temporada encontra seu maior dilema: ela entrega espetáculo, mas complica o sentimento de encerramento.

Quando Tóquio vira o País das Maravilhas (com estética cyberpunk)

O trunfo visual de ‘Alice in Borderland’ sempre foi transformar cenário em dramaturgia. A Tóquio deserta não parece só abandonada; ela parece suspensa, como se o mundo tivesse sido pausado e ninguém lembrasse o atalho para voltar. É uma sensação mais próxima de sonho do que de distopia tecnológica — e isso muda o tipo de medo que a série produz. Não é apenas “o sistema vai te matar”; é “as regras do real pararam de valer”.

Ao mesmo tempo, a série se apoia em um verniz sci-fi/cyberpunk bem calculado: interfaces de jogo, avisos, contagens regressivas, regras rígidas e punições automáticas. O Borderland funciona como um software: você não negocia com ele, você cumpre o protocolo — ou é eliminado. Só que o que preenche esse sistema é fantasia pura: encontros com arquétipos, testes morais, personagens que viram função narrativa, como em ‘Alice no País das Maravilhas’ ou em portais à la ‘As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa’.

Os nomes são a pista mais explícita (e mais honesta) do projeto: Arisu (Alice), Usagi (Coelho), Hatter (Chapeleiro). Não é “easter egg”: é a chave de leitura. Como em Carroll, os personagens são empurrados para jogos que não escolheram, sob regras arbitrárias mas consistentes — e a consistência é o que torna o absurdo verossímil. A grande provocação da série sempre foi essa: o Borderland é uma explicação sci-fi para uma experiência de fantasia… ou uma fantasia que se disfarça de sci-fi para parecer “racional”?

Uma cena que explica por que a série funcionou (antes do debate do final)

Vale voltar ao começo para entender o impacto. No jogo de “tag” do primeiro episódio, o suspense não nasce de gore ou surpresa barata; nasce de informação incompleta. A encenação faz o espectador correr junto: a câmera acompanha os participantes pelas ruas e corredores, a montagem intercala tentativas de leitura do ambiente com explosões de ação, e a trilha segura a tensão num nível quase físico. O melhor detalhe é o tempo que a direção dá ao raciocínio — você vê o pânico e, ao mesmo tempo, a engrenagem mental tentando decifrar o sistema antes que o sistema decifre você.

Essa sequência é importante porque resume o pacto de ‘Alice in Borderland’: jogos como narrativa e como metáfora. Cada desafio funciona como teste lógico, mas também como confronto emocional — medo de morrer, culpa de sobreviver, impulso de sacrificar o outro. Quando a série acerta, ela faz as duas coisas ao mesmo tempo.

A fidelidade que construiu a base (e o epílogo que abalou)

A fidelidade que construiu a base (e o epílogo que abalou)

As duas primeiras temporadas funcionaram porque respeitaram o mangá de Haro Aso não só no enredo, mas no tom. E isso é raro: adaptações live-action de mangá costumam escorregar ao tentar “realismo” demais (apagando o exagero essencial) ou “fidelidade” demais (copiando o painel sem traduzir a linguagem). Aqui houve tradução: o impacto dos jogos se manteve, e as mortes tiveram peso dramático — não eram só choque.

O ponto de inflexão está no que a terceira temporada escolhe ser. Depois do fechamento da segunda — com a revelação do Borderland como um espaço liminar entre vida e morte e a decisão de retorno ao mundo real — a produção opta por puxar material associado ao epílogo Retry, publicado depois no universo do mangá. É uma escolha que faz sentido como “mais uma rodada”, mas que muda o estatuto emocional do final: em vez de conclusão, vira reincidência.

Não ajuda que a percepção pública tenha oscilado: enquanto as primeiras temporadas circularam com aprovação alta, a terceira entrou no radar como “a polêmica”, com queda evidente no termômetro de agregadores (a diferença entre a aprovação anterior e a nova nota virou parte da discussão dos fãs). Isso não prova qualidade ou falta dela — mas revela a fratura: a audiência não estava só avaliando episódios; estava defendendo o direito de a história terminar.

Por que a temporada final de ‘Alice in Borderland’ dividiu os fãs

A crítica central à terceira temporada não costuma ser técnica. A série segue competente na fotografia, na escala de produção e no controle de set pieces. Kento Yamazaki (Arisu) e Tao Tsuchiya (Usagi) continuam sólidos — especialmente quando o texto permite silêncio, hesitação e microdecisões em vez de explicação.

O problema é estrutural: Retry sempre funcionou melhor como suplemento, uma espécie de posfácio para quem queria revisitar o mecanismo. Como última palavra, ele corre o risco de reconfigurar o sentido do arco anterior. O final da segunda temporada tem um tipo de maturidade rara em thrillers de sobrevivência: é sobre aceitar trauma, abandonar a fantasia do “jogo que dá sentido a tudo” e voltar ao mundo — que é mais confuso, mas é seu. Trazer os personagens de volta pode soar como desfazer essa escolha.

Meu posicionamento é claro: a terceira temporada funciona como televisão — tem ritmo, tem ganchos, tem a adrenalina dos novos jogos —, mas falha como encerramento definitivo. Não porque “não devia existir”, e sim porque o gesto de retorno muda o que o retorno significava.

A temporada também investe mais em mitologia. Ao sugerir que o fenômeno é global — e ao flertar com uma continuação/expansão fora do Japão — ela amplia o tabuleiro, mas afina menos a psicologia. E é aí que a série perde um pouco do que a diferenciava: ‘Alice in Borderland’ nunca foi “sobre os jogos”; os jogos eram a lente. Quando a lente vira o objeto, o coração do projeto esfria.

O legado: uma das melhores adaptações live-action de mangá (com uma ressalva)

Mesmo com a divisão do final, ‘Alice in Borderland’ permanece como um caso raro de adaptação bem-sucedida. Em um cenário em que live-actions frequentemente escorregam — seja por tentativa de americanização, seja por vergonha do próprio material de origem — a série abraça sua identidade japonesa e sua estranheza. A estrutura das cartas (copas, espadas, ouros, paus) vira gramática narrativa; Tóquio não é pano de fundo “genérico global”, é textura.

Também é uma série que prova que sci-fi “acessível” não precisa ser raso. O casamento entre cyberpunk e fantasia funciona porque ambos falam de sistemas: algoritmos, protocolos, labirintos, regras arbitrárias, tribunais sem juiz. No fim, o terror é o mesmo — a sensação de impotência diante de um mecanismo que não explica por que você foi escolhido.

Por isso o flerte com um spin-off/remake ocidental soa comercialmente lógico, mas artisticamente perigoso. O que fez a série transcender o “subgênero dos jogos” foi sua especificidade: o vazio de Tóquio, a cadência contemplativa entre desafios, o toque carrolliano de absurdo coerente. Tirar isso e manter apenas a premissa pode resultar em mais um survival genérico.

No fim, ‘Alice in Borderland’ termina como começou: como um sonho lúcido do qual você não tem certeza se quer acordar. A terceira temporada pode ser desnecessária? Talvez. Mas, depois de acompanhar Arisu atravessando o espelho, é difícil negar o apelo de mais alguns passos — mesmo que esses passos compliquem a sensação de ter, um dia, encontrado o caminho de casa.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Alice in Borderland’

‘Alice in Borderland’ termina na 3ª temporada?

Sim. A 3ª temporada foi divulgada como o encerramento da série na Netflix, funcionando como um epílogo/retorno ao Borderland após o desfecho da 2ª temporada.

Preciso assistir a 1ª e a 2ª temporada antes da 3ª de ‘Alice in Borderland’?

Precisa. A 3ª temporada parte diretamente das escolhas e do fechamento emocional do fim da 2ª, então assistir fora de ordem tira o peso dramático e torna as explicações do Borderland confusas.

A 3ª temporada de ‘Alice in Borderland’ adapta o mangá?

Em parte. A história principal do mangá é majoritariamente resolvida até o fim da 2ª temporada; a 3ª se apoia mais na ideia de epílogo/continuação associada a material posterior (como ‘Retry’), o que muda o efeito de “final definitivo”.

‘Alice in Borderland’ é parecida com ‘Squid Game’?

As duas têm jogos letais e crítica a sistemas, mas o tom é diferente: ‘Alice in Borderland’ é mais fantástico e “carrolliano”, com um mundo paralelo de lógica onírica, enquanto ‘Squid Game’ é mais realista e social na mecânica do terror.

‘Alice in Borderland’ tem cena pós-créditos na 3ª temporada?

Se você quer evitar perder um gancho, vale assistir até o fim dos créditos do último episódio: a série usa o encerramento para sugerir expansão do fenômeno para além do Japão.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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