‘Star Trek’: a tensão entre Picard e Sisko que nunca foi resolvida

Em ‘Emissary’, o encontro entre Sisko e Picard transforma Wolf 359 em ferida aberta. Esta análise mostra como DS9 usa silêncio, atuação e ausência de closure para tornar o trauma mais real — e por que a franquia só “reencena” isso décadas depois.

Há encontros em ‘Star Trek’ que definem eras — e outros que definem feridas. Quando Sisko e Picard se cruzaram pela primeira e única vez na estreia de ‘Jornada nas Estrelas: A Nova Missão’ (DS9), em 1993, o que vimos não foi a celebração diplomática entre dois heróis da Frota Estelar. Foi algo mais raro e incômodo: um momento de confronto mudo, carregado de culpa e trauma, que a franquia nunca mais retomou. E talvez, paradoxalmente, essa omissão tenha sido a escolha mais honesta que os roteiristas poderiam ter feito.

No piloto ‘Emissary’, Benjamin Sisko (Avery Brooks) ainda é Comandante e recebe a designação de assumir Deep Space Nine. Antes de pisar na estação, ele precisa reportar-se a Jean-Luc Picard (Patrick Stewart). A cena é enxuta e sufocante: enquadramentos fechados, ritmo contido, pausas que parecem mais longas do que a duração real. Picard entrega as ordens com a cortesia profissional de sempre; Sisko, porém, deixa o ressentimento vazar sem elevar a voz. “Nós nos conhecemos antes”, ele diz — e o silêncio seguinte faz o trabalho de um discurso inteiro. A Batalha de Wolf 359 não é explicada ali: ela é sentida.

O peso de Locutus: por que Wolf 359 muda o significado de Picard

O peso de Locutus: por que Wolf 359 muda o significado de Picard

Para entender a tensão entre Sisko e Picard, é preciso voltar a ‘The Best of Both Worlds’, o grande trauma fundador da era ‘A Nova Geração’. Picard é assimilado pelos Borg e convertido em Locutus — não um refém passivo, mas um instrumento ativo de persuasão e estratégia. Com o conhecimento tático do capitão do Enterprise, os Borg destroem a Frota Estelar em Wolf 359: 39 naves aniquiladas e cerca de 11 mil mortos em questão de horas.

Sisko era Tenente-Comandante no USS Saratoga. Ele e Jake sobreviveram; Jennifer, sua esposa, não. É por isso que, quando Sisko encara Picard três anos depois, ele não vê o diplomata celebrado, nem o símbolo de exploração pacífica. Ele vê o rosto do evento que rasgou sua família. E ‘Star Trek’ raramente tinha permitido, até então, que uma ferida moral ficasse tão explícita dentro da própria utopia.

A força da sequência vem do trabalho de atuação e de como a encenação se recusa a “resolver”. Avery Brooks joga tudo no controle: postura dura, voz medida, o olhar que evita ceder um milímetro. Patrick Stewart responde com um desconforto quase físico: Picard não argumenta, não tenta reescrever a narrativa (“eu também fui vítima”), não busca alívio emocional. Ele engole a culpa e deixa que ela exista na sala. É televisão com linguagem de cinema — e, para 1993, um gesto de maturidade incomum numa franquia acostumada a reestabelecer o status quo ao fim do episódio.

Por que DS9 nunca deu closure (e por que isso é coerente com a série)

A lógica mais “televisiva” seria simples: colocar Sisko e Picard frente a frente de novo, construir uma missão em que precisassem confiar um no outro e entregar, enfim, um perdão verbalizado. Nada disso acontece. Sisko é promovido, DS9 entra na Guerra do Domínio, e Picard migra para outra vitrine narrativa — os filmes de ‘A Nova Geração’ — onde o tema de Wolf 359 existe, mas raramente ganha o tipo de consequência humana que ‘Emissary’ sugere.

Há uma razão prática óbvia: agenda e prioridades de produção. Stewart estava nos longas; DS9 tinha a necessidade (e a ambição) de se afirmar como algo além de uma “série irmã” do Enterprise. Mas há uma razão dramática ainda mais forte: a falta de resolução é exatamente o que dá verossimilhança ao trauma de Sisko. Nem toda dor vira cena de reconciliação. Muitas viram rotina.

O arco de Sisko não exige perdão a Picard para funcionar. Ele exige outra coisa: que ele pare de estar “preso” ao momento em que Jennifer morreu. E é isso que a própria estrutura de ‘Emissary’ verbaliza quando os Profetas o confrontam com a pergunta essencial: por que ele continua vivendo naquele instante? A resposta de DS9 para Wolf 359 não é um reencontro com Picard; é a lenta reaprendizagem de vida — ser pai, reconstruir afetos (Kasidy Yates), encontrar propósito e, por fim, aceitar um destino que ultrapassa a carreira militar.

A menção mais lembrada a Picard em DS9 é quase uma piada agressiva: quando Sisko soca Q e rosna “eu não sou o Picard!”. Funciona como gag, mas também como diagnóstico. Mesmo quando a série não fala de Locutus, o personagem ainda sabe que existe um “outro capitão” com quem o universo o compara — e ele faz questão de se diferenciar.

O confronto que Sisko não teve: Shaw como eco tardio de Wolf 359

O confronto que Sisko não teve: Shaw como eco tardio de Wolf 359

Décadas depois, ‘Jornada nas Estrelas: Picard’ temporada 3 finalmente encena o que DS9 deixou em suspenso: um sobrevivente de Wolf 359 encarando Picard sem etiqueta. Liam Shaw (Todd Stashwick), capitão do Titan-A, despeja um monólogo amargo em que chama Picard de “Locutus” e o responsabiliza diretamente pela morte de colegas e pelo trauma que ele carregou a vida inteira. É uma cena catártica — e, por contraste, faz ‘Emissary’ ficar ainda mais afiado.

O que Shaw externaliza em palavras é o que Sisko comprime em postura. Sisko não é menos ferido; ele é mais funcional. Em DS9, a dor vira disciplina, vira dever, vira comando — uma forma de sobrevivência que também tem custo. Shaw é o sobrevivente que não encontrou um lugar saudável para depositar o passado; Sisko é o sobrevivente que escolheu uma máscara e aprendeu a respirar por trás dela porque precisava ser pai antes de qualquer coisa.

Essa comparação também reposiciona Picard. Em 1993, ele parece recém-saído da sombra de Locutus — e, por isso, incapaz (ou indisponível) para o tipo de conversa que exigiria uma resposta emocional mais direta. Já com Shaw, décadas depois, ele parece capaz de ouvir sem buscar absolvição. Não porque ficou “inocente”, mas porque envelheceu com a culpa.

A elegância do irresoluto: quando ‘Star Trek’ aceita que nem tudo se conserta

No fim, a tensão não resolvida entre Sisko e Picard virou um dos pontos mais humanos da mitologia de ‘Star Trek’. Não há aperto de mão redentor, nem música telegrafando a lição do episódio. Há só a realidade: dois homens carregando pesos diferentes do mesmo evento — e seguindo em linhas paralelas.

Picard avança para novas fronteiras e, eventualmente, para cargos maiores; Sisko avança para algo quase mítico, encerrando DS9 ao se unir aos Profetas, num destino que o afasta tanto da Frota quanto do tipo de “acerto de contas” que a dramaturgia convencional cobraria. Ele sai sem ter “resolvido” Picard — e isso não diminui o arco. Pelo contrário: confirma que a ferida de Wolf 359 não é um subplot a ser encerrado; é uma cicatriz que organiza identidades.

Rever ‘Emissary’ hoje é notar detalhes que sustentam a tese do episódio sem sublinhar. Quando Sisko finalmente aceita a missão, Picard não oferece o sorriso de alívio de um superior que “convenceu” seu subordinado. Ele apenas assente — e há um quase imperceptível relaxamento no olhar de Stewart, como quem reconhece que foi julgado e compreendido, ainda que não perdoado. Não há cura ali. Há testemunho. E talvez essa seja a escolha mais fiel que ‘Star Trek’ poderia fazer num universo em que quase tudo se resolve com tecnologia — menos o que é demasiado humano.

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Perguntas Frequentes sobre Sisko e Picard em ‘Star Trek’

Em qual episódio Sisko encontra Picard?

Sisko encontra Picard no episódio piloto de ‘Jornada nas Estrelas: A Nova Missão’ (DS9), chamado ‘Emissary’ (1993). É o único encontro direto mostrado na franquia.

Por que Sisko culpa Picard por Wolf 359?

Porque Picard foi assimilado e virou Locutus, e os Borg usaram seu conhecimento e sua imagem como arma na batalha. Para Sisko — que perdeu a esposa no USS Saratoga — o rosto de Picard está ligado ao evento, mesmo que Picard também tenha sido vítima.

Sisko e Picard se encontram de novo depois de ‘Emissary’?

Não. Após ‘Emissary’, DS9 não mostra nenhum novo encontro entre os dois personagens em tela.

É preciso assistir ‘A Nova Geração’ para entender a tensão Sisko Picard em DS9?

Ajuda bastante, mas não é obrigatório. Entender o contexto de ‘The Best of Both Worlds’ e da Batalha de Wolf 359 aprofunda o impacto, porém ‘Emissary’ já dá informação suficiente para você captar que existe um trauma direto entre eles.

A temporada 3 de ‘Star Trek: Picard’ tem ligação com Wolf 359?

Sim. A temporada 3 inclui um confronto explícito entre um sobrevivente de Wolf 359 (o capitão Liam Shaw) e Picard, abordando a culpa associada a Locutus de forma direta — algo que DS9 deixou no subtexto com Sisko.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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