Em entrevista exclusiva, Celeste Hughey detalha como ‘The Burbs’ série inverte a paranoia suburbana do filme de 1989 em comédia sobre pertencimento racial. Entenda por que Keke Palmer é a herdeira perfeita do carisma de Tom Hanks e como a produção conquistou o ‘selo de aprovação’ do roteirista original.
Adaptar um filme cult sempre foi terreno minado. O equilíbrio entre honrar o material original e justificar a existência de uma nova versão exige mais que nostalgia — exige uma visão que reconheça o que fez a obra original ressoar, mesmo que isso signifique deslocar o centro gravitacional da história. É exatamente esse o desafio que The Burbs série enfrenta ao revisitar a comédia de mistério dos anos 80 estrelada por Tom Hanks, e, conversando com a criadora Celeste Hughey, fica claro que a produção do Peacock entendeu a tarefa como algo maior que um simples reboot.
Hughey, cujo trabalho em Disque Amiga para Matar e na adaptação de Alta Fidelidade para a Hulu prova seu domínio em transformar propriedades intelectuais queridas em narrativas autônomas, não chegou ao projeto de paraquedas. Sua primeira experiência com The ‘Burbs (1989) aconteceu nos anos 90, em um porão de amigo, e confessa que, na época, a experiência foi predominantemente assustadora — a sutileza da sátira sobre a “mal-estar suburbano” passou despercebida para seus olhos jovens. Foi apenas ao revisitar o filme como adulta, já desenvolvendo a série, que reconheceu a genialidade do roteiro original: “Pegar todas aquelas falas, nuances e comentários que eu perdi quando era criança foi inspirador”, relembra.
O mesmo quintal de Tom Hanks: por que Hinckley Hills importa
A conexão entre o filme de Joe Dante e a nova temporada vai além de referências Easter egg para fãs. O The Burbs série mantém o mesmo DNA geográfico: continuamos em Hinckley Hills, a cidade fictícia “mais segura da América”, e a produção teve acesso ao mesmo cul-de-sac do Universal backlot onde o original foi fotografado. Esse “imprint espiritual”, como Hughey descreve, cria uma continuidade física que sustenta a nova narrativa — quando Samira (Keke Palmer) caminha por essas ruas, está literalmente pisando onde Ray Peterson (Tom Hanks) pisou três décadas atrás.
Mas a criadora foi explícita em seu intento: “Queria torná-lo sua própria história”. A série não é um remake tradicional, tampouco uma sequência direta — é, nas palavras da showrunner, “ambos”. Temos um mundo novo com personagens inéditos, mas fios condutores que ligam as duas obras. Samira não é uma recriação do personagem de Hanks, mas herdeira de sua posição narrativa: o centro carismático de um universo que desafia expectativas sobre quem tem o direito de ser o protagonista de uma comédia de mistério.
Quando o ‘outro’ sou eu: a inversão de perspectiva
Onde o filme de 1989 direcionava sua tensão para vizinhos estrangeiros e desconhecidos — permitindo que suspeitas xenofóbicas correm soltas entre os moradores brancos de classe média —, Hughey inverteu completamente o prisma. A nova série aplica o tema do “fish-out-of-water” à própria protagonista, transformando a paranoia externa em questionamento interno sobre pertencimento.
“Cresci numa cidade suburbana branca como criança mestiça com pais inter-raciais. Nunca senti que realmente combinava com o perfil suburbano”, explica Hughey. Essa experiência pessoal se traduz em Samira: uma mulher negra que se muda com o marido (Jack Whitehall, perfeitamente escalado como britânico perdido na cultura americana dos subúrbios) e seu recém-nascido para a casa de infância dele em Ashfield Place.
A curiosidade sobre uma casa vitoriana abandonada — onde o misterioso Gary (Justin Kirk) se instala com a suposta intenção de renovação histórica — serve de catalisador, mas o verdadeiro mistério é o processo de Samira tentando decifrar códigos culturais de um território onde ela é, visual e socialmente, a outsider. A dinâmica evolui para uma comunidade de “weirdos e outsiders” que encontram uns nos outros, subvertendo a paranoia do original em algo que se assemelha mais a uma família escolida.
O carisma herdado: por que Keke Palmer é a Tom Hanks que precisávamos
Se há um elemento que justifica plenamente a existência desta adaptação, é o casting. Hughey não economiza elogios técnicos quando fala de Palmer: “Ela é um unicórnio de ser humano, mas acredito que ela é tipo nossa Tom Hanks moderna”. A comparação não é casual nem hiperbólica — é uma análise precisa de aptidões raras.
Assim como Hanks na virada dos anos 80 para 90, Palmer demonstra amplitude dramática que transita entre comédia física, leveza, pathos e drama existencial sem quebrar a coerência do personagem. “Ela tem o charme e autenticidade que as pessoas buscam numa grande estrela”, continua Hughey. No set, Palmer funcionou como “Estrela Polar” do elenco — que inclui nomes como Paula Pell (Saturday Night Live), Julia Duffy (indicada ao Emmy), Mark Proksch (What We Do in the Shadows) e Kapil Talwalkar (Night Court) — estabelecendo um tom de generosidade colaborativa que evita a cínica distância emocional comum em comédias contemporâneas.
É justamente essa capacidade de ancorar uma produção entretenimento com presença autêntica que permite ao The Burbs série navegar entre gêneros sem perder o público. Palmer não imita Hanks; ela ocupa o mesmo espaço arquetípico que ele dominou: o protagonista confiável que pode levar o espectador a lugares estranhos e desconfortáveis sem perder sua identificação emocional.
A bênção do roteirista original e o fã famoso
A legitimidade de uma adaptação frequentemente depende da bênção dos criadores originais. Neste caso, Hughey conseguiu o que poucos reboots alcançam: o “selo de aprovação” de Dana Olsen, roteirista do filme de 1989. Olsen, que atua como co-produtor executivo, leu os roteiros e “realmente amou” o resultado. A homenagem vai além do conceito: a personagem de Paula Pell foi batizada de Dana em sua homenagem, criando uma ponte metanarrativa entre as eras.
A presença de Seth MacFarlane (criador de Uma Família da Pesada) como produtor executivo reforça ainda mais a conexão com o espírito original. MacFarlane é um fã declarado do filme de Dante — “seu filme favorito”, segundo Hughey — e havia tentado produzir um remake há anos, inicialmente concebido como projeto pequeno durante a pandemia, filmado no backlot. A expansão para formato de série permitiu explorar a mitologia de Hinckley Hills com a profundidade que um filme de 90 minutos não permitiria, desenvolvendo arcos para o elenco coadjuvante que no original eram meros tipos caricatos.
Essa convergência de vozes — Olsen garantindo a fidelidade temática, MacFarlane injetando sua sensibilidade cómica particular, e Hughey trazendo uma perspectiva contemporânea sobre raça e gentrificação — cria uma arquitetura narrativa sólida. Não se trata de apropriação, mas de continuação conversacional entre gerações.
Super Bowl e binge-watching: a estratégia arriscada do Peacock
A estratégia de lançamento do Peacock para The Burbs série não poderia ser mais agressiva: a série estreia imediatamente após o Super Bowl, com todos os oito episódios disponíveis de uma só vez. É um voto de confiança raro em tempos de streaming, onde a competição por atenção é feroz e muitas plataformas optam por modelos híbridos de liberação semanal.
Para Hughey, a estreia no maior evento de televisão do calendário americano é “surreal”. “Nem imaginei isso como possibilidade”, admite. A escolha sugere que o estúdio vê na série potencial de capturar um público amplo — aquele que busca entretenimento que respeita sua inteligência sem se levar a sério demais, exatamente o tom que fez o original se tornar cult.
A série mantém o tom de comédia de mistério, mas atualiza as preocupações para 2026. Enquanto o original brincava com o pós-guerra frio e a paranoia suburbana dos anos 80, esta versão explora a performance de segurança em comunidades fechadas, a gentrificação disfarçada de preservação histórica, e a solidão do pós-parto — temas que ganham peso dramático quando filtrados através de uma protagonista negra em espaços tradicionalmente brancos e excludentes.
O veredito: entretenimento generoso em tempos cínicos
O que diferencia The ‘Burbs de tantas outras tentativas de reviver propriedades dos anos 80 é a clareza de propósito. Hughey não está vendendo nostalgia embalada; está usando um território familiar para explorar dinâmicas sociais que o cinema mainstream raramente aborda com leveza. A decisão de manter a mesma localização física do original, combinada com a inversão radical do ponto de vista narrativo, cria um diálogo entre eras que enriquece ambas as obras.
Se você curte o filme original por sua mistura de humor absurdo e suspense doméstico, encontrará aqui referências satisfatórias — desde o cenário até o ritmo narrativo. Mas se você nunca viu Tom Hanks investigar vizinhos suspeitos com uma serra elétrica na mão, não está em desvantagem. The Burbs série construiu seus próprios fundamentos emocionais, com Palmer carregando a produção nas costas com a mesma facilidade aparentemente descontraída — mas tecnicamente precisa — que fez de Hanks um ícone duradouro.
A pergunta que permanece é se o público está pronto para uma comédia de mistério que exige atenção aos detalhes sociais tanto quanto à trama criminal. Se estiverem, Hughey e Palmer entregaram algo raro: uma adaptação que honra o passado sem ser escrava dele, e que encontra no humor uma forma de questionar quem realmente pertence aos espaços que chamamos de lar.
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Perguntas Frequentes sobre ‘The Burbs’ Série
Onde assistir ‘The Burbs’ série?
‘The Burbs’ série está disponível exclusivamente no Peacock, o serviço de streaming da NBCUniversal. A série estreou imediatamente após o Super Bowl 2026, com todos os episódios liberados de uma só vez.
‘The Burbs’ série é um remake do filme de Tom Hanks?
Não é exatamente um remake nem uma sequência direta. Segundo a criadora Celeste Hughey, a série é “ambos”: mantém a mesma localização (Hinckley Hills) e o DNA do filme de 1989, mas introduz personagens novos e inverte a perspectiva narrativa, focando numa protagonista negra que se sente deslocada no subúrbio branco.
Quantos episódios tem ‘The Burbs’ série?
A primeira temporada contém oito episódios, todos disponíveis para binge-watching desde o dia da estreia. O formato permite explorar a mitologia de Hinckley Hills com mais profundidade que o filme original de 90 minutos.
Preciso ter visto o filme ‘The ‘Burbs’ de 1989 para entender a série?
Não é necessário. A série foi construída para funcionar de forma independente, embora existam Easter eggs e referências para fãs do filme original — incluindo o uso do mesmo cenário no Universal backlot e a participação de Dana Olsen (roteirista do filme) como produtor executivo.
Quem é a criadora de ‘The Burbs’ série?
A série foi criada por Celeste Hughey, conhecida por seu trabalho em ‘Disque Amiga para Matar’ e na adaptação de ‘Alta Fidelidade’ para a Hulu. Ela trouxe para o projeto experiências pessoais de ter crescido como criança mestiça num subúrbio branco, o que influenciou diretamente a construção da protagonista Samira.
Quem está no elenco de ‘The Burbs’ série?
O elenco principal inclui Keke Palmer como Samira, Jack Whitehall como seu marido britânico, Justin Kirk como o misterioso vizinho Gary, e nomes consagrados da comédia como Paula Pell (Saturday Night Live), Julia Duffy e Mark Proksch (What We Do in the Shadows).

