Analisamos como o formato episódico de ‘Caçadoras de Recompensas’ entrou em colisão frontal com o modelo binge-watch da Netflix em 2020, criando o cenário perfeito para o fracasso de uma das comédias mais originais da plataforma. Por que o cancelamento foi particularmente injusto.
Seis anos se passaram desde que a Netflix enterrou prematuramente uma das suas criações mais singulares, e ainda sinto o gosto amargo de assistir ao anúncio do cancelamento. Em outubro de 2020, enquanto o mundo ainda tentava entender como viver em lockdown, a plataforma decidiu que ‘Caçadoras de Recompensas’ (Teenage Bounty Hunters) não merecia uma segunda temporada. Dois meses. Foi esse o tempo de vida que a série teve antes de ser apagada do mapa. E aqui está o que torna essa decisão particularmente cruel: ‘Caçadoras de Recompensas’ cancelada não foi apenas mais uma estatística na lista de mortes prematuras da Netflix. Foi um caso de assassinato por negligência corporativa, onde o próprio modelo de negócio da plataforma funcionou como arma do crime.
O formato procedural que a Netflix não soube vender
O que fazia ‘Caçadoras de Recompensas’ brilhar era justamente o que a condenou. Criada por Kathleen Jordan, a série seguia as irmãs gêmeas Sterling (Maddie Phillips) e Blair (Anjelica Bette Fellini), estudantes de um colégio particular conservador no sul dos Estados Unidos que, após destruírem acidentalmente o caminhão do pai, resolvem caçar criminosos para pagar o conserto. A premissa soa absurda — e era — mas executada com um tom preciso que equilibrava a sátira adolescente com momentos de genuína tensão dramática.
A estrutura da série era deliberadamente episódica, no melhor estilo procedural. Cada capítulo apresentava uma nova recompensa — desde um hacker de bingo clandestino até um fugitivo escondido em um acampamento cristão — permitindo que o espectador entrasse e saísse sem se perder em arcos complexos. Bowser (Kadeem Hardison), o mentor veterano das garotas, funcionava como âncora narrativa, trazendo uma gravidade que contrastava com o caos hormonal do ensino médio. Esse formato, clássico das procedurais dos anos 90 como ‘Buffy’ ou ‘Veronica Mars’, exigia um tipo de atenção diferente daquela que a Netflix cultivava em 2020.
O problema era arquitetônico. A plataforma havia apostado todas as fichas no modelo binge-watch — liberar tudo de uma vez para que o espectador devorasse em um fim de semana. Funciona para dramas serializados como ‘Stranger Things’, onde o cliffhanger do episódio 4 te impulsiona imediatamente para o 5. Mas ‘Caçadoras de Recompensas’ não foi feita para ser consumida em uma maratona de oito horas. Ela pedia pausa, digestão, aquele prazer de acompanhar semanalmente enquanto comentava com amigos na sexta-feira sobre a recompensa bizarra da semana. Reassisti a série em 2024, espaçando os episódios em três semanas, e a experiência foi radicalmente diferente do meu primeiro contato em 2020, quando devorei tudo em 48 horas durante o lockdown. A comédia respirava melhor; os beats dramáticos do episódio 8 — quando a verdade sobre a mãe biológica de Sterling vem à tona — ganharam peso com a espera.
A pandemia, o timing trágico e a estética desperdiçada
Lançada em agosto de 2020, a série chegou em um momento de desorientação global. Estávamos todos desesperados por distração, mas também sobrecarregados cognitivamente. A Netflix, nesse cenário, precisava de hits imediatos — séries que explodissem nas métricas nos primeiros três dias. Séries que crescem organicamente através do boca a boca, que constroem audiência semana após semana, não tinham chance no algoritmo faminto de 2020.
E isso é particularmente trágico porque a química entre Phillips e Fellini era rara. Elas não interpretavam irmãs; elas eram irmãs na tela. A forma como Sterling e Blair completavam frases uma da outra, como seus ritmos de fala colidiam em cenas de ação — aquela sequência no shopping onde tentam prender um fugitivo durante um evento de moda, por exemplo — tinha uma naturalidade que não se ensina. Perder isso após apenas dez episódios é como desistir de uma banda após o primeiro single.
Além disso, a série ousava em território visual que poucas comédias adolescentes exploravam com tanta identidade. A fotografia de Atlanta, com suas igrejas de estuque branco e shoppings suburbanos banhados em luz dourada do sul, criava uma atmosfera específica que contrastava com a estética cinza e genérica das produções teen usuais. Quando as meninas perseguiam bandidos, a câmera adotava um ritmo mais áspero, handheld, quase documental — uma escolha técnica que separava visualmente os mundos do colégio privilegiado e da rua.
Sterling lidava com questões de fé e sexualidade sem cair no moralismo didático. Blair era uma protagonista feminina desavergonhadamente impulsiva, não “adoravelmente desastrada” no estilo manic pixie dream girl. E Bowser — bem, Kadeem Hardison entregava um mentor negro que carregava a exaustão de quem viu muitos jovens talentosos desperdiçarem potencial, uma camada de melancolia que enriquecia cada cena cômica.
Por que esse cancelamento doeu mais que outros
Sim, a Netflix cancelou ‘GLOW’, ‘Sense8’ e ‘MINDHUNTER’. Todas doloridas. Mas essas séries pelo menos tiveram tempo de contar histórias, de desenvolver arcos, de deixar marcas culturais visíveis. ‘Caçadoras de Recompensas’ cancelada após uma única temporada é um aborto criativo — nunca soubemos onde a trama dos pais adotivos de Sterling iria parar, nunca vimos a resolução da investigação sobre o passado da família Wesley. A série terminou com um gancho narrativo que agora flutua no limbo eterno, uma promessa não cumprida que irrita mais com o passar dos anos.
O que torna a situação mais insidiosa é a hipocrisia corporativa recente. Note como, para suas propriedades intelectuais de bilhões, a Netflix finalmente admitiu que o modelo binge não é universal. ‘Stranger Things’ teve sua última temporada lançada em duas partes, com semanas de intervalo. ‘O Gambito da Rainha’ beneficiou-se do lançamento semanal quando a plataforma experimentou o formato. A empresa sabe, agora, que algumas histórias precisam respirar. Mas essa sabedoria chegou tarde demais para nossas caçadoras de recompensas.
Por que reassistir ‘Caçadoras de Recompensas’ em 2026 (e como assistir da forma ‘certa’)
Revisitar ‘Caçadoras de Recompensas’ hoje é uma experiência bifurcada. Por um lado, os dez episódios existentes permanecem frescos — a escrita afiada de Jordan, a direção que sabia quando segurar o plano e quando cortar para o caos, a trilha sonora que misturava country com punk. Por outro, há a sensação constante de potencial desperdiçado. Cada season finale que não veio, cada desenvolvimento de personagem que não aconteceu.
A série representava algo que a Netflix parecia prometer em seus primórdios: espaço para vozes estranhas, para misturas de gênero impossíveis em TV aberta, para comédias que não precisavam ser blockbusteres imediatos para merecerem existir. O cancelamento precoce sinalizou uma mudança de filosofia que agora domina o streaming: se não for um fenômeno viral em 72 horas, não merece sobreviver.
Para quem ainda não viu, eu recomendo — com a ressalva de que você vai terminar irritado. Não porque a série é ruim, mas porque é boa demais para ter sido tratada assim. Assista um episódio a cada dois ou três dias. Deixe fermentar. Imagine o que poderia ter sido se a Netflix tivesse tido a paciência que Bowser tinha com Sterling e Blair. Seis anos depois, ‘Caçadoras de Recompensas’ permanece não apenas como uma série cancelada, mas como um aviso sobre como o modelo de consumo acelerado pode assassinar a arte que precisa de tempo para encontrar seu público.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Caçadoras de Recompensas’
Por que ‘Caçadoras de Recompensas’ foi cancelada?
A Netflix cancelou a série em outubro de 2020, dois meses após a estreia, devido a baixas métricas de audiência nos primeiros 30 dias. O formato episódico da série não se adequou ao modelo binge-watch da plataforma, dificultando a retenção de espectadores no curto prazo exigido pelo algoritmo.
‘Caçadoras de Recompensas’ vai ter segunda temporada?
Não. Após o cancelamento em 2020, os contratos dos atores principais expiraram e o elenco seguiu para outros projetos. Maddie Phillips e Anjelica Bette Fellini já confirmaram em entrevistas que não há possibilidade de revival.
Onde assistir ‘Caçadoras de Recompensas’?
A série está disponível exclusivamente na Netflix. Possui 10 episódios de aproximadamente 45 minutos cada, e pode ser assistida com legendas ou dublagem em português.
Vale a pena assistir ‘Caçadoras de Recompensas’ sabendo que foi cancelada?
Sim, apesar do final em aberto. Os 10 episódios funcionam como uma minissérie incompleta, mas com arcos fechados o suficiente para serem satisfatórios. A qualidade da escrita e da química entre as protagonistas justificam a experiência, mesmo com a frustração do cancelamento.
‘Caçadoras de Recompensas’ é baseada em história real?
Não. A série é uma criação original de Kathleen Jordan, embora misture elementos de comédia adolescente com procedurais policiais. A premissa de estudantes caçando criminosos é fictícia, embora a ambientação no conservador sul dos EUA reflita realidades sociais específicas da região.

