Stephen King elogiou ‘Bebê Rena’ como “uma das melhores coisas que já vi”, reconhecendo inadvertidamente uma variação sofisticada de seu próprio ‘Louca Obsessão’. Analisamos como a série da Netflix transforma o terror de stalker de King em tragicomédia britânica, mantendo o DNA de Misery mas explorando a culpa masculina e a violação digital da intimidade.
Quando Stephen King publicou no The Times que ‘Bebê Rena’ (Baby Reindeer) era “uma das melhores coisas que já vi”, ele sabia exatamente o que estava fazendo. O mestre do horror psicológico não estava apenas recomendando uma série de stalker da Netflix — estava reconhecendo uma variação sofisticada sobre um tema que ele mesmo definiu décadas atrás em ‘Louca Obsessão’ (Misery). A ironia é perfeita: o homem que criou Annie Wilkes, a fã número um mais aterrorizante da literatura, aplaudindo Richard Gadd por recriar esse pesadelo nas ruas cinzentas de Londres.
A série, baseada na experiência real de Gadd com uma perseguidora, conquistou seis Emmys e dois Globos de Ouro em 2024, incluindo estatuetas para Jessica Gunning (Martha) e o próprio Gadd. King, crítico habitualmente implacável no X (antigo Twitter), destacou especificamente a economia narrativa: sete episódios curtos que nunca se sentem inchados, uma raridade na era do streaming onde “maior” é frequentemente confundido com “melhor”. Mas o que realmente prende King — e nós — é como ‘Bebê Rena’ evita a violência corporal explícita em favor de algo mais insidioso: a violação da intimidade através da persistência.
O DNA de Misery na era do digital
A estrutura é inconfundível. Donny Dunn (Richard Gadd), comediante de stand-up fracassado, conhece Martha (Jessica Gunning) em um pub de Londres. O que começa como uma conversa inocente — ela rindo alto de suas piadas ruins — degenera em milhares de e-mails, mensagens de voz (recriações fiéis das gravações reais que Gadd preservou), e aparições não-convidadas. Qualquer fã de King imediatamente reconhece o mapa: Paul Sheldon resgatado por Annie Wilkes após o acidente de carro. A dinâmica de dependência emocional disfarçada de cuidado, a progressão gradual do incômodo para o terror absoluto.
Mas Gadd inverte a polaridade. Enquanto Annie Wilkes era uma figura de autoridade médica com recursos farmacêuticos e um porão isolado, Martha é patética, quase trágica — uma mulher de meia-idade com roupas desalinhadas e um riso descontrolado que ecoa pelas cenas. A ameaça não vem de um martelo (aquela cena do tornozelo em ‘Louca Obsessão’ ainda ecoia nos pesadelos), mas da capacidade de destruir a reputação e a sanidade de Donny sem derramar sangue. É ‘Louca Obsessão’ para a era da ansiedade social e da vigilância digital, onde o stalking acontece via notificações push.
A execução que justifica o elogio
King não é crítico ingênuo. Em textos anteriores, ele sempre demonstrou consciência plena de referências — escreveu extensivamente sobre como Frank Darabont adaptou ‘Alma em Suplício’, reconhecendo as mudanças de tom. Portanto, é improvável que ele não tenha percebido as semelhanças estruturais. O que o convenceu foi a execução: Gadd não apenas copia a dinâmica stalker-vítima, ele a desconstrói.
A série mergulha na culpa masculina e na ambiguidade moral. Donny não é apenas inocente — em momentos de solidão e falha profissional, ele alimenta sutilmente a obsessão de Martha, buscando validação em seus elogios desproporcionais. A cena onde ele finalmente a convida para entrar em seu apartamento — não por simpatia, mas por solidão abjeta — é devastadora. É uma camada de complexidade psicológica que ‘Louca Obsessão’, focada na sobrevivência física pura, não tentou explorar. Além disso, há o elemento documental: saber que Gadd realmente viveu aquilo, que as mensagens de voz que ouvimos são recriações fiéis de gravações reais, adiciona uma densidade de verdade que fica além da ficção especulativa de King.
Tragicomédia e o fantasma de Clint Eastwood
‘Bebê Rena’ ecoa também ‘Perversa Paixão’ (Play Misty for Me, 1971), estreia na direção de Clint Eastwood, onde um DJ é perseguido por Evelyn (Jessica Walter) após um caso casual. O filme estabeleceu códigos do gênero: a aparente normalidade inicial, a escalação gradual, a destruição da vida profissional. Mas onde Eastwood tratou o material como thriller erótico dos anos 70 e King como horror gótico claustrofóbico, Gadd enconca um terceiro caminho: a tragicomédia existencial britânica.
A fotografia cinzenta de Londres — bares de pub esvaziados, apartamentos compartilhados mal iluminados, estações de trem — cria uma atmosfera de sufocamento social. ‘Bebê Rena’ é frequentemente engraçada, mas não porque a situação seja cômica. O riso vem do desespero de Donny em tentar manter as aparências enquanto sua vida desmorona, ou da reação da polícia inicialmente desdenhosa diante de um homem relatando stalking por uma mulher. É o humor como mecanismo de defesa contra o indefensável, algo profundamente britânico e raramente visto no cinema americano de obsessão.
Quando o mestre aplaude o discípulo
Stephen King elogiou ‘Bebê Rena’ não apesar de suas similaridades com ‘Louca Obsessão’, mas por causa delas — e de como a série as transcende. É o equivalente a um mestre culinário provar um prato feito com seus ingredientes, mas preparado com técnicas que ele nunca imaginou. O reconhecimento de King é um ato de generosidade intelectual: admitir que o tema da obsessão fã-artista, que ele ajudou a definir, ainda tem território inexplorado nas interseções de gênero, vulnerabilidade masculina e culpa.
Para quem ainda não assistiu: prepare-se para uma experiência que evita soluções fáceis. ‘Bebê Rena’ não é entretenimento de sexta-feira à noite; é uma série que exige que você suporte a ambiguidade moral e a falta de finais redentores. Assim como ‘Louca Obsessão’ nos fez questionar o contrato tácito entre autor e leitor, ‘Bebê Rena’ nos obriga a examinar até que ponto alimentamos nossos próprios perseguidores em busca de validação. E se há alguém qualificado para reconhecer isso, é certamente o homem que nos deu Annie Wilkes.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Bebê Rena’ e Stephen King
O que Stephen King disse sobre ‘Bebê Rena’?
Em artigo para o The Times, King classificou a série como “uma das melhores coisas que já vi”, destacando especificamente a economia narrativa dos episódios curtos e a combinação rara de horror com melancolia.
‘Bebê Rena’ é baseada em história real?
Sim. A série é adaptada do espetáculo de stand-up de Richard Gadd, baseado em sua experiência real com uma perseguidora entre 2015 e 2017. As mensagens de voz ouvidas na série são recriações fiéis de gravações reais que o autor preservou.
Quantos episódios tem ‘Bebê Rena’?
A minissérie tem 7 episódios, com duração variando entre 27 e 45 minutos. Stephen King especificamente elogiou esse formato enxuto, contrastando com séries de streaming tradicionalmente inchadas.
‘Bebê Rena’ é similar a ‘Louca Obsessão’ (Misery)?
Estruturalmente sim: ambas exploram a dinâmica entre artista vulnerável e fã obsessiva. Porém, enquanto ‘Louca Obsessão’ foca no horror físico e cativeiro, ‘Bebê Rena’ explora o terror da persistência digital e a culpa masculina, sem violência gráfica explícita.
Quem interpreta Martha em ‘Bebê Rena’?
Jessica Gunning interpreta Martha Scott, a perseguidora. Sua performance rendeu o Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante e o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie em 2024.

