Como ‘O Poder e a Lei’ 4 resolve o problema Bosch sem perder a essência

Analisamos como ‘O Poder e a Lei’ 4 resolve a ausência de Harry Bosch ao expandir Cisco, Izzy e Grace, criando uma dinâmica investigativa mais coesa que a temporada anterior e respeitando o espírito dos livros de Michael Connelly.

Adaptar um universo literário interconectado para o audiovisual sempre foi um exercício de acrobacia jurídica — no caso literal aqui. Quando a quarta temporada de ‘O Poder e a Lei’ se tornou inevitável como tema de busca, a questão não era apenas sobre fidelidade aos livros de Michael Connelly, mas sobre como contornar uma barreira corporativa: Harry Bosch pertence à Prime Video, enquanto Mickey Haller é propriedade da Netflix. E na quarta temporada, baseada em The Law of Innocence — o romance mais dependente da presença de Bosch até hoje — essa divisão de direitos poderia ter destruído a coerência narrativa. Mas o que aconteceu foi o oposto: a ausência forçada do detetive acabou revelando uma solução que fortaleceu o núcleo dramático da série.

O problema nunca foi simples. Nos livros, Bosch não é apenas um coadjuvante ocasional; ele é a contraparte metodológica de Mickey, o investigador que complementa a astúcia jurídica do advogado com trabalho de campo obstinado. Nas temporadas anteriores, ‘O Poder e a Lei’ contornou isso expandindo o papel de Cisco (Angus Sampson), o investigador de Mickey, ou criando arcos autônomos que dispensavam a investigação externa. Mas The Law of Innocence é diferente — aqui, Bosch está enfiado até o pescoço na trama principal, investigando evidências que podem inocentar Mickey de um assassinato. Simplesmente ignorar isso seria desrespeitar o material fonte. A solução encontrada pelos roteiristas, entretanto, demonstra um entendimento raro de como adaptações funcionam: em vez de substituir um personagem por outro de forma mecânica, eles redistribuíram as funções investigativas de forma que reconfigurou a dinâmica do escritório inteiro.

Cisco e a arte de estar em dois lugares ao mesmo tempo

Cisco e a arte de estar em dois lugares ao mesmo tempo

A expansão do papel de Cisco na quarta temporada não é apenas uma questão de volume de cenas — é uma recalibração de como a investigação funciona no universo de Mickey Haller. No livro, Cisco divide o trabalho de campo com Bosch; na série, ele absorve não apenas as investigações, mas a própria ética de trabalho do detetive ausente. Há uma sequência específica, quando Cisco vasculha registros de câmeras de segurança e interroga informantes em estacionamentos mal iluminados, que captura perfeitamente a textura noir que Bosch traria, mas filtrada através da brutalidade física e pragmatismo australiano do personagem.

O que torna essa redistribuição inteligente é que ela não nega a ausência de Bosch — ela a compensa através de uma lógica interna sólida. Cisco sempre foi apresentado como um investigador formidável, capaz de “puxar cordas” para obter informações que a lei formal não alcança. A diferença na quarta temporada é que ele faz o trabalho de dois homens, e a série não esconde o peso disso. Angus Sampson carrega essa carga visualmente: há cansaço nos ombros do personagem, uma urgência nos seus movimentos que antes não existia. Não é mais apenas o investigador leal; é o pilar estrutural que impede que o escritório desmorone enquanto Mickey luta pela própria liberdade.

Mais importante: essa solução evita o erro comum de adaptações que simplesmente “esquecem” personagens indisponíveis. Ao dar a Cisco uma carga dupla de trabalho, ‘O Poder e a Lei’ mantém a intensidade investigativa do livro sem violar os direitos de propriedade intelectual. É uma gambiarra elegante, reconhecida pelo próprio texto quando Lorna (Becki Newton) comenta sobre como Cisco “não tem dormido” — uma meta-referência sutil ao fato de que o personagem está literalmente cobrindo dois turnos narrativos.

Izzy, Grace e a correção de rota da terceira temporada

Se Cisco resolve o problema quantitativo da investigação, a dupla Izzy (Jazz Raycole) e Grace resolve o problema qualitativo — e talvez o mais interessante: corrige um erro estrutural da terceira temporada. Na temporada anterior, Izzy passou muito tempo em tramas paralelas que, embora bem-intencionadas (desenvolvimento pessoal, questões familiares), desconectavam-na do núcleo jurídico da série. O resultado era uma sensação de fragmentação: enquanto Mickey lidava com casos graves, Izzy parecia existir em uma série diferente, mais leve e menos essencial.

A quarta temporada resolve isso de forma brilhante e orgânica. Ao introduzir Grace (Yaya DaCosta) como interesse romântico de Izzy e, crucialmente, como colega de classe em seu curso de paralegal, a série cria uma unidade investigativa feminina que não existia nos livros — pelo menos não nessa configuração. Izzy e Grace não são apenas “substitutas de Bosch”; elas representam uma nova geração de profissionais do direito, ainda em formação, que abordam a investigação com ferramentas digitais e perspectivas frescas que um detetive veterano como Bosch simplesmente não teria.

Há uma cena específica, quando as duas vasculham registros digitais e usam redes sociais para rastrear movimentos de suspeitos, que ilustra perfeitamente essa diferença geracional. Onde Bosch quebraria portas, elas quebram firewalls. O resultado é o mesmo — informação vital para a defesa — mas o método reflete uma evolução natural da franquia. Mais importante: isso mantém Izzy enraizada no caso principal. Seu desenvolvimento pessoal (o relacionamento com Grace) não compete mais com a trama principal; ele a alimenta. Cada momento que passam juntas investigando é também um momento de construção de relacionamento, algo que a terceira temporada falhou em conseguir.

A economia narrativa de não ter escolha

A economia narrativa de não ter escolha

O que torna a solução do “problema Bosch” na quarta temporada particularmente elegante é que ela demonstra como restrições criativas — neste caso, jurídicas e corporativas — podem gerar resultados superiores à liberdade total. Se Bosch estivesse disponível, provavelmente teríamos a fórmula confortável dos livros: Mickey no tribunal, Bosch nas ruas, encontros noturnos para trocar informações. Funciona nos livros, mas na televisão isso manteria a série em um loop preditivo.

Sem Bosch, ‘O Poder e a Lei’ foi forçada a expandir seu universo interno. O escritório de Mickey Haller deixou de ser um cenário para se tornar uma comunidade funcional, onde cada membro tem competências específicas que se complementam. Cisco traz a experiência e as conexões de rua; Izzy e Grace trazem a energia novata e a fluência digital; Lorna mantém a estrutura administrativa; e Mickey continua sendo o centro gravitacional, mas agora dependente de uma rede mais complexa de apoio.

Esta reconfiguração também prepara o terreno para o futuro inevitável. A quinta temporada, já confirmada, adaptará material onde Bosch novamente divide espaço significativo com Mickey. Mas agora, ao contrário da terceira temporada, a série tem um “banco de reservas” investigativo estabelecido. Izzy e Grace não são mais personagens de subtrama; são peças essenciais da máquina jurídica. Quando (e se) a série precisar novamente contornar a ausência de Bosch, não será necessário inventar soluções do nada — a arquitetura já está construída.

O veredito: uma adaptação que merece existir

No fim das contas, a quarta temporada de ‘O Poder e a Lei’ não é apenas uma temporada que contorna obstáculos corporativos — é uma que usa esses obstáculos para encontrar sua própria voz. A ausência forçada de Harry Bosch não enfraqueceu a trama; a obrigou a se reinventar, distribuindo o peso narrativo de forma mais democrática entre seu elenco de apoio. O resultado é uma temporada mais coesa que sua antecessora, onde cada cena de investigação serve duplos propósitos: mover o enredo criminal e desenvolver relacionamentos entre personagens que antes operavam em silos separados.

Para fãs de Michael Connelly, isso representa o melhor dos mundos possíveis: uma adaptação que respeita o espírito dos livros (a obsessão pela verdade, a metodologia investigativa rigorosa) sem ser escrava de detalhes impossíveis de replicar. E para a Netflix, é um estudo de caso em como gerenciar propriedades intelectuais fragmentadas — não através de substituições grotescas ou ignorância do material fonte, mas através de expansão inteligente do universo existente.

Se você é daqueles que abandonou a série na terceira temporada frustrado com as tramas paralelas desconectadas de Izzy, a quarta oferece a redenção perfeita. E se você nunca leu os livros, não sentirá falta de Bosch — não porque ele não seja importante, mas porque a série finalmente provou que Mickey Haller pode carregar um universo maior do que apenas seu próprio ego, desde que cercado pela equipe certa. A pergunta que fica para a quinta temporada é: com essa nova dinâmica estabelecida, como a série lidará quando finalmente precisar reintroduzir elementos de Bosch sem quebrar o que construiu aqui? Se mantiverem o mesmo cuidado narrativo, estaremos diante de uma das adaptações mais consistentes do gênero policial na TV contemporânea.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘O Poder e a Lei’ 4

Por que Harry Bosch não aparece na 4ª temporada de ‘O Poder e a Lei’?

Harry Bosch é personagem da série ‘Bosch’, produzida pela Amazon Prime Video, enquanto ‘O Poder e a Lei’ é uma produção Netflix. Por questões de direitos autorais e propriedade intelectual entre as plataformas concorrentes, o personagem não pode aparecer na série da Netflix, mesmo nos livros de Michael Connelly eles trabalhem juntos frequentemente.

Qual livro de Michael Connelly baseia a 4ª temporada?

A quarta temporada adapta ‘The Law of Innocence’ (A Lei da Inocência), sexto livro da série Mickey Haller. É considerado o romance mais dependente da presença de Bosch, pois no livro original o detetive investiga evidências cruciais para inocentar Mickey de um assassinato.

Quem substitui Harry Bosch nas investigações da 4ª temporada?

As funções investigativas de Bosch são redistribuídas entre três personagens: Cisco (Angus Sampson) absorve o trabalho de campo e as conexões com informantes; Izzy (Jazz Raycole) e Grace (Yaya DaCosta) formam uma unidade investigativa digital que usa ferramentas modernas e redes sociais para rastrear suspeitos.

A 4ª temporada é melhor que a 3ª?

Para muitos críticos e fãs, sim. A terceira temporada sofria com tramas paralelas desconectadas, especialmente envolvendo Izzy. A quarta corrige isso integrando o desenvolvimento pessoal dos personagens ao caso principal, criando uma narrativa mais coesa e tensa, além de melhor utilizar todo o elenco de apoio.

Grace é personagem dos livros de Michael Connelly?

Não. Grace (interpretada por Yaya DaCosta) é uma criação original da série para a quarta temporada. Ela serve como interesse romântico de Izzy e colega de classe em seu curso de paralegal, criando uma dinâmica investigativa feminina que não existe nos livros originais.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também