Analisamos por que o remake de ‘Meus Vizinhos São um Terror’ com Keke Palmer divide críticos (77%) e público (59%) na Peacock, e como a mudança de perspectiva racial transforma o subúrbio em território de exclusão.
Em menos de 24 horas após seu lançamento na Peacock, ‘Meus Vizinhos São um Terror’ com Keke Palmer já provocou o tipo de discussão que poucas séries de comédia conseguem gerar em 2026. Depois de assistirmos aos oito episódios liberados de uma só vez neste domingo, 9 de fevereiro, fica claro por que a produção ocupa o topo do ranking da plataforma, deixando para trás pesos pesados como The Office: Superfan Episodes e The Traitors. Mas o sucesso vem acompanhado de uma divisão rara: 77% de aprovação da crítica versus apenas 59% do público no Rotten Tomatoes. O curioso? Essa fratura é o inverso exato do filme original de 1989 — e talvez seja aí que resida o ponto mais interessante deste remake.
Joe Dante, diretor da versão estrelada por Tom Hanks e Carrie Fisher, viu seu filme ser recebido com 56% da crítica e 71% do público na época, arrecadando US$ 49,1 milhões nos cinemas. Trinta e sete anos depois, a equação se inverteu. O que aconteceu entre uma geração e outra para que o subúrbio suspeito de Dante — aquele universo de grama aparada e segredos podres — gerasse reações tão distintas quando filtrado pela perspectiva de uma protagonista negra em 2026?
Subúrbio como território de exclusão: a mudança de perspectiva que divide
A escolha de Keke Palmer como Samira não é apenas uma atualização cosmética do arquétipo do vizinho curioso. É uma alteração fundamental na gramática do filme. O subúrbio americano do cinema sempre foi território branco, heterossexual e masculino — desde The Truman Show até o próprio The ‘Burbs original. Ao colocar uma mulher negra como observadora central, a série da Peacock transforma a paranoia de vizinhança em algo mais incisivo: uma investigação sobre quem realmente pertence a esses espaços planejados.
Palmer, que já havia demonstrado sua versatilidade cômica e dramática em projetos tão distantes quanto Não! Não Olhe! de Jordan Peele e Scream Queens de Ryan Murphy, aqui opera através de microexpressões e timing físico. Samira não é apenas a esposa que acompanha o marido (interpretado por Jack Whitehall) na mudança — ela é a catalisadora da investigação, a primeira a notar que algo está definitivamente errado na rua arborizada onde instalam sua família recém-formada. Em cenas domésticas, Palmer usa o silêncio entre as falas para sugerir uma história de desconfiança que precede a trama: o subúrbio nunca foi um lugar acolhedor para famílias como a dela, e essa tensão socioespacial permeia cada olhar trocado com as vizinhas.
O que alguns espectadores rotularam rapidamente como “woke” — sem especificar exatamente o que isso significaria além da presença de uma protagonista negra em papel tradicionalmente branco —, críticos identificaram como uma camada narrativa genuína. A desconfiança de Samira ganha densidade histórica: quando ela hesita em chamar a polícia para investigar os vizinhos, não é apenas por medo de parecer paranoica, mas por uma consciência real de como mulheres negras são recebidas em comunidades majoritariamente brancas.
Ritmo contemplativo e a arquitetura do suspense doméstico
Onde a versão de 1989 optava pelo frenetismo cômico — aquele humor de Hanks em constante descontrole —, esta reimaginação investe em uma cadência mais próxima do thriller psicológico contemporâneo. Os oito episódios constroem seu mistério através de detalhes domésticos: uma cerca muito alta que bloqueia a visão, um barulho estranho no porão que soa diferente dependendo do ângulo da câmera, olhares trocados entre Julia Duffy e Paula Pell — veteranas da comédia que aqui funcionam como coro grego suburbano com timing impecável.
A fotografia utiliza uma paleta de cores saturadas que remetem ao visual dos anos 90, mas com composições mais amplas que enfatizam o isolamento das casas isoladas. Mark Proksch e Kapil Talwalkar completam o elenco de suspeitos habituais, mas a dinâmica central permanece entre Palmer e Whitehall. A química do casal precisa sustentar não apenas a trama policial, mas a credibilidade emocional de pais primeiro-timers tentando navegar uma nova realidade social enquanto desvendam crimes potenciais. Funciona? Em momentos, sim — especialmente quando a série permite que o absurdo da situação colida com a exaustão parental real. Em outros, parece hesitar entre ser uma sátira de Desperate Housewives ou um genuíno mistério de Big Little Lies.
Por que o público resiste (e isso importa?)
A rejeição parcial do público — aqueles 59% no Rotten Tomatoes — provavelmente reflete uma expectativa frustrada de fórmula. O trailer vende uma comédia de mistério ágil; o produto entregue é mais reflexivo, mais interessado em observar a performance de Palmer reagindo ao absurdo do que em entregar gags constantes. Alguns espectadores reclamaram do ritmo “arrastado”, especialmente nos primeiros três episódios, onde a série estabelece sua atmosfera de normalidade perturbada através de longas cenas em cozinhas e varandas.
Há também a questão do timing. Em 2026, o espectador de streaming está acostumado a recompensas imediatas. ‘Meus Vizinhos São um Terror’ exige paciência — não a paciência de Severance, mas uma tolerância para com conversas em portas entreabertas e olhares suspeitos através de cortinas. O payoff chega, especialmente no final da temporada, onde segredos chocantes são revelados de forma que abre claramente espaço para uma segunda temporada (ainda não confirmada pela Peacock).
Keke Palmer e a reinvenção do star vehicle
É impossível separar a série da carreira meteórica de sua protagonista. De True Jackson na Nickelodeon até seu segundo Emmy por apresentar o revival de Password, Palmer construiu uma filmografia que desafia categorização. Ela transita entre blockbusters de animação (A Era do Gelo 4, Lightyear), dramas independentes (As Golpistas) e terror social (Não! Não Olhe!) com uma naturalidade rara.
Em ‘Meus Vizinhos São um Terror’, ela finalmente recebe um protagonismo absoluto em formato longo — não como coadjuvante cômica, não como figura de terror, mas como âncora narrativa de uma série que depende inteiramente de sua capacidade de gerar empatia e risadas simultâneas. E ela entrega: numa sequência noturna onde o monitor de bebê capta movimentos estranhos na casa ao lado, Palmer alterna entre pânico genuíno e exaustão parental de quem já viu coisas demais, transformando material potencialmente genérico em algo genuinamente inquietante. É atuação de precisão, que carrega a série em seus momentos mais desafiadores.
Veredito: para quem é essa vizinhança?
Se você espera uma réplica fiel ao caos de Tom Hanks em 1989, vá embora frustrado. Mas se você curte thriller doméstico com consciência social — algo na linha do que Peele fez por regiões rurais em Corra!, aplicado aqui ao codesígnio de condomínios fechados —, a série recompensa a atenção.
‘Meus Vizinhos São um Terror’ com Keke Palmer não é perfeita. Algumas subtramas com os personagens de Duffy e Pell parecem subutilizadas, e o arco final apressa revelações que mereciam mais desenvolvimento. Mas é exatamente o tipo de remake que merece existir: não para substituir o original, mas para questionar por que certas histórias só eram contadas por determinados tipos de gente — e como o subúrbio muda de cor quando quem olha por cima da cerca não é mais o vizinho branco esperado.
A Peacock tem aqui uma série que lidera charts não por algoritmo, mas por ter tocado em tensões raciais e de classe ainda pouco exploradas no formato de mistério residencial. A divisão entre críticos e público não é um bug — é o recurso. E no fim das contas, talvez seja isso que torne este ‘Burbs tão relevante quanto seu predecessor: a capacidade de espelhar exatamente onde estamos, não onde achamos que deveríamos estar.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Meus Vizinhos São um Terror’ (2026)
Onde assistir o remake de ‘Meus Vizinhos São um Terror’ com Keke Palmer?
A série está disponível exclusivamente na Peacock desde 9 de fevereiro de 2026. É um original da plataforma, disponível para assinantes do serviço de streaming nos Estados Unidos. No Brasil, ainda não há data confirmada de lançamento.
Quantos episódios tem a primeira temporada?
A temporada de estreia conta com 8 episódios, todos liberados simultaneamente no dia do lançamento. Cada episódio tem aproximadamente 30 a 40 minutos de duração.
Preciso assistir o filme de 1989 antes de ver a série?
Não. Embora seja baseada no filme original de Joe Dante estrelado por Tom Hanks, esta versão é uma reimaginação independente com nova trama e personagens. Conhecer o original ajuda a perceber as referências e inversões temáticas, mas não é necessário para acompanhar a história de Samira (Keke Palmer).
Por que a nota do público é tão diferente da crítica no Rotten Tomatoes?
A divergência (77% críticos vs 59% público) reflete expectativas diferentes: enquanto a crítica valoriza a abordagem social e o ritmo contemplativo, parte do público esperava uma comédia de mistério mais ágil e com mais gags, similar ao original de 1989. A série investe mais em tensão psicológica e comentário social do que em humor frenético.
A série foi renovada para uma segunda temporada?
Ainda não. O final da primeira temporada abre possibilidades claras para continuação, mas a Peacock ainda não confirmou oficialmente a renovação. O desempenho nos rankings de visualização nas primeiras semanas será decisivo para a decisão.

