Analisamos por que ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ reserva a música icônica de Game of Thrones para o episódio 4. A escolha marca a transição da comédia de aventura para o heroísmo épico, funcionando como ‘o chamado’ na jornada de Dunk e validando a economia emocional da narrativa.
Quando a música tema de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ — aquela melodia icônica composta por Ramin Djawadi, o mesmo responsável por Westworld e as oito temporadas de tragédia real de Game of Thrones — finalmente explode em toda a sua glória orquestral no final do episódio 4, a cena não poderia ser mais distante daquela em que a mesma música apareceu pela primeira vez na série. Se na estreia a abertura foi brutalmente interrompida pelo som de urina splashando contra uma árvore — com Dunk aliviando a bexiga em plena introdução —, agora ela acompanha um momento de alta tensão heroica: Baelor Targaryen se oferecendo para lutar ao lado do cavaleiro errante no julgamento por combate. A diferença entre esses dois usos não é apenas cômica; é estrutural. E revela exatamente o tipo de série que a HBO está tentando construir aqui.
A primeira aparição da música em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ funcionou como um aviso disfarçado de fan service. Durante os primeiros minutos do episódio piloto, quando os acordes começam e esperamos aquela montagem de mapas e mecanismos… o som é cortado por um ato biológico básico. Aquela cena estabeleceu imediatamente o contrato com o espectador: esqueça a grandiosidade auto-séria de ‘A Casa do Dragão’. Aqui, o humor grotesco e a humanidade suada dos personagens vêm em primeiro lugar. Dunk não é um príncipe trágico; é um hedge knight desajeitado tentando sobreviver em um mundo que não foi feito para ele.
A promessa interrompida da estreia
Enquanto o spin-off anterior da HBO tentava recriar a escala épica e o tom sombrio da série original — Game of Thrones —, ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ optou por uma abordagem mais leve, quase de conto de cavalaria descomplicado. O interrompimento da música tema funcionou como uma declaração de independência: sim, estamos no mesmo mundo de Westeros, mas não será pela via do realismo brutal político. Pelo menos, não ainda. A série parecia dizer que conhecia a expectativa do público — e deliberadamente a frustrava para criar algo mais íntimo.
Esse tom irreverente se mantém nos três primeiros episódios. Vemos Dunk tropeçando em torneios, Egg usando sua inteligência para safar os dois de enrascadas, e uma galeria de cavaleiros secundários que lembram mais os companheiros desajustados de uma comédia de aventura do que os jogadores políticos de ‘Game of Thrones’. Mas essa aparente leveza é uma armadilha. Ou melhor, é uma preparação.
O momento Baelor e a estrutura do julgamento
O episódio ‘Seven’ (Sete) muda as regras do jogo. O julgamento por combate — onde sete campeões de Dunk enfrentariam sete de Aerion Targaryen — é um dispositivo narrativo que remonta às histórias de cavalaria medievais, mas aqui é tratado com a gravidade que a série original reservava para suas batalhas mais importantes. Repare como a fotografia muda: as cores do episódio 4 são mais saturadas, mais quentes, quando comparadas às tonalidades terrosas e cinzentas dos primeiros capítulos. Não é coincidência que a música tema apareça exatamente quando a paleta visual também se eleva ao espetacular.
A tensão atinge o ápice quando Steffon Fossoway trai Dunk após ser prometido a um senhorio por Aerion. Até aquele momento, tudo parecia seguir uma lógica cômica: o herói honesto contra os nobres corruptos, mas com chances razoáveis de vitória. Quando Steffon recua, levando consigo a promessa de Robyn, Hardyng e Ser Humfrey Beesbury, o peso da situação fica real. Aí entra Baelor Targaryen. Não como um salvador cósmico, mas como um príncipe que escolhe o lado tecnicamente perdedor por uma questão de honra.
Por que a música tema só aparece no episódio 4?
A revelação de que Baelor lutará ao lado de Dunk é o primeiro momento legítimo de alta dramaticidade e heroísmo da série. E foi exatamente aqui que os produtores decidiram desencavar sua carta mais valiosa. Segundo o showrunner Ira Parker, em entrevista ao Nerdist, essa era a intenção desde a concepção: A razão pela qual (a música) é revisitada no episódio quatro é porque ‘o chamado’ está lá… Sentimos que, ‘Sim, ok, estamos chegando ao Game of Thrones que lembramos’.
Parker refere-se à estrutura da jornada do herói — especificamente o chamado à aventura, aquele momento onde o protagonista aceita seu destino épico. Nos primeiros três episódios, Dunk é basicamente um mercenário com princípios tentando pagar suas dívidas. No quarto, ele se torna verdadeiramente um protagonista de fantasia heroica, e a música marca essa transição sonora. É a passagem do ‘Dunk e Egg’ para o ‘Ser Duncan, o Alto’.
Se a HBO tivesse usado a música tema desde o episódio 1, ou mesmo espalhado ela ao longo dos três primeiros capítulos, o impacto de Baelor entrando na arena seria apenas mais um momento cool. Ao economizar esse recurso emocional — tratando a melodia como uma carta na manga ao invés de trilha sonora de fundo — a série cria um efeito de acumulação. Quando finalmente ouvimos aqueles violinos e cellos, sabemos que as apostas mudaram. Não é mais sobre dinheiro ou orgulho ferido; é sobre vida, morte e o destino de reinos.
Um equilíbrio arriscado entre o íntimo e o épico
O que torna essa escolha particularmente inteligente é como ela posiciona ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ no mapa maior da franquia. Ao contrário de ‘A Casa do Dragão’, que mergulhou de cabeça na mitologia complexa e nas intrigas dinásticas desde o primeiro minuto, este spin-off parece interessado em algo mais raro: a simplicidade emocional da aventura medieval. Mas simples não significa simplório. A série está construindo lentamente seu mundo para que, quando os momentos épicos chegam — como chegaram no episódio 4 — eles ressoem com a história que conhecemos, em vez de parecerem forçados.
A música tema de ‘Game of Thrones’ carrega o peso de oito temporadas de traições, guerras e mortes chocantes. Usá-la em excesso em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ — uma história, até aqui, sobre um cavaleiro andante e seu escudeiro esperto — seria como usar um canhão para matar uma mosca. Mas quando o canhão é realmente necessário? Aí sim, você sente a terra tremer. E no final do episódio 4, ela tremeu.
No fim das contas, a decisão de reservar a música tema para o episódio 4 é um sinal de respeito pela inteligência do espectador. A série não precisa gritar sou importante! desde o primeiro minuto; ela confia que, se construir seus personagens com cuidado — mostrando suas fraquezas, suas piadas de mau gosto, suas pequenas covardias — o momento heroico, quando chegar, exigirá naturalmente a trilha sonora heroica. E quando Baelor desembainha a espada enquanto os acordes de Djawadi finalmente sobem, você não precisa de mais nenhuma explicação. Você simplesmente sente que Westeros finalmente chegou.
Essa transição do tom cômico para o épico prova que ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ sabe exatamente quando parar de brincar e começar a contar uma história que importa. O delay da música não foi uma restrição orçamentária, mas uma escolha de arquitetura narrativa — e talvez a decisia mais inteligente da primeira temporada.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’
Em qual episódio a música tema de Game of Thrones aparece em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?
A música tema icônica composta por Ramin Djawadi aparece no final do episódio 4, intitulado ‘Seven’ (Sete), durante a cena do julgamento por combate quando Baelor Targaryen se oferece para lutar ao lado de Dunk.
Por que a música tema só toca no episódio 4 e não antes?
Segundo o showrunner Ira Parker, a música foi reservada para marcar ‘o chamado à aventura’ na jornada do herói. Nos primeiros três episódios, a série mantém um tom leve e cômico; o episódio 4 representa a transição para o heroísmo épico, momento em que a trilha sonora icônica se torna narrativamente apropriada.
Quem compôs a trilha sonora de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?
A trilha sonora é composta por Ramin Djawadi, o mesmo músico responsável por Game of Thrones, Westworld e Iron Man. Ele retorna à franquia trazendo temas familiares, mas os utiliza de forma seletiva para acompanhar a escalada emocional desta nova história.
Preciso ter visto Game of Thrones para entender ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?
Não. A série funciona como um ponto de entrada independente no universo de Westeros, ambientada cerca de 90 anos antes dos eventos de Game of Thrones. Embora fãs da série original apreciem as referências e a música tema, a narrativa de Dunk e Egg é autossuficiente.
Qual a diferença de tom entre ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ e ‘A Casa do Dragão’?
Enquanto ‘A Casa do Dragão’ mergulha imediatamente em intrigas políticas complexas e tragédia dinástica no estilo de Game of Thrones, ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ começa como uma aventura de cavalaria mais leve e íntima, reservando o tom épico para momentos específicos como o final do episódio 4.

