Analisamos como Supergirl DCU altera Woman of Tomorrow ao tornar Krypto o catalisador emocional de Kara Zor-El, criando continuidade com Superman e transformando o cão em memória viva de Krypton.
Existe uma armadilha perigosa quando adaptamos quadrinhos aclamados para o cinema: a tentação de ser fiel demais. Supergirl DCU parece estar evitando esse erro com uma mudança aparentemente simples, mas narrativamente poderosa. Em vez de mergulhar direto na trama de Woman of Tomorrow — HQ que serve de base para o filme —, a produção de James Gunn está adicionando uma peça que não existia nos gibis: o primeiro encontro entre Kara Zor-El e Krypto.
O teaser divulgado em janeiro de 2026 mostra exatamente esse momento. Kara, aparentemente ainda se estabelecendo como heroína, encontra um cachorro em tamanho puppy — mas com olhos que carregam séculos de história kryptoniana. Ela não o reconhece imediatamente. Há uma hesitação, um reconhecimento tardio. É um detalhe pequeno, mas que reconfigura completamente como o filme vai construir sua identidade emocional.
Por que “Woman of Tomorrow” precisava dessa alteração
A HQ de Tom King e Bilquis Evely, lançada em 2021, é um material de origem incomum. Quando conhecemos Kara naqueles gibis, ela já é uma heroína experiente — quase cínica, definitivamente cansada, viajando pela galáxia distante da Terra. A história começa in media res, com a Supergirl de um futuro distante já estabelecida em sua mitologia pessoal.
Funciona perfeitamente nos quadrinhos, onde o leitor aceita gaps narrativos e preenchimentos retroativos. Mas cinema exige uma economia diferente de empatia. Precisamos ver os laços sendo formados para sentir sua ruptura ou fortalecimento. O filme, ao que tudo indica, está transformando Krypto de um elemento já estabelecido (como nos gibis) em um catalisador para a própria jornada de Kara.
A cena do teaser sugere algo crucial: Krypto chega a Kara não como um cão superpoderoso em pleno uso de suas faculdades, mas como um sobrevivente fragilizado, envelhecido pela viagem interestelar. Isso espelha a própria condição de Kara — outra órfã de Krypton tentando encontrar lar em um mundo que não faz sentido. A simetria é deliberada e inteligente: onde o Superman de Superman: O Filme (2025) encontra Krypto já estabelecido na Fortaleza da Solidão, Kara o encontra como um reflexo de si mesma — perdido, deslocado, tentando reconectar fragmentos de um mundo morto.
Krypto como fio condutor emocional do universo
Aqui reside a genialidade da mudança. Ao fazer de Krypto não apenas um companheiro, mas um personagem com arco próprio que começa em Superman: O Filme e continua em Supergirl, Gunn está criando algo raro em universos cinematográficos de super-heróis: continuidade emocional real.
Pense nos blockbusters de heróis de capa dos últimos 15 anos. Quantos deles tratam seus elementos “cômicos” — como um cão superpoderoso — como mero alívio cômico descartável? O DCU parece estar fazendo o oposto. Krypto é, estranhamente, o personagem mais constante entre os dois primeiros filmes da franquia. Ele viu Krypton explodir duas vezes, de perspectivas diferentes. Ele conecta o último filho e a última filha do planeta morto.
Isso muda a matemática do universo. Depois de Supergirl, teremos não um, não dois, mas três kryptonianos estabelecidos — e o terceiro é um cão que, ironicamente, carrega mais memória histórica que seus donos humanos. É uma configuração inédita no cinema de super-heróis live-action. Anteriormente, tivemos Superman sozinho, ou Superman com Supergirl eventualmente aparecendo, mas nunca uma tríade familiar tão explicitamente construída desde os primeiros momentos.
A fotografia de um reencontro traumatizado
O que me chamou atenção no teaser não foi apenas o roteiro, mas como a cena é filmada. A câmera trabalha em planos fechados nos olhos de Krypto — uma escolha ousada quando se filma um cão CG. Há uma textura de pelo envelhecida, manchas que sugerem viagem interestelar como radiação cósmica, não como glamour heroico. O diretor parece entender que, no universo de Gunn, até os super-cães têm cicatrizes.
Essa abordagem visual separa o DCU de outras tentativas de adaptação. Não estamos vendo um cachorro fofo para vender merchandise; estamos vendo um sobrevivente. Quando Kara finalmente reconhece o que ele é — e, por extensão, reconhece um pedaço de casa que ela pensava ter perdido completamente — a cena ganha peso de tragédia grega, não de filme sobre animais.
A comparação inevitável é com como o MCU tratou Groot ou Rocket — personagens que também carregam tragédia sob a superfície “fofa”. Mas Krypto tem uma vantagem narrativa: ele é o último elo com um mundo que não existe mais. Cada latido, cada movimento de cabeça, é arqueologia viva.
O risco de humanizar o inumano
Vou ser direto: essa mudança é arriscada. Woman of Tomorrow funciona precisamente porque Kara está sozinha, desconectada, flutuando no espaço sem âncoras emocionais. Adicionar Krypto desde o início muda a química do isolamento. O filme precisará encontrar um equilíbrio — como manter a melancolia existencial da HQ quando sua protagonista tem um cão superpoderoso como terapia emocional ambulante?
A resposta, acredito, está na natureza específica do Krypto do DCU. Este não é o cão perfeito, obediente, sempre heroico dos desenhos animados clássicos. Pelo que o teaser sugere, este é um animal traumatizado, envelhecido, talvez até instável. A conexão entre ele e Kara não é de mestre e pet, mas de dois veteranos de uma guerra que acabou antes deles nascerem — a destruição de Krypton.
Isso preserva o tom sombrio da HQ enquanto adiciona uma camada de textura emocional que o cinema precisa. Quadrinhos podem narrar internalidade; filmes precisam externalizar. Krypto serve como espelho externo para o estado psicológico de Kara.
Para onde isso leva o universo de James Gunn
Se Supergirl confirmar essa dinâmica, o DCU terá estabelecido algo valioso: uma mitologia que respira através de seus personagens “secundários”. Krypto não é mais acessório; é a memória coletiva de Krypton feita carne (e pelo).
Isso cria precedentes interessantes para futuros filmes. Se um cão pode ter esse arco, qualquer elemento do universo DC pode ser tratado com essa profundidade. A mensagem é clara: no DCU de Gunn, não existem personagens menores, apenas perspectivas ainda não exploradas.
Para quem acompanha adaptações de quadrinhos há décadas, ver uma mudança que respeita o espírito do material original enquanto entende as necessidades do meio cinematográfico é refrescante. Não é traição aos gibis; é tradução inteligente. Supergirl DCU parece estar dizendo: conhecemos a história de Kara, mas precisávamos ver seu coração se formando em tempo real — e, para isso, precisávamos ver quem ela escolhe amar primeiro, antes mesmo de entender completamente quem ela é.
O filme estreia em 26 de junho de 2026. Se entregar o que o teaser promete — uma história sobre órfãos de planetas mortos encontrando família um no outro —, pode ser o momento onde o universo cinematográfico da DC finalmente encontra sua voz distinta. Não na escala destrutiva, mas na intimidade de um reencontro entre duas almas kryptonianas que pensavam estar sozinhas no cosmos.
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Perguntas Frequentes sobre Supergirl no DCU
Quando estreia ‘Supergirl’ no DCU de James Gunn?
‘Supergirl: Woman of Tomorrow’ estreia em 26 de junho de 2026 nos cinemas. É o segundo filme do novo DCU (DC Universe) de James Gunn, seguindo ‘Superman: O Filme’ (2025).
Krypto aparece nos quadrinhos ‘Woman of Tomorrow’?
Sim, mas de forma diferente. Na HQ de Tom King e Bilquis Evely, Krypto já é um companheiro estabelecido de Kara. O filme muda isso, transformando o primeiro encontro entre eles em momento central da origem da heroína.
Qual a relação entre ‘Supergirl’ e ‘Superman: O Filme’ (2025)?
Os filmes compartilham continuidade direta. Krypto, que aparece em ‘Superman: O Filme’, serve como elo emocional entre os dois longas. O DCU estabelece uma tríade familiar kryptoniana desde o início: Superman, Supergirl e Krypto.
Quem interpreta Supergirl no DCU?
Milly Alcock, australiana conhecida por ‘House of the Dragon’, vive Kara Zor-El. O elenco inclui também Matthias Schweighöfer, Eve Ridley e Jason Momoa como Lobo.
‘Woman of Tomorrow’ é uma história de origem tradicional?
Nos quadrinhos, não. A HQ começa com Kara já como heroína experiente e cínica. O filme adapta o material mantendo o tom sombrio, mas adiciona elementos de origem através do relacionamento com Krypto para criar conexão emocional com o público.

