Revisitamos ‘Popeye’ (1980): dos bastidores caóticos em Malta com drogas e atrasos à reavaliação como cult. Por que o musical de Robert Altman e Robin Williams, um fiasco de bilheteria, se tornou obra de referência para cineastas como Paul Thomas Anderson.
Existe uma categoria específica de filme que só pode existir quando tudo dá errado da maneira certa. ‘Popeye’ filme Robin Williams é o exemplo perfeito disso: uma produção que beirou o colapso total — drogas, atrasos de meses, desastres climáticos e desencontros criativos — e mesmo assim resultou em uma obra que, quatro décadas depois, resistiu como um musical cult de charme inegável. Reassisti recentemente a versão remasterizada e saí com a mesma sensação de quando o descobri em VHS nos anos 90: isso não deveria funcionar, mas funciona desesperadamente.
O contexto de ‘Popeye’ já era dramático antes das câmeras ligarem. Robert Evans, então na Paramount, havia perdido uma guerra de lances acirrada para a Columbia pelos direitos de ‘Annie’, o musical da Broadway que viraria filme em 1982. Determinado a não sair de mãos abanando do boom dos musicais, Evans vasculhou os ativos do estúdio e encontrou o marinheiro de braços grandes. Contratou Jules Feiffer (‘Ânsia de Amar’) para o roteiro e tentou inicialmente Dustin Hoffman para o papel-título. Após desentendimentos com Hoffman sobre interpretação, Evans mirou em Robin Williams — ainda praticamente um desconhecido fora do stand-up e da TV — e para dirigir, sonhou com Hal Ashby ou Louis Malle. Ambos recusaram. Foi então que Evans bateu na porta de Robert Altman.
O set mais caótico da história de Hollywood
Altman aceitou, mas estava em uma baixa profissional cruel. Depois de obras-primas como ‘MASH’, ‘Nashville’ e ‘Onde os Homens São Homens’ (McCabe & Mrs. Miller), o diretor viu sua carreira esfriar no final dos anos 70. ‘Popeye’ parecia uma chance de reiventar-se com um blockbuster familiar. O problema é que Malta, ilha mediterrânea escolhida para construir a vila de Sweethaven, não tinha madeira indígena suficiente. Toneladas de material tiveram que ser importadas pelo designer de produção Wolf Kroeger. Aí começou a chover. E não parou mais.
O que deveria ser uma filmagem rápida se estendeu por dois meses além do previsto, transformando o set numa versão real daquele caos organizado que Altman tanto gostava de filmar — só que desta vez, a câmera estava do lado errado da lente. Barry Diller, então CEO da Paramount, resumiu a situação com uma frase que entrou para a história de Hollywood: quando perguntado por Anderson Cooper qual foi o set “mais cheio de cocaína” que visitou, Diller respondeu sem hesitar: “‘Popeye’. Você não podia escapar dela.”
A logística era surreal. Na época, era padrão da indústria enviar latas de filme processado de Malta para Los Angeles (os “dailies”) e receber de volta novos negativos. Segundo relatos de Diller, essas mesmas latas serviam de transporte para a droga. O workflow era bizarro: material filmado ia para LA, cocaína voltava para Malta. É irônico que décadas depois, Martin Scorsese usaria o vício do espinafre de Popeye como metáfora visual para a cocaína de Jordan Belfort em ‘O Lobo de Wall Street’ — o filme que nasceu literalmente de uma produção onde a logística cinematográfica e o tráfico de drogas se confundiam.
Quando o hiper-realismo de Altman encontra um cartoon
Assistir ‘Popeye’ hoje é uma experiência desorientadora — e não apenas pelas músicas de Harry Nilsson que grudam na cabeça com aquela mistura de melodia infantil e letra melancólica. Altman não alterou seu estilo autoral para se adequar ao material. Ele aplicou exatamente a mesma gramática visual de ‘Nashville’ e ‘Short Cuts – Cenas da Vida’: lentes longas de 50mm que achatam o espaço e eliminam profundidade de campo, diálogos sobrepostos que exigem atenção total, cores desbotadas propositalmente e uma estética de “realidade suja” que faz Sweethaven parecer um vilarejo pós-depressão americana, não um cenário de desenho animado.
O resultado é um filme que, em 1980, confundiu críticos e público. Não era o musical colorido e otimista que Evans prometera. Era algo mais estranho: quase um ‘Um Perigoso Adeus’ disfarçado de comédia infantil, ou ‘O Jogador’ com menos cinismo e mais trapézio. A cena da batalha final contra o polvo — notoriamente problemática tecnicamente, com tentáculos visivelmente mecânicos e timing de comédia slapstick que não funciona — resume a desconexão: parece que estamos vendo um making-of de um filme que nunca foi totalmente terminado, mas que por algum milagre mantém coerência emocional.
E aqui entra o elemento que salva tudo: o elenco. Se o filme sobreviveu às drogas, à chuva maltesa e ao estilo inapropriado de Altman, foi graças à alquimia entre Robin Williams e Shelley Duvall.
A química que resistiu ao caos: Williams e Duvall
Williams chegava ao cinema com aquela energia de improvisador que mais tarde definiría sua carreira, mas aqui ainda tinha algo a provar. Ele interpreta Popeye como um homem genuinamente deslocado — não apenas fisicamente (com aqueles próteses de braços que parecem doloridos de verdade e limitam seus movimentos), mas existencialmente. A busca pelo pai perdido (Ray Walston) dá ao filme um núcleo melancólico que ninguém esperava num musical de Natal.
Duvall, por outro lado, é a revelação. Como Olive Oyl, ela cria o “straight man” perfeito para o caos de Williams — mas não da maneira convencional. Ela é esquisita, desajeitada, com aquela voz que parece sempre prestes a quebrar, e mesmo assim transmite uma dignidade vulnerável. Juntos, eles formam uma dupla que lembra os grandes casais de screwball comedy dos anos 30, mas submersos em lama maltesa e água de chuva. Há uma cena específica — quando ambos cuidam do bebê Swee’Pea em um quarto de hotel improvisado, cantando “He Needs Me” em voz baixa enquanto a chuva bate nas janelas — onde o filme para de tentar ser um blockbuster e se torna algo íntimo, quase caseiro. É nesses momentos que você percebe: apesar de tudo, ‘Popeye’ tem alma.
De fiasco de bilheteria a tesouro cult
Quando estreou em dezembro de 1980, ‘Popeye’ foi massacrado. Críticos viram o desencontro entre estilo e conteúdo como falha, não como escolha deliberada. O filme teve lucro modesto (cerca de US$ 60 milhões contra um orçamento de US$ 20 milhões, mas marketing pesado), mas nunca o blockbuster que Evans precisava para salvar sua posição na Paramount. Foi esquecido rapidamente, condenado às prateleiras de fitas VHS em seções de “infantil” em lojas de conveniência.
Mas o tempo é um crítico melhor que a maioria. Nas últimas duas décadas, ‘Popeye’ passou por uma reavaliação silenciosa mas definitiva. Paul Thomas Anderson — talvez o maior discípulo vivo de Altman — é um defensor vocal do filme. Em entrevistas, costuma mencionar como a estrutura coral de Sweethaven e a generosidade com que Altman trata seus personagens secundários prefiguram seu próprio trabalho em filmes como ‘Magnólia’. O que em 1980 parecia descontrole, hoje lê-se como autoralidade pura: um diretor que se recusou a suavizar suas arestas mesmo quando dirigindo um suposto produto comercial.
As músicas de Nilsson, outrora consideradas descartáveis, ganharam status cult. “He Needs Me” — cantada por Duvall com aquela fragilidade que torna a dependência emocional quase assustadora — é uma das declarações de amor mais estranhas e honestas do cinema musical, uma canção que soa simultaneamente infantil e profundamente adulta. “I Yam What I Yam” funciona como hino de identidade, enquanto “Sweethaven” abre o filme com um tom de ironia nostálgica que só Altman conseguiria equilibrar.
Veredito: para quem é este filme hoje?
‘Popeye’ não é um filme fácil de recomendar sem ressalvas. Se você espera um musical tradicional com coreografias polidas e cores saturadas, vai sair frustrado. O ritmo é irregular — especialmente no terceiro ato, onde a batalha com o polvo realmente não funciona, nem mesmo ironicamente —, o visual é propositalmente feio, e a trilha sonora exige que você aceite o humor idiossincrático de Nilsson.
Mas se você curte o cinema de Altman — aquela sensação de estar espiando uma realidade que continua existindo fora do quadro, com suas câmeras que parecem perder e encontrar personagens por acaso — ou se tem paciência para ver Robin Williams antes de se tornar uma máquina de entretenimento, construindo um personagem com mãos e olhos tristes, ‘Popeye’ recompensa. É um filme sobre como famílias improvisadas se formam em meio à adversidade, feito por uma equipe que literalmente enfrentou tempestades e vícios para contar essa história.
Quarenta e poucos anos depois, o ‘Popeye’ filme Robin Williams permanece como um testemunho de que, às vezes, o caos absoluto produz algo que a máquina bem oleada de Hollywood jamais conseguiria fabricar: uma obra com defeitos visíveis, sim, mas com uma autenticidade rara demais nos blockbusters atuais. É um filme que merece existir — não apesar de sua produção caótica, mas por causa dela.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Popeye’ (1980)
Onde assistir ‘Popeye’ filme Robin Williams?
O filme está disponível para aluguel e compra digital nas principais plataformas (Apple TV, Amazon Prime Video, Google Play). Ocupações no streaming por assinatura variam — atualmente pode ser encontrado no Paramount+ ou em serviços de aluguel via streaming.
Por que a produção de ‘Popeye’ foi tão caótica?
A filmagem em Malta enfrentou chuvas torrenciais inesperadas que atrasaram a produção em dois meses, falta de madeira local para construir os cenários (que tiveram de ser importadas), e um ambiente de uso generalizado de drogas no set — relatado pelo próprio executivo da Paramount Barry Diller como o set “mais cheio de cocaína” que já visitou.
‘Popeye’ é um bom filme? Vale a pena assistir?
Depende do seu perfil. Não é um musical tradicional: tem ritmo irregular, visual propositalmente “sujo” e estilo autoral de Altman. Recomendado para fãs de Robert Altman, curiosos sobre Robin Williams em seus primeiros trabalhos, ou quem aprecia filmes cult com produção problemática mas alma única. Não recomendado para quem espera coreografias polidas e narrativa convencional.
Quem compôs as músicas de ‘Popeye’?
As músicas originais foram compostas por Harry Nilsson, cantor e compositor conhecido por “Without You” e “Everybody’s Talkin'”. As canções misturam humor infantil com melancolia adulta — especialmente “He Needs Me”, interpretada por Shelley Duvall, que se tornou tema cult do filme.
Por que ‘Popeye’ virou filme cult?
O filme foi reavaliado nas últimas duas décadas por sua autenticidade autoral: Altman recusou-se a suavizar seu estilo para um blockbuster familiar. Defensores como Paul Thomas Anderson apontam como a estrutura coral de Sweethaven prefigura o cinema contemporâneo. Além disso, a química entre Williams e Duvall e as músicas de Nilsson ganharam status de clássico cult.

