Western esquecidos: obras-primas do gênero que o tempo enterrou

Resgatamos 10 westerns nota 10 que o tempo injustamente enterrou, de spaghetti westerns brutais a thrillers australianos. Análises profundas de obras-primas negligenciadas por má sorte de época, não por falta de mérito artístico.

O western morreu aos poucos durante os anos 1960 e 1970, vítima de uma overdose de produções medíocres que saturaram o mercado até a audiência simplesmente desistir. Quando o gênero tentou ressurgir, a indústria já havia mudado — e obras genuinamente brilhantes acabaram enterradas sob essa avalanche de desinteresse coletivo. Resgatar esses western esquecidos não é apenas exercício de nostalgia; é reconhecer que, entre as colaborações canônicas de John Ford e Sergio Leone, existem filmes que expandiram a linguagem do gênero de formas que seus diretores nem sempre conseguiram repetir.

Eu passei anos cavando nesse cemitério cinematográfico. Algumas dessas descobertas me pegaram de surpresa não pela raridade, mas pela ousadia — como um western australiano que deconstrói o mito do herói armado, ou um filme de John Wayne tão violento que parece pertencer a outro universo. A lista a seguir não é um acúmulo de curiosidades históricas: são obras que, se tivessem estreado em outra época ou com outro marketing, estariam hoje ao lado de ‘Rastros de Ódio’ e ‘Os Imperdoáveis’.

O spaghetti western com o final que Hollywood não teria coragem

‘The Great Silence’ (1968) de Sergio Corbucci é o tipo de filme que você não esquece depois de ver — e não pelo motivo que espera. Enquanto Leone transformava o western em ópera visual, Corbucci usava a mesma estética para algo muito mais sombrio. A história de “Silence” (Jean-Louis Trintignant), um pistoleiro mudo que enfrenta o caçador de recompensas cruel interpretado por Klaus Kinski em uma cidadezinha coberta de neve nos Alpes italianos, parece familiar até o último minuto.

Aqui está o que separa o filme de qualquer outro spaghetti western: o desfecho. Sem spoilers explícitos, digo apenas que Corbucci — inspirado pelas mortes de figuras como Malcolm X e Che Guevara — optou por uma conclusão que nega categoricamente a justiça poética. Clint Eastwood chegou a considerar refazer o filme nos Estados Unidos, desistiu, mas não por acaso adotou o visual do personagem (casaco de pele de lobo, silêncio forçado) para ‘Joe Kidd’ (1972). A diferença é que Eastwood, ou Hollywood, nunca teriam estômago para o desfecho que Corbucci impõe ao espectador: uma neve que absorve sangue e esperança com igual indiferença.

Quando o Velho Oeste mudou de continente

‘A Proposta’ (2005, originalmente ‘The Proposition’) é um western esquecidos que prova como o gênero transcende geografia. O australiano John Hillcoat transporta a brutalidade do Velho Oeste para o deserto da Austrália Ocidental, criando um pesadelo suado e etéreo onde Guy Pearce interpreta um fora-da-lei obrigado a caçar seu próprio irmão (Danny Huston) para salvar a vida do irmão mais novo.

O que impressiona aqui é a textura visual. Hillcoat não imita Leone ou Peckinpah; ele constrói algo que parece uma deconstrução do mito do justiceiro, similar ao que Eastwood fez em ‘Os Imperdoáveis’, mas através de uma lente pós-colonial única. A fotografia de Benoît Delhomme usa luz natural de forma quase dogmática, transformando o deserto em uma prisão de luz ofuscante. O elenco de apoio — Emily Watson e John Hurt — eleva material que poderia ser exploitation puro para algo que paira entre o violento e o contemplativo. É um filme difícil de assistir, mas impossível de ignorar.

John Wayne em seu momento mais brutal

John Wayne em seu momento mais brutal

A década de 1970 foi irregular para John Wayne. Entre a elegia de despedida de ‘O Último Pistoleiro’ (1976) e a mediocridade reciclada de ‘Rio Lobo’ (1970), existe ‘Jake Grandão’ (1971, ‘Big Jake’) — um filme que poucos citam quando discutem a carreira do Duke, talvez porque ele aqui abandone completamente a persona do herói cavalheiresco.

Wayne interpreta Jake McCandles, um ranqueiro rude rastreando os sequestradores de seu neto. A violência é explícita desde o início: uma cena de ataque mostra homens, mulheres e crianças sendo abatidos com detalhes gráficos raros para a filmografia do ator. Sim, o filme sofre com inserções desastradas de humor slapstick que destroem o ritmo, mas quando ‘Jake Grandão’ se concentra na tensão da caçada, entrega uma intensidade que o cinema do Duke raramente alcançou. É o western mais violento de sua carreira, e curiosamente, um dos mais honestos sobre o custo humano da vingança, sem a redenção fácil dos seus filmes anteriores.

O thriller de Ron Howard que não parece um filme do Ron Howard

Em 2003, Ron Howard estava entre ‘Uma Mente Brilhante’ e ‘O Código Da Vinci’, oscilando entre dramas premiados e blockbusters. No meio desse caminho, lançou ‘Desaparecidas’ (‘The Missing’), estrelado por Cate Blanchett e Tommy Lee Jones — e o filme sumiu sem deixar rastros, apesar de ser um dos melhores trabalhos do diretor.

A premissa ecoa ‘Rastros de Ódio’: uma mulher da fronteira (Blanchett) é forçada a se aliar ao pai ausente (Jones) para resgatar a filha sequestrada por traficantes. Mas Howard abandona aqui seu estilo usual de blockbusters bem-acabados por algo cru e despojado. As sequências de ação são desagradáveis de propósito, a fotografia de Salvatore Totino evita a beleza cartão-postal em favor de uma paleta terrosa e áspera, e o relacionamento entre pai e filha é tratado com uma complexidade emocional rara no gênero. É um filme que envelheceu bem, talvez porque nunca tentou agradar as massas da época.

O dilema moral onde ninguém vence

‘Last Train From Gun Hill’ (1958) parece, à primeira vista, mais um western de cerco: Kirk Douglas como um marechal tentando extrair um prisioneiro de uma cidade dominada pelo amigo de infância (Anthony Quinn). A configuração é simples, mas o roteiro de James Poe insiste em recusar soluções fáceis.

O filme lida com estupro e assassinato — temas pesados para 1958 — e a complicação central é que o criminoso é filho de Quinn, um barão do gado que se recusa a entregá-lo. Douglas é implacável como o marechal que perdeu a esposa indígena para os assassinos, mas o roteiro não permite que sua vingança seja cathártica. O “final feliz” é, na verdade, uma tragédia disfarçada: nenhum dos personagens pode realmente vencer essa situação, e a amizade destruída entre os dois homens maduros pesa mais do que qualquer troca de tiros. É um western psicológico que antecipou a complexidade moral que o gênero só assumiria na Nova Hollywood.

A sequência que superou o original

‘Os Jovens Pistoleiros’ (1988, ‘Young Guns’) foi vendido como “The Brat Pack Western”, um produto de seu tempo que envelheceu de forma desigual. Mas sua sequência, ‘Os Jovens Pistoleiros 2’ (1990, ‘Young Guns II’), é um caso raro onde o segundo filme não apenas corrige os erros do primeiro — ele transcende completamente o material original.

Emilio Estevez continua sendo a melhor interpretação de Billy the Kid no cinema, aqui acompanhado por Kiefer Sutherland e Christian Slater. O que diferencia o segundo filme é o tom: enquanto o primeiro era uma celebração juvenil da rebeldia, este é um estudo sobre mortalidade. A gangue é dizimada membro a membro, e o final melancólico — apoiado por uma trilha sonora épica de James Horner que mistura sintetizadores com orquestração western — recusa o glamour do fora-da-lei. É um filme que merece ser redescoberto, especialmente por quem considera o primeiro apenas uma curiosidade dos anos 80.

O neo-western que antecipou a era moderna

O neo-western que antecipou a era moderna

Walter Hill sempre soube dirigir ação com peso de western, e ‘O Limite da Traição’ (1987, ‘Extreme Prejudice’) é sua fusão mais perfeita dos dois gêneros. Nick Nolte interpreta um Texas Ranger que precisa derrubar um barão das drogas que era seu amigo de infância, enquanto uma unidade de operações secretas (Black Ops) planeja um assalto que cruza seus caminhos.

O filme é um western disfarçado de thriller contemporâneo. Nolte é o arquétipo do homem de poucas palavras, mas Hill insiste em dar-lhe conflitos emocionais que vão além do macho estoico. O tiroteio final, inspirado em ‘The Wild Bunch’ de Peckinpah, é caótico e desmoralizante, não heroico — com cortes rápidos que negam a coreografia elegante da ação dos anos 80. Como neo-western, ele pavimentou o caminho para o que viria depois, provando que as dinâmicas do Velho Oeste — lei vs. lealdade pessoal, progresso vs. tradição — permanecem relevantes quando transplantadas para o século XX.

A caçada na neve que inspirou Rambo

Dois ícones de poucas palavras — Lee Marvin e Charles Bronson — frente a frente em ‘Perseguição Mortal’ (1981, ‘Death Hunt’). Baseado vagamente na caçada real a um caçador canadense em 1931, o filme mostra Bronson como Albert Johnson, um homem sendo perseguido pela Polícia Montada do Canadá liderada por Marvin.

A dinâmica é fascinante: Marvin sabe que a caçada é injusta, que Johnson está sendo perseguido por defender seu território contra ladrões de cães, mas seu dever como policial o obriga a continuar. O filme funciona mais como aventura de sobrevivência do que western tradicional, e é impossível não ver nele o protótipo de ‘Rambo: Programado Para Matar’ (1982), que chegaria ao ano seguinte. A paisagem gelada das Montanhas Rochosas serve como personagem, e o confronto final entre dois homens que se respeitam, mas estão presos em papéis que não escolheram, é devastador.

O cult que nasceu do VHS

O cult que nasceu do VHS

Tom Selleck nunca conseguiu transpor o sucesso de televisão para o cinema de forma consistente, apesar de ‘Three Men and a Baby’ (1987) ter sido um hit. Entre seus filmes, ‘Contratado para Matar’ (1990, ‘Quigley Down Under’) — conhecido internacionalmente pelo título original — foi um fracasso de bilheteria que encontrou sua audiência através de reprises na TV e fitas VHS.

Selleck interpreta Quigley, um atirador de elite contratado por um fazendeiro australiano (Alan Rickman em um de seus vilões mais detestáveis) que descobre que seu trabalho será exterminar aborígenes. O filme ganha vida na dinâmica entre Quigley e “Crazy Cora” (Laura San Giacomo), uma mulher perturbada que o acompanha. O charisma de Selleck carrega o filme, mas é a honestidade do roteiro sobre colonialismo e violência racial — temas raros em westerns mainstream — que o elevam acima da média. É um daqueles filmes que você descobre por acaso e fica recomendando por anos.

O encontro que o cinema não repetiu

Howard Hawks dirigiu John Wayne em três westerns que formam uma trilogia informal: ‘Onde Começa o Inferno’ (1959, ‘Rio Bravo’), ‘El Dorado’ (1966) e ‘Rio Lobo’ (1970). O primeiro é considerado clássico absoluto; o último, uma repetição cansada. No meio, ‘El Dorado’ costuma ser negligenciado, o que é um crime cinematográfico.

A razão é simples: é a única vez que John Wayne e Robert Mitchum dividiram a tela. Wayne é Cole Thornton, um pistoleiro que retorna a El Dorado para encontrar o xerife JP Harrah (Mitchum) mergulhado no álcool. A química entre os dois gigantes — um todo de aço, outro de carisma preguiçoso e timing cômico impecável — é imediata. James Caan aparece em um dos primeiros papéis importantes como um jovem tentando provar seu valor. O filme tem o “vibe” de hangout que Hawks dominava: personagens sentados, conversando, bebendo, entre tiroteios esporádicos. Não é ‘Rastros de Ódio’, mas é um dos westerns mais prazerosos de assistir, impossível de não se envolver com seu ritmo descomplicado.

Por que resgatar esses filmes agora

O western moderno, quando aparece, tende a ser ou um epico de prestígio tipo ‘Os Imperdoáveis’ ou um revisionismo violento estilo ‘Os Oito Odiados’. Mas esses western esquecidos oferecem algo diferente: a variedade de um gênero que já foi o principal veículo de narrativa americana. Eles provam que o western abrigava spaghetti brutais, thrillers australianos, dramas familiares e até aventuras de sobrevivência canadenses.

Se você é daqueles que acha que já viu tudo que o gênero tem a oferecer, comece por ‘The Great Silence’ e seu final desolador. Ou por ‘A Proposta’ e sua visão única do Velho Oeste. Cada um desses filmes foi injustamente sepultado pela história do cinema — não por falta de mérito, mas por má sorte de época. Eles merecem existir na internet, e merecem sua atenção.

Algum desses caiu na sua lista de favoritos ocultos? Ou você tem outros western esquecidos que acha que faltaram aqui? A discussão está aberta — porque cinema bom demais para ficar na obscuridade precisa ser compartilhado.

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Perguntas Frequentes sobre Westerns Esquecidos

O que define um “western esquecido”?

Um western esquecido é tipicamente um filme de qualidade superior — seja em roteiro, direção ou atuação — que não alcançou o reconhecimento duradouro de clássicos como ‘Rastros de Ódio’ ou ‘Três Homens em Conflito’. Geralmente foram vítimas de má distribuição, marketing inadequado, estreia em momento de declínio do gênero (anos 60-70) ou simplesmente foram ofuscados por blockbusters da mesma época.

Por que o western perdeu popularidade nos anos 60 e 70?

O gênero sofreu uma saturação de mercado: entre 1940 e 1960, os estúdios produziam centenas de westerns B por ano, diluindo a qualidade média. Além disso, a Nova Hollywood trouxe temas urbanos e contemporâneos que pareciam mais relevantes para a juventude da época. O western só sobreviveu quando reinventado por diretores como Peckinpah (com violência revisionista) ou Leone (com estética europeia).

Onde posso assistir esses westerns esquecidos hoje?

A disponibilidade varia por região, mas muitos desses títulos estão em streaming: ‘The Great Silence’ e ‘A Proposta’ costumam estar em serviços especializados como Criterion Channel ou Mubi; ‘Jake Grandão’ e ‘El Dorado’ frequentemente aparecem no HBO Max ou Amazon Prime Video; já títulos como ‘Contratado para Matar’ e ‘Os Jovens Pistoleiros’ estão disponíveis para aluguel digital na Apple TV, Google Play ou YouTube Movies.

Qual a diferença entre spaghetti western e western americano tradicional?

O spaghetti western é um subgênero produzido na Europa (principalmente Itália e Espanha) entre os anos 60 e 70, caracterizado por orçamentos menores, locações no deserto espanhol (Tabernas), violência mais gráfica, moralidade ambígua e estética hiper-estilizada — com closes extremos nos olhos e trilhas sonoras inovadoras (Ennio Morricone). Diferente do western americano clássico, que frequentemente celebrava a civilização conquistando a fronteira, o spaghetti western tendia a mostrar um universo cínico onde o anti-herói prevalece.

Por que John Wayne fez filmes tão violentos nos anos 70?

Nos anos 70, Wayne estava envelhecendo e tentando se adaptar a um cinema que mudava. Filmes como ‘Jake Grandão’ (1971) e ‘O Último Pistoleiro’ (1976) refletem uma tentativa de acompanhar a Nova Hollywood, que celebrava violência mais realista e heróis falhos. Wayne, sempre conservador, usava essa violência não para glamourizar, mas para mostrar o custo real da vingança — uma resposta tardia, talvez, aos filmes de Sam Peckinpah que haviam redefinido o gênero.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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