Alan Ritchson, protagonista de ‘Reacher’, revela preocupação com as 30 cenas de luta da 4ª temporada: ‘me preocupo com a fadiga de pancadaria’. Analisamos por que o excesso de violência pode destruir o suspense de ‘Gone Tomorrow’ e o risco da lógica algorítmica do streaming.
Existe um limite fino entre ‘satisfatório’ e ‘exaustivo’ quando se trata de violência coreografada na televisão. Alan Ritchson, protagonista de ‘Reacher’, parece estar navegando exatamente nessa corda bamba enquanto prepara o lançamento de ‘Reacher’ temporada 4 — e suas declarações recentes revelam uma preocupação rara de se ouvir de um astro de ação: talvez existam lutas demais.
A franquia baseada nos livros de Lee Child sempre se vendeu como uma mistura peculiar. Não é apenas um thriller de porrada nem um procedural policial convencional. É, nas palavras dos fãs mais fiéis, um ‘mistério criativo com pitadas de filme de ação dos anos 1980’. Quando Tom Cruise assumiu o papel no cinema, a rejeição da base veio justamente porque ele parecia pequeno demais, ágil demais, urbano demais — nada a ver com o gigante de 1,95m que resolve problemas com o punho antes do cérebro, mas que, ironicamente, é um detetive brilhante.
Ritchson corrigiu essa equação com precisão cirúrgica. Tanto que ‘Reacher’ se tornou um fenômeno da Prime Video a ponto de gerar spin-off (‘Neagley’, focado na parceira de Reacher). Mas o sucesso parece ter criado uma pressão invisível: se pancadaria funcionou nas três primeiras temporadas, por que não multiplicar por três na quarta?
Por que 30 lutas em oito episódios podem ser o inimigo da tensão
A quarta temporada adapta Gone Tomorrow (2009), um dos romances mais densos de Child. A premissa é instigante: Reacher identifica uma potencial suicida no metrô de Nova York, intervém, e se vê engolido por uma conspiração política com ramificações pessoais. Quem leu o livro sabe — a obra funciona como um procedural silencioso por longos trechos. Depois de um prólogo tenso no subsolo de Manhattan, a narrativa vira um jogo de xadrez investigativo onde a violência física é rara, mas cada confronto pesa toneladas.
É justamente por isso que as palavras de Ritchson à Screen Rant soaram estranhas. O ator estima que foram filmadas cerca de 30 sequências de luta ao longo dos oito episódios. ‘Nunca filmamos tantas’, admitiu ele. ‘E não é que estamos fazendo pelo fazer. Eu me preocupo com a fadiga de pancadaria do público.’
A referência que ele usou é reveladora. Ritchson contou que observa a própria esposa durante maratonas de ‘Game of Thrones’: enquanto ele acorda nos momentos de batalha (‘Agora ficou bom’), ela desliga exatamente quando as espadas começam a cantar. ‘Me acorde quando as lutas acabarem’, diz ela. O ator concluiu: ‘Eu não quero que alguém se desconecte porque estão jogando todas as lutas do mundo na tela.’
O dilema entre a essência literária e a lógica do streaming
Aqui mora o problema. Gone Tomorrow não é um livro que pede 30 confrontos físicos. Ele pede suspense, dedução, silêncio. O clímax da obra — sem entrar em spoilers — envolve um confronto brutal com facas que funciona justamente porque é o único momento de violência extrema após horas de acumulação psicológica. É visceral porque é raro.
As temporadas anteriores de ‘Reacher’ já tomavam liberdades quanto à quantidade de ação em relação aos livros-fonte, mas mantinham um equilíbrio. A terceira temporada, adaptando Persuader, até aumentou as cenas de pancadaria, mas preservava a estrutura de thriller onde a violência era consequência, não decoração. Agora, parece que a produção está invertendo a receita: em vez de mistério com ação, temos ação com mistério.
Ritchson, para seu crédito, tenta vender a justificativa interna. ‘Há stakes e uma razão para cada uma’, garantiu ele. ‘Batemos recorde de quantidade de lutas, mas todas por boas razões.’ A questão é: será que o espectador médio vai perceber essas ‘razões’ quando o ritmo se torna uma sucessão interminável de socos, chutes e tiros?
A ‘fadiga de pancadaria’ é real — e afeta até os fãs de gênero
Como crítico que acompanha séries de ação há mais de uma década, posso confirmar: o fenômeno que a esposa de Ritchson descreve é epidemiologicamente preciso. Existe um ponto — geralmente entre a terceira e quinta cena de luta seguida — onde o cérebro para de processar a violência como narrativa e começa a tratá-la como ruído. É o equivalente visual de caps lock permanente.
Series como ‘Daredevil’ (Netflix) funcionavam porque limitavam seus confrontos coreografados a um ou dois por episódio, tornando-os eventos. Quando ‘Reacher’ promete quase quatro lutas por capítulo, corre o risco de transformar seu maior trunfo — a brutalidade física do personagem — em algo banal. Se Recher quebra um braço a cada 15 minutos, quebrar braços deixa de ser impressionante.
O paradoxo é cruel: Ritchson se tornou tão confortável nas sequências de ação que assisti-lo distribuindo justiça física é, objetivamente, um dos prazeres mais genuínos da TV atual. Ele tem a presença física, a velocidade e a coreografia que Cruise nunca conseguiu trazer. Mas até o melhor prato enjoa se servido em excesso.
O que está em jogo na ‘Reacher’ temporada 4
O desfecho de Gone Tomorrow, se respeitado, oferece uma saída elegante. Aquela luta final com facas — descrita nos livros como algo ‘intensamente visceral e meio assustador, porque o próprio Reacher não é muito bom com facas’ — poderia ser o momento redentor que justifica toda a violência acumulada. Se a série construir adequadamente para esse momento, mantendo o mistério político como fio condutor e não apenas como pretexto para explosões, Ritchson pode estar errado sobre sua própria preocupação.
Mas se ‘Reacher’ temporada 4 sacrificar o tom investigativo de Child em favor de um ritmo de videogame onde cada episódio precisa de ‘boss fights’, a série arrisca perder o que a distingue de qualquer outro thriller de ação do catálogo Prime Video. Não é a quantidade de sangue que faz Jack Reacher interessante — é o fato de que, quando ele finalmente derrama sangue, você entende exatamente por que aquele soco era inevitável.
A aposta de Ritchson é audaciosa: ele quer que cada uma das 30 lutas tenha peso narrativo. Em uma era onde algoritmos de streaming frequentemente confundem ‘mais ação’ com ‘mais engajamento’, essa preocupação com a ‘fadiga de pancadaria’ soa quase como um ato de resistência artística. Resta saber se a produção teve a disciplina de seguir o instinto do protagonista — ou se entregaram uma temporada onde até Reacher parece cansado de bater.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Reacher’ Temporada 4
Quando estreia ‘Reacher’ temporada 4?
A quarta temporada de ‘Reacher’ ainda não tem data de estreia confirmada pela Prime Video, mas as filmagens foram concluídas em 2024. Considerando o ciclo de produção anterior, a estreia deve ocorrer entre o final de 2025 e o primeiro semestre de 2026.
Qual livro de Lee Child é adaptado na 4ª temporada?
A temporada 4 adapta Gone Tomorrow (publicado no Brasil como O Homem que Passou), o décimo terceiro livro da série Jack Reacher. A trama se passa em Nova York e envolve uma conspiração política ligada ao metrô da cidade.
Por que Alan Ritchson está preocupado com excesso de ação?
O ator teme a ‘fadiga de pancadaria’ do público. Em entrevista à Screen Rant, ele revelou que foram filmadas cerca de 30 sequências de luta nos 8 episódios — o dobro das temporadas anteriores. Ritchson citou o exemplo da própria esposa, que desliga durante cenas de batalha excessivas em maratonas de séries.
Vale a pena ler ‘Gone Tomorrow’ antes de assistir?
Sim, especialmente para entender a diferença de tom. O livro é um procedural investigativo denso onde a violência é rara e pontual — qualidade que Ritchson espera preservar apesar das 30 lutas filmadas. A leitura ajuda a identificar o que foi expandido ou comprimido na adaptação.
Onde assistir às temporadas anteriores de ‘Reacher’?
As três primeiras temporadas estão disponíveis exclusivamente no Prime Video. A série é uma produção original da Amazon, não estando disponível em outras plataformas de streaming.

