Fim do Super Sentai após 51 anos: o que significa para o Power Rangers

Após 51 anos ininterruptos, Super Sentai encerra e Power Rangers enfrenta sua maior transformação: independência total da footage japonesa. Analisamos como o fim da franquia-mãe afeta o reboot da Disney+ e o que muda para os fãs de longa data.

Quando criança, eu passava manhãs de sábado grudado na TV tentando identificar aquele momento sutil — quase imperceptível — em que Power Rangers mudava de cena. Um minuto os atores americanos estavam no colégio de Angel Grove com suas jaquetas coloridas, no seguinte, de alguma forma mágica, eles usavam os mesmos uniformes espandex, mas com coreografias de luta que pareciam extraídas de outro planeta. Esse truque de mágica televisiva, que durou três décadas, acaba de perder sua fonte. Com o fim do Super Sentai após 51 anos, Power Rangers enfrenta pela primeira vez na história uma realidade inédita: precisa sobreviver sem o DNA japonês que a criou.

O encerramento oficial veio em fevereiro de 2026. O episódio 49 de No.1 Sentai Gozyuger, intitulado “Final Ep.: We Are, No.1 Sentai Gozyuger!”, marcou o fim de uma instituição televisiva que remonta a 1975. Para colocar em perspectiva: quando Himitsu Sentai Gorenger estreou, Nixon ainda ocupava a Casa Branca e o conceito de heróis coloridos em trajes de borracha lutando contra monstros gigantes era uma invenção radical. Cinquenta e uma temporadas depois — uma continuidade ininterrupta que poucas franquias no mundo podem igualar — a máquina parou. E com ela, o pipeline de footage de ação, Zords e vilões de efeitos práticos que alimentou Power Rangers desde 1993.

Como Power Rangers funcionava graças ao Super Sentai (e por que isso era insustentável)

Como <em data-srcset=Power Rangers funcionava graças ao Super Sentai (e por que isso era insustentável)”/>

A engenharia por trás de Mighty Morphin Power Rangers era, reconheçamos, genial em sua economia. Produtores americanos filmavam cenas de interlúdio com atores locais — Jason, Kimberly, Zack — e costuravam-nas meticulosamente com sequências de ação importadas das temporadas japonesas Zyuranger, Dairanger e Kakuranger. O resultado era um híbrido único: drama adolescente ocidental com coreografia de artes marciais e batalhas de robôs gigantes que rivalizavam com o cinema asiático.

Essa simbiose, porém, vinha com limitações criativas invisíveis aos espectadores casuais. Os roteiristas de Power Rangers precisavam construir narrativas que justificassem footage já existente. Se o Super Sentai original tinha uma cena de luta em um parque específico de Tóquio, Angel Grove ganhava magicamente um parque idêntico. Se o mecha japonês tinha design de tigre, o Ranger americano precisava ser o Ranger Amarelo — não por escolha estética, mas por necessidade de matching. Durante anos, essa dependência era um segredo aberto: sem o anual ciclo de produção japonês, Power Rangers simplesmente não poderia existir na forma como conhecemos.

Fim do Super Sentai: independência forçada ou libertação criativa?

Aqui reside o paradoxo interessante. Se o Super Sentai tivesse encerrado nos anos 1990 ou 2000, Power Rangers provavelmente teria entrado em colapso. O modelo de negócio dependia daquele fluxo anual de novos designs de uniformes, novos Megazords e novas coreografias de monstros. Mas o cenário em 2026 é diferente — e isso muda completamente o significado do fim Super Sentai Power Rangers como fenômeno interligado.

A franquia americana já vinha se preparando para este momento, embora ninguém soubesse que ele chegaria tão abruptamente. O anunciado reboot cinematográfico para a Disney+ — revelado originalmente em 2024 com previsão de estreia para 2025/2026 — representa uma mudança de paradigma: produção in-house, orçamentos compatíveis com streaming premium, e — crucialmente — zero dependência de footage importado. O “treinamento sem rodinhas”, como diriam os criadores, estava programado para acontecer de qualquer forma. O cancelamento japonês apenas acelerou o inevitável.

Criativamente, isso é tanto uma ameaça quanto uma oportunidade. Por um lado, Power Rangers perde uma biblioteca visual de 51 anos de experimentação em design de personagens, efeitos práticos e coreografia de tokusatsu. O visual específico — aquele charme de borracha e glitter, aquela estética de “heróis de sábado de manhã” — era importado diretamente do Japão. Por outro lado, a franquia ganha algo que nunca teve: liberdade total de arquitetura narrativa. Sem precisar se prender a cenas de luta já filmadas em Yokohama, os roteiristas podem construir arcos de temporada que fluem organicamente, sem as costuras óbvias que veteranos como eu sempre conseguiam detectar.

O que muda para os fãs (e o que permanece)

O que muda para os fãs (e o que permanece)

Em termos práticos imediatos, pouco muda para quem consome Power Rangers hoje. As temporadas recentes já utilizavam cada vez mais efeitos digitais e menos footage de arquivo japonês. A transição será, para o espectador médio, imperceptível — até que perceba que os designs dos uniformes deixaram de seguir o padrão “spandex colorido com capacete estilizado” que era mandatório nos anos 90.

O impacto real é simbólico e histórico. Pela primeira vez desde 1993, Power Rangers não é uma adaptação. É uma criação original forjada nas limitações — e possibilidades — da produção norte-americana. Isso significa que podemos finalmente ver Rangers em ambientes que não parecem genericamente japoneses, com vilões cujos designs não precisam acomodar atores em trajes de borracha pré-existentes, e batalhas de Megazords filmadas com técnicas modernas de CGI em vez de maquetes tokusatsu (embora eu, particularmente, vá sentir falta do charme handmade dessas batalhas de robôs gigantes).

Super Sentai pode voltar? A história sugere que sim

Oficialmente, não há planos para o retorno do Super Sentai. A Toei posicionou o finale de Gozyuger como um verdadeiro ponto final, não uma pausa sazonal. Mas qualquer historiador da televisão sabe que “final” raramente significa “para sempre” quando se trata de propriedades com raízes geracionais tão profundas.

Um hiato pode, ironicamente, ser o melhor que poderia acontecer à franquia japonesa. O modelo anual de produção — uma nova equipe, novos uniformes, novos brinquedos a cada temporada — deixava pouco espaço para reinvenção genuína. O tempo fora do ar permite que criadores repensem a fórmula, experimentem com tom e talvez retornem com temporadas eventuais em vez de ciclos intermináveis. O potencial de merchandising permanece; o nome Super Sentai ainda carrega peso no Japão. Se as condições de mercado mudarem — e elas sempre mudam —, ressuscitar a franquia será infinitamente mais fácil que lançar algo do zero.

Até lá, porém, o silêncio é histórico. Os morphers estão desligados. E Power Rangers, pela primeira vez em sua existência, precisa provar que pode voar sozinho.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre o Fim do Super Sentai

Por que o Super Sentai acabou após 51 anos?

A Toei decidiu encerrar a franquia em fevereiro de 2026 após a conclusão de No.1 Sentai Gozyuger. Embora não tenha divulgado motivos específicos, o modelo anual de produção há décadas sofria com custos crescentes e audiência fragmentada. O hiato pode permitir uma reinvenção futura da fórmula tokusatsu.

Como Power Rangers vai funcionar sem Super Sentai?

Pela primeira vez desde 1993, Power Rangers produzirá conteúdo original 100% norte-americano, sem depender de footage de ação importado do Japão. O reboot da Disney+ utilizará CGI moderno, cenários locais e coreografias próprias, eliminando a necessidade de “costurar” cenas japonesas com atores americanos.

Qual a diferença entre Super Sentai e Power Rangers?

Super Sentai é a franquia japonesa original, produzida pela Toei desde 1975, com atores japoneses e tradição tokusatsu. Power Rangers é a adaptação americana criada em 1993 pela Saban, que misturava cenas de drama com atores locais às sequências de ação e batalhas de robôs importadas dos Super Sentai.

O reboot de Power Rangers na Disney+ tem data de estreia?

O reboot cinematográfico foi anunciado em 2024 com previsão inicial para 2025, mas a transição pós-Super Sentai pode ter ajustado o calendário. A Disney ainda não confirmou uma data oficial de lançamento, embora a produção já esteja em desenvolvimento ativo com equipe criativa independente.

Super Sentai pode voltar no futuro?

Historicamente, franquias com raízes geracionais profundas raramente morrem definitivamente. Embora a Toei tenha enfatizado que Gozyuger é um “ponto final” e não uma pausa, a propriedade intelectual permanece valiosa. Um retorno em formato de temporadas eventuais — em vez de ciclos anuais — é tecnicamente possível se as condições de mercado mudarem.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também