Analisamos 10 obras-primas que definiram o cinema de vampiros ao longo de um século, de Browning a Amirpour, revelando como o mito se reinventa em cada era para refletir nossos medos mais profundos sobre desejo, tempo e mortalidade.
Existe uma razão pela qual o vampiro sobreviveu ao cinema por um século inteiro enquanto outros monstros foram esquecidos em películas empoeiradas. O lobisomem é irracional, o zumbi é carniça, mas o vampiro — ah, o vampiro — é reflexo. Ele espelha o medo de cada era: sexualidade reprimida na década de 30, violência física nos anos 50, doença e decadência nos 90, alienação contemporânea no século XXI. O cinema de vampiros não é apenas um gênero; é um arquivo psicológico da humanidade, um espelho que sangra.
Durante mais de doze anos observando como esse mito se reinventa a cada geração — incluindo maratonas em festivais de restauração e conversas com curadores de cinematheques — aprendi que os melhores filmes de vampiros raramente são sobre sangue. São sobre obsessão, tempo, poder e isolamento. A lista a seguir não é um ranking de popularidade, mas um mapa de como o vampiro evoluiu de figura gótica estática para metáfora líquida da condição humana — e por que essas dez obras-primas merecem ser revisitadas hoje.
Drácula (1932): Como Tod Browning inventou a imagem do vampiro moderno
Tod Browning não inventou o vampiro, mas criou sua imagem cinematográfica definitiva. Em Drácula, Bela Lugosi estabelece o arquétipo do aristocrata imortal: postura rígida, olhar hipnótico, dicção teatral que soa estrangeira mesmo quando silenciosa. O que impressiona hoje, assistindo em qualquer cópia restaurada (especialmente a versão remasterizada em 4K de 2021), é a economia de meios. A trilha quase inexistente, as sombras pesadas de Karl Freund, o silêncio que precede cada ataque — tudo isso cria uma atmosfera de estagnação mortuária que blockbusters modernos, com suas cortes incessantes, perderam a capacidade de produzir.
O filme carrega marcas de seu tempo — o blocking teatral denuncia suas origens em palco — mas isso não o enfraquece; apenas o ancor numa época onde o horror era sugestão, não demonstração. Curiosamente, enquanto a versão americana era rodada durante o dia com o elenco cansado, a Universal produzia simultaneamente uma versão em espanhol à noite, com técnicos e atores diferentes, usando os mesmos cenários. Se você já viu ambas, nota como a versão hispânica, liberada de certas restrições do Código Hays, possui uma sensualidade mais ousada e movimentos de câmera mais fluidos, dirigidos por George Melford. É um exercício fascinante de como o mesmo texto ganha vida diferente sob lentes distintas.
Vampyr (1932): Quando Dreyer transformou o horror em infecção da realidade
No mesmo ano, Carl Theodor Dreyer fazia algo radicalmente oposto. Se Drácula é teatro filmado, Vampyr é sonho lúcido. Dreyer abandona a narrativa linear em favor de uma lógica onírica onde sombras se movem independentemente de seus donos, sangue flui para cima e a perspectiva desmorona. A famosa sequência do caixão — filmada em ponto de vista subjetivo, flutuando através de portas e escadas — permanece uma das imagens mais inquietantes do cinema de vampiros.
Aqui, o vampirismo não é sedução aristocrática, mas contaminação da própria realidade. Dreyer usa luz difusa, névoa e silêncio para criar uma atmosfera de erro constante: o mundo parece errado mesmo quando nada acontece. Não há Lugosi para ancorar nossa atenção; apenas o terror difuso de não saber onde termina a realidade e começa o pesadelo. É um filme que exige paciência, mas recompensa com uma experiência quase psicodélica — algo que poucos tentaram replicar desde então, com exceção talvez de algumas sequências de Eraserhead de Lynch.
Horror of Drácula (1958): A Hammer e a reinvenção física do monstro
Duas décadas depois, a Hammer Horror decidia que o vampiro precisava de músculos. Horror of Drácula, dirigido por Terence Fisher, joga fora a elegância estática de Lugosi e apresenta Christopher Lee como uma força predatória — alto, imponente, com olhos que não seduzem, mas ameaçam. A cor (Technicolor vibrante, processo que a Hammer dominava) transforma o gênero: o sangue é vermelho choque, os decotes profundos, a violência explícita.
O que Fisher entendeu — e que definiria o cinema de vampiros nas décadas seguintes — é que o pós-guerra exigia monstros corporais, não espirituais. Lee não flutua; ele ataca. A fome do vampiro é animalística, sexual, imediata. O sucesso deste filme lançou uma indústria inteira de vampiros britânicos, mas sua importância vai além do comercial: ele provou que o mito podia ser modernizado sem perder sua essência, apenas mudando seu corpo. A cena da mordida no pescoço de Lucy, por exemplo, é editada com cortes rápidos que quebravam convenições da época, criando choque físico.
Black Sunday (1960): Mario Bava e a poesia visual do terror gótico
Mario Bava, já lendário como diretor de fotografia, usou Black Sunday (também conhecido como Máscara do Demônio) para demonstrar que o cinema de vampiros podia ser puramente visual. Filmado em preto e branco contrastado que parece gravura gótica viva, o filme abre com uma execução brutal — a máscara de Satan sendo martelada no rosto de Barbara Steele — e nunca perde essa intensidade.
Bava transforma o horror em arte pictórica. Cada quadro é composição: névoa entre árvores mortas, sombras que se alongam impossivelmente, Steele interpretando duas personagens (a bruxa assassinada e sua descendente inocente) com uma presença que equilibra erotismo e repulsa. A violência, censurada em vários países na época, hoje parece antecipar o terror psicológico dos anos 70. É um filme que respira atmosfera; você não assiste, você é submerso. A fotografia de Bava aqui influenciaria diretamente o visual de Suspiria de Argento anos depois.
Fome de Viver (1983): Decadência, moda e o custo da eternidade
Tony Scott trouxe para o cinema de vampiros algo que parecia contraditório: estética de videoclipe e peso existencial. Fome de Viver (título original The Hunger) é um pesadelo de neon e sombras, onde Catherine Deneuve personifica a beleza imortal que consome parceiros (David Bowie, em uma performance trágica de envelhecimento acelerado) como quem degusta vinhos finos.
O que o filme captura — e que ressoou profundamente na cultura pop dos anos 80 — é que o vampirismo é, acima de tudo, dependência emocional. A imortalidade aqui é sedutora, mas o abandono é inevitável. A estrutura fragmentada, as imagens oníricas, a trilha sonora de Bauhaus e Schubert misturados, criam uma sensação de instabilidade que reflete as vidas dos personagens. É um filme sobre o custo de permanecer jovem quando tudo ao redor apodrece — uma metáfora que o tempo só tornou mais relevante, especialmente em nossa era de obsessão por rejuvenescimento.
Cronos (1993): Guillermo del Toro e a doença como maldição
Quando Guillermo del Toro estreou em longas, já trazia uma visão completamente nova para o cinema de vampiros. Cronos não tem capas nem castelos; tem um dispositivo mecânico dourado, insetos, e um antiquário gentil (Federico Luppi) que sofre uma transformação física dolorosa. O vampirismo aqui é doença, não dom sobrenatural — algo que isola e destrói relacionamentos.
A obsessão de Del Toro por clockwork, corpo em decomposição e inocência corrompida já está presente em estado puro. A película tem textura tátil; você quase sente o metal frio do Cronos tocando a pele. Ao despir o vampiro de seu romantismo, Del Toro abriu espaço para histórias de monstros íntimas, pessoais, onde a tragédia vem da perda da humanidade, não da ameaça às vítimas. É um filme que dói de verdade — raro no gênero. A cena onde Luppi lhe lambendo sangue de uma ferida no chão do banheiro é visceralmente desconfortável, recusando qualquer glamour.
Drácula de Bram Stoker (1992): O maximalismo operático de Coppola
Francis Ford Coppola decidiu que, se fosse fazer um filme de vampiro, seria O Filme de Vampiro — exuberante, exagerado, operático. Drácula de Bram Stoker (título original Bram Stoker’s Dracula) rejeita o realismo em favor de efeitos práticos inventivos, cenários teatrais e performances estilizadas. Gary Oldman cria um Conde que é simultaneamente monstruoso (na forma de besta anciã) e tragicamente romântico (como o príncipe rejuvenescido).
O que impressiona é o compromisso com efeitos in-camera em uma era que já adotava o digital (1992 foi o ano de Jurassic Park). As sombras que se movem independentemente, as transições de cena através de elementos visuais, a sensualidade explícita que o Código Hays havia suprimido décadas antes — tudo isso cria um sonho febril de sangue e desejo. Coppola recupera o erotismo do mito, apresentando o vampirismo como damnação e anseio entrelaçados. É um filme que divide (alguns acham exagerado), mas que envelheceu como declaração artística ousada, especialmente considerando que Coppola financiou parte com seu próprio dinheiro para manter controle criativo.
Let the Right One In (2008): A infância como território do horror real
Tomas Alfredson mudou as regras do cinema de vampiros moderno ao levar o monstro para a Suécia gelada e para a idade de 12 anos. Let the Right One In (título original) conta a história de Oskar, um garoto solitário que faz amizade com Eli, uma criança que é também predador anciente. O que poderia ser exploração sensacionalista torna-se meditação sobre solidão, bullying e dependência emocional.
Alfredson não usa a câmera para assustar, mas para observar com distância sueca. A violência, quando vem — como na piscina na cena final, filmada em plano-sequência subaquático — é abrupta, consequencial, sem glamour. O filme recusa respostas morais fáceis: Eli é vítima e monstro, Oskar é inocente e cúmplice. Ao despir o vampiro de qualquer romantismo gótico e apresentá-lo como sobrevivência pragmática em corpo infantil, o filme redefiniu o que o gênero podia dizer sobre conexão humana. É devastador. Diferente do remake americano Let Me In (2010), esta versão mantém a ambiguidade moral intacta.
Amantes Eternos (2013): A imortalidade como cansaço existencial
Jim Jarmusch transformou o vampiro em boêmio intelectual. Amantes Eternos (título original Only Lovers Left Alive) apresenta Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), amantes milenares que atravessam séculos não pela fome de sangue, mas pela fome de arte, música, literatura. O sangue aqui é consumido como vinho fino, em copos de cristal, enquanto discutem Byron e Nikola Tesla.
O pacing lânguido de Jarmusch espelha a própria imortalidade — sem urgência, apenas contemplação. O que o filme entende profundamente é que viver para sempre é exaustivo. Ver civilizações nascerem e colapsarem, ver a humanidade repetir erros, preservar a beleza enquanto o mundo exterior se deteriora. É um dos retratos mais maduros e melancólicos do cinema de vampiros, onde o horror não é o monstro, mas a solidão de sobreviver a tudo que se ama. A fotografia de Yorick Le Saux transforma Detroit e Tânger em cidades-fantasma poéticas.
Garota Sombria Caminha pela Noite (2014): O vampiro como observador solitário no Irã
Ana Lily Amirpour completou a transformação do mito em algo minimalista e radical. Garota Sombria Caminha pela Noite (título original A Girl Walks Home Alone at Night) se passa em Bad City, uma cidade fantasma iraniana, em preto e branco luminoso, com trilha sonora de indie rock iraniano e western spaghetti. A protagonista — creditada apenas como “A Garota” — usa véu negro, anda de skate e punhe crueldade masculina com caninos silenciosos.
Amirpour usa o vampirismo como metáfora de alienação de gênero e poder, sem nunca sermonear. O filme é hipnótico, silencioso, romântico sem ser piegas. Prova que o cinema de vampiros não precisa de castelos ou efeitos especiais — apenas atmosfera, restrição e um pulso que se recusa a parar. É a prova final de que, cem anos depois de Lugosi, o vampiro ainda tem fôlego para reinvenção. A cena onde ela dança sozinha com o véu ao som de “Death” é icônica e seria impossível em qualquer outro subgênero.
Por que esses filmes resistem ao tempo
O que une estas dez obras — além do sangue — é a recusa em tratar o vampiro como mero antagonista. Cada diretor usou o mito para explorar fronteiras: da sexualidade reprimida ao cansaço existencial, da doença física à decadência cultural. O cinema de vampiros sobrevive porque o vampiro é o monstro mais humano de todos: ele escolhe, deseja, lembra, sofre.
Se você é do time que prefere o gótico clássico, Drácula de Browning e Drácula de Bram Stoker de Coppola oferecem arcos distintos do mesmo arquétipo. Se curte horror psicológico, Vampyr e Let the Right One In são essenciais. Para quem busca metáfora social, Garota Sombria e Cronos entregam camadas ocultas. E se a imortalidade cansada ressoa com você, Amantes Eternos é quase terapia.
Cem anos de cinema provam uma coisa: enquanto houver medo de morrer e desejo de transcendência, haverá vampiros nas telas. A questão não é se o mito continuará — é qual ansiedade coletiva ele refletirá na próxima década. Qual desses filmes capturou seu vampiro ideal? Ou você discorda da lista e defenderia outro título nesse panteão sangrento?
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Perguntas Frequentes sobre Cinema de Vampiros
Qual é o melhor filme de vampiro para quem está começando a explorar o gênero?
Depende do seu gosto. Para gótico clássico, comece com Drácula (1931) de Tod Browning. Para horror moderno e emocional, Let the Right One In (2008) é perfeito — tem terror, mas também profundidade dramática. Evite começar por Vampyr (1932) se não tem paciência com cinema experimental silencioso.
Drácula (1931) ou Drácula de Bram Stoker (1992): qual assistir primeiro?
Assista o de 1931 primeiro para entender as convenções do gênero e a criação do arquétipo por Bela Lugosi. Depois, o de Coppola (1992) funciona como uma subversão consciente dessas mesmas convenções, adicionando camadas de erotismo e maximalismo visual que só fazem sentido se você conhece o original.
Por que os filmes de vampiros são tão populares há mais de 100 anos?
Porque o vampiro é o monstro mais humano e adaptável. Ele pode representar sexualidade reprimida (anos 30), violência física (anos 50), doença (anos 90) ou alienação contemporânea. Diferente do zumbi (puro instinto) ou do lobisomem (irracionalidade), o vampiro escolhe, deseja e sofre — o que permite infinitas reinterpretações psicológicas.
Existe algum filme de vampiro brasileiro importante no cinema?
Sim, embora menos conhecido internacionalmente. As Sete Vampiras (1986), de Ivan Cardoso, é uma curiosidade do cinema marginal brasileiro, misturando horror e comédia. Mais recentemente, O Vampiro da Cinemateca (documentário sobre a restauração de filmes) e curtas como A Garra (2018) exploram o mito em contexto brasileiro, embora não tenham o alcance dos clássicos internacionais listados.
Let the Right One In tem uma versão americana? Qual é melhor?
Sim, Let Me In (2010), dirigido por Matt Reeves, é o remake americano. Embora seja respeitável e bem dirigido, a versão sueca original (2008) é superior por manter a ambiguidade moral e a frieza emocional que definem a relação entre os personagens. O remake americaniza excessivamente o final, perdendo a complexidade ética do original.

