‘Investigando Lucy Letby’ lidera o top 10 mundial da Netflix, mas divide espectadores pelo uso massivo de IA para ocultar rostos de entrevistados. Analisamos se o documentário sobre a controversa condenação da enfermeira britânica vale seus 92 minutos — e por que a tecnologia pode estar estragando a história que tenta contar.
Existe um limite entre proteger fontes e transformar um documentário em simulação digital. ‘Investigando Lucy Letby’ cruza esse limite com frequência suficiente para gerar desconforto real: a determinado momento, você questiona se está assistindo a um caso criminal documentado ou a uma reconstrução algorítmica. Lançado em 4 de fevereiro, o filme já domina o topo do ranking mundial da Netflix — posição que mantém à frente de produções como ‘Unfamiliar’ e a nova temporada de ‘O Poder e a Lei’. O sucesso de audiência é inegável, impulsionado por um caso que divide o Reino Unido desde 2018. A qualidade da experiência, porém, depende de quanto ruído digital seu cérebro consegue filtrar.
Lucy Letby, enfermeira neonatal do Hospital Countess of Chester, foi condenada em agosto de 2023 por assassinar sete recém-nascidos e tentar matar outros sete durante seus turnos na UTI entre 2015 e 2016. É um dos processos mais controversos da justiça britânica recente — e aqui está o primeiro problema do documentário: ele trata a condenação como ponto final, quando na realidade é um capítulo em aberto. Grupos de médicos e estatísticos eminentes, incluindo o professor neonatalogista Dr. Shoo Lee e o estatístico Sir David Spiegelhalter, publicaram análises questionando a metodologia estatística usada pela acusação. O documentário menciona essas dúvidas, mas hesita em dar peso proporcional a uma controvérsia que pode redefinir o caso.
A máscara digital e o vale da estranheza
A técnica de anonimização por IA não é inédita, mas raramente foi aplicada com esta insistência. Testemunhos de colegas, investigadores e familiares aparecem com rostos não borrados por pixels tradicionais, mas por reconstruções faciais geradas algoritmicamente. O resultado é um efeito “uncanny valley” palpável: você observa uma boca se movendo sincronizada à fala, mas os olhos focam no vazio, e microexpressões faciais não correspondem à cadência emocional da voz.
Por volta dos 34 minutos, uma ex-colega de Letby descreve o clima de pânico na UTI enquanto seu rosto “sintético” tenta simular preocupação. A dissonância é estranha. Você quer acreditar no testemunho, mas sua atenção fica presa na textura plástica da pele digital, nas sombras que não batem com a iluminação ambiente. A Netflix argumenta que protege identidades em um caso de alta visibilidade onde o apelo judicial continua (Letby mantém inocência e busca revisão do processo). Mas há formas de anonimato que não quebram o pacto documental. ‘O Ato de Matar’ de Joshua Oppenheimer usou maquiagem e figurino para dramatizar sem distrair. ‘Citizenfour’ filmou Snowden nas sombras. Aqui, a escolha pela IA parece solução de baixo custo, não decisão estética.
Curiosamente, isso cria uma metáfora acidental: assim como Letby foi acusada de ocultar sua natureza sob um uniforme de cuidado, o documentário oculta suas fontes sob máscaras digitais. A diferença é que, no caso da enfermeira, a evidência era circunstancial. No caso do filme, a distorção é intencional e visível.
A arquitetura do suspense e o problema das evidências
Ignorando as distrações tecnológicas, a construção narrativa merece crédito. O diretor Ben Steele não cede ao sensacionalismo barato — não há recriações dramatizadas dos crimes, nem fotos chocantes dos bebês (escolha ética correta e rara no gênero). O filme se concentra na investigação: como os padrões de mortalidade na UTI alertaram médicos consultores, como os registros de plantão de Letby coincidiam com colapsos dos neonatos, e como o NHS (sistema de saúde britânico) hesitou em acusar uma profissional tida como “dedicada”.
Há um momento particularmente eficaz quando o documentário exibe, lado a lado, calendários de trabalho de Letby e logs de emergência da UTI. A correlação é visual, silenciosa, e mais perturbadora que qualquer trilha sonora de suspense. É aqui que o filme prova que não precisava de artifícios digitais: os documentos falam. A edição cria tensão apenas através de prontuários hospitalares, mensagens de texto da acusada (incluindo a busca por “como sobreviver à culpa” em seu computador pessoal) e gravações de interrogatórios policiais.
O problema é quando o filme tenta ser equilibrado demais. Ele menciona que especialistas questionam falhas metodológicas na contagem estatística de mortes e levanta a possibilidade de contaminações cruzadas na UTI (bactérias como Klebsiella pneumoniae, posteriormente encontradas no hospital, que poderiam explicar as mortes). Mas trata essas questões como nota de rodapé, quando na verdade são centrais para a controvérsia que mantém o caso vivo na opinião pública britânica. A condenação por unanimidade por três júris diferentes é destacada; o fato de eminentes cientistas britânicos terem assinado petições questionando a evidência estatística é minimizado.
True crime em tempos de algoritmos
O sucesso estrondoso — #1 não apenas no Reino Unido, mas nos EUA, Canadá e Europa — reflete uma mudança de época. Lançado contra blockbusters de ação, um documentário sobre uma enfermeira serial killer em Chester superou produções com orçamentos milionários. O público migrou do entretenimento escapista para o confronto com realidades perturbadoras, desde que bem contadas.
Mas a escolha pela IA também reflete nosso momento: uma era onde a tecnologia promete soluções éticas rápidas. Só que o resultado demonstra os limites. Quando o rosto de uma pessoa real é substituído por uma média computacional de traços humanos, perdemos a singularidade do testemunho. Perdemos as rugas de preocupação, o brilho específico de um olho, o tic nervoso. Perdemos a humanidade que faz o true crime valer a pena: a conexão com outro ser humano que vivenciou o inimaginável.
Veredito: vale o investimento de 92 minutos?
Sim, com ressalvas significativas. ‘Investigando Lucy Letby’ é um documentário competente sobre um caso fascinante e juridicamente ativo. Ele informa sem sensacionalizar e mantém ritmo mesmo ao mergulhar em detalhes processuais densos. Mas é impossível não sair frustrado com as máscaras digitais. Não é exagero dizer que, em segmentos cruciais, a IA estraga mais do que protege.
Se você curte true crime cerebral — do tipo que deixa você discutindo evidências estatísticas por dias — este é um dos lançamentos mais relevantes recentes da Netflix. Mas se distrações visuais quebram sua imersão, prepare-se para pausar em alguns trechos. O caso Lucy Letby merece atenção não apenas pelo horror, mas pela dúvida razoável que cerca sua condenação. Só não espere que as entrevistas sintéticas transmitam a carga emocional dos documentos reais que piscam na tela.
Assisti sozinho, à noite, e confesso que o silêncio do apartamento pareceu mais denso nos minutos finais — não pelos rostos artificiais, mas pelos prontuários hospitalares, pelos horários de plantão, pelaquela busca no Google sobre culpa. O horror está nos detalhes reais. E esses, felizmente, nenhuma IA conseguiu (ainda) sintetizar.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Investigando Lucy Letby’
Onde assistir ‘Investigando Lucy Letby’?
O documentário está disponível exclusivamente na Netflix desde 4 de fevereiro de 2026. Não há previsão de estreia em outras plataformas de streaming.
Quanto tempo dura o documentário?
O filme tem 92 minutos de duração. Apesar do ritmo denso em alguns momentos processuais, mantém a atenção pela construção narrativa focada na investigação.
Lucy Letby é inocente ou culpada?
Letby foi condenada por unanimidade por três júris diferentes em 2023, mas o caso é juridicamente ativo. Eminentes estatísticos e médicos neonatologistas britânicos questionam publicamente a evidência estatística usada pela acusação, argumentando que fatores como contaminação bacteriana na UTI poderiam explicar as mortes. Ela mantém sua inocência e busca revisão do processo.
Por que o documentário usa IA nos rostos dos entrevistados?
A Netflix utilizou reconstrução facial por inteligência artificial para proteger a identidade de testemunhos em um caso de alta visibilidade onde há riscos de retaliação e processos judiciais em andamento. A técnica substitui o rosto real por uma simulação digital gerada por algoritmos, criando o efeito “uncanny valley” que divide críticos e público.
O caso Lucy Letby está encerrado?
Não. Além dos apelos judiciais em curso, há uma campanha crescente de especialistas médicos e científicos no Reino Unido pedindo revisão da evidência estatística. O caso continua sendo debatido na imprensa britânica e na comunidade científica, tornando-o um dos processos criminais mais controversos do século XXI no país.

