Brandon Sanderson na Apple TV: corrigindo o erro de ‘A Roda do Tempo’

Enquanto Brandon Sanderson foi ‘largamente ignorado’ na adaptação de ‘A Roda do Tempo’ pela Prime Video, a Apple TV o coloca como roteirista e co-showrunner de ‘Mistborn’ e ‘Stormlight Archive’. Entenda por que dar controle criativo real ao autor pode ser a diferença entre o fracasso e a redenção das adaptações de fantasia épica.

Alguns erros da indústria do entretenimento são tão evidentes em retrospecto que chegam a doer. Cancelar ‘A Roda do Tempo’ após duas temporadas na Prime Video foi, sem dúvida, um deles. Mas o verdadeiro problema não foi apenas a falta de audiência — foi a arrogância de quem achou que podia ignorar quem entendia o material melhor do que qualquer roteirista de sala de reunião. Enquanto isso, a Brandon Sanderson Apple TV representa exatamente o oposto: uma correção de rota que pode redefinir como adaptações de fantasia épica são feitas.

O fracasso de ‘A Roda do Tempo’ nunca foi sobre orçamento ou marketing. A série tinha visual impressionante, elenco comprometido, e uma base de fãs literária fiel construída ao longo de três décadas. O que não tinha — e isso se tornou fatal — era Brandon Sanderson na sala de comando. E quando digo Sanderson, não me refiro ao nome nos créditos de “produtor consultivo”, aquele que aparece para tirar fotos e assinar pôsteres. Falo do arquiteto que conhece cada tijolo do universo que está sendo filmado.

Quando “produtor consultivo” significa “decoração de cenário”

Quando

A história de como Sanderson foi tratado na Prime Video é quase um estudo de caso em como não fazer adaptações. Como co-autor dos três livros finais da série original de Robert Jordan — uma responsabilidade monumental, considerando que ele terminou a saga após a morte do criador em 2007 —, Sanderson foi convidado para participar da produção. O resultado? Ele mesmo revelou em um vídeo em seu canal oficial do YouTube (via Collider) que foi “largamente ignorado” durante todo o processo de desenvolvimento das duas primeiras temporadas.

Aqui está o detalhe que ilustra perfeitamente o absurdo: Sanderson não estava pedindo controle criativo absoluto. Ele estava tentando salvar a narrativa de decisões que sabotavam a lógica interna dos livros. A mudança mais controversa da primeira temporada — fazer com que Perrin Aybara matasse acidentalmente sua própria esposa para criar trauma instantâneo — foi justamente uma das batalhas que ele perdeu. Sanderson argumentou contra isso em reuniões. Explicou por que isso desfigurava a jornada orgânica do personagem ao longo de quatorze livros. Foi ouvido? Apenas o suficiente para constar nos créditos, dando legitimidade ao projeto sem influência real.

O resultado é que ‘A Roda do Tempo’ sofreu de uma identidade dissociativa: queria a grandiosidade de ‘Game of Thrones’ sem entender que a complexidade de Jordan (e posteriormente Sanderson) era o que sustentava essa grandiosidade. Quando a segunda temporada não conseguiu reter a base de fãs já alienada — apesar de ser tecnicamente superior à primeira — o cancelamento se tornou inevitável em 2024. O “e se” que paira sobre essa produção é simples: e se o único homem vivo que havia escrito oficialmente naquele universo tivesse sido ouvido nas decisões de sala de roteiro?

A Apple TV e a lição aprendida: autor como showrunner

Enquanto isso, a abordagem da Apple TV para o universo Cosmere de Sanderson é tão diferente que parece uma resposta direta aos erros da concorrência. A plataforma adquiriu os direitos não apenas para adaptar, mas para construir um império fantástico — com ‘Mistborn’ indo para os cinemas (com roteiro escrito pelo próprio Sanderson) e ‘The Stormlight Archive’ sendo desenvolvida para televisão com Sanderson como co-showrunner ao lado de produções como DMG Entertainment.

Parece detalhe técnico, mas não é. Ser showrunner significa decisão final em casting, aprovação de direção de episódios, arcos narrativos de longo prazo, e — crucialmente — fidelidade à mitologia. Sanderson terá mais controle sobre suas adaptações do que George R.R. Martin teve sobre ‘Game of Thrones’ (onde ele foi produtor executivo mas não showrunner nas temporadas problemáticas finais) ou J.K. Rowling teve sobre ‘Harry Potter’ (onde sua influência foi consultiva e frequentemente ignorada em favor de convenções cinematográficas).

Essa diferença de poder é tudo. O Cosmere não é uma série de livros independentes — é um universo coeso com regras mágicas rigorosas, sistemas de investidura que funcionam como física alternativa, e conexões secretas entre planetas que só fazem sentido se você entende a arquitetura completa construída ao longo de 25 anos de publicação. Sanderson não é apenas o autor; ele é o cartógrafo de um universo que já dura mais de duas décadas. Deixá-lo fora das decisões criativas seria como tentar construir um relógio suíço sem o relojoeiro que projetou os engrenagens.

Precedentes que inspiram confiança

Precedentes que inspiram confiança

A escolha da Apple TV não é aleatória. A plataforma já demonstrou compreender o valor do material literário em adaptações como ‘Silo’ e ‘Fundação’ — obras que exigiam respeito à complexidade original para funcionar. ‘Silo’, em particular, mostrou que a Apple entende que fãs de ficção científica e fantasia não querem simplificação condescendente; querem tradução fiel de ideias complexas para a linguagem visual sem perder a densidade temática.

Com Sanderson escrevendo o roteiro de ‘Mistborn’ (um filme que precisa condensar um sistema mágico baseado em metais — alomancia — e uma revolução política em duas horas sem perder a essência), e supervisionando a série de ‘The Stormlight Archive’ (dez livros planejados, cada um com mil páginas de worldbuilding denso e sistemas de magia baseados na pressão atmosférica), a Apple está essencialmente dizendo: “Nós não sabemos mais que o criador”. É uma humildade rara em Hollywood, onde normalmente executivos acham que entendem de história melhor que os autores.

O que está em jogo

A diferença entre as duas abordagens — Prime Video vs. Apple TV — vai determinar se vamos ter uma adaptação que enriquece a obra original ou mais uma que serve como advertência em futuros estudos de caso. Sanderson não é um autor qualquer; é um construtor de sistemas que rivalizam com Tolkien em completude, mas com uma modernidade narrativa que permite ação e profundidade filosófica simultâneas. Seus livros vendem milhões, mas mais importante: eles possuem lógica interna tão rigorosa que fãs criam wikis extensos apenas para documentar as regras.

Se ‘Mistborn’ e ‘The Stormlight Archive’ funcionarem (e tudo indica que a Apple está investindo o capital necessário para isso, com orçamentos comparáveis a ‘Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder’), estabelecerão um novo padrão de ouro: o autor como guardião do templo, não mero consultor decorativo. E para fãs que viram ‘A Roda do Tempo’ ser dilacerada por quem não entendia por que certas histórias funcionam — destruindo a paciência de uma base leal que poderia ter sustentado uma série de oito temporadas —, isso não é apenas uma segunda chance para Sanderson. É uma redenção para todo um gênero que tem sido maltratado por adaptações descuidadas.

D desta vez, alguém finalmente entregou a caneta certa para quem sabe desenhar o mapa.

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Perguntas Frequentes sobre Brandon Sanderson na Apple TV

Quando estreia ‘Mistborn’ nos cinemas?

Ainda não há data oficial de estreia para o filme de ‘Mistborn’. O projeto está em desenvolvimento ativo desde 2022, com Brandon Sanderson confirmado como roteirista. Estima-se que a produção possa chegar aos cinemas entre 2026 e 2027, dependendo do cronograma de filmagens.

O que significa ser co-showrunner?

Ser co-showrunner significa ter decisão final sobre aspectos criativos da série, incluindo aprovação de roteiros, escolha de diretores, arcos narrativos de longo prazo e fidelidade à mitologia original. Diferente de “produtor consultivo”, o showrunner está envolvido diariamente nas decisões de produção.

Por que ‘A Roda do Tempo’ foi cancelado?

A série foi cancelada pela Prime Video em 2024 após duas temporadas devido à queda de audiência e rejeição dos fãs originais. O descontentamento da base leal — especialmente com mudanças narrativas que contradiziam a lógica dos livros — impediu que a série construísse o público necessário para justificar o alto orçamento.

O que é o Cosmere de Brandon Sanderson?

O Cosmere é o universo ficcional compartilhado onde se passam a maioria dos livros de Sanderson, incluindo ‘Mistborn’ e ‘The Stormlight Archive’. Embora cada série ocorra em planetas diferentes com sistemas mágicos únicos (como alomancia em ‘Mistborn’ ou surgebinding em ‘Stormlight’), todos estão conectados por uma mitologia subjacente e personagens que viajam entre mundos.

Brandon Sanderson escreveu todos os livros de ‘A Roda do Tempo’?

Não. Robert Jordan escreveu os onze primeiros livros da série antes de falecer em 2007. Brandon Sanderson foi escolhido pela viúva de Jordan para completar a saga, escrevendo os três volumes finais (‘The Gathering Storm’, ‘Towers of Midnight’ e ‘A Memory of Light’) baseado nas notas e cenas deixadas pelo criador original.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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