‘Os Infiltrados’: 20 anos após o Oscar, clássico domina o streaming

Vinte anos após conquistar o único Oscar de Melhor Diretor de Scorsese, ‘Os Infiltrados’ domina o streaming em 2026. Analisamos por que o thriller resiste ao tempo: da montagem visceral de Thelma Schoonmaker aos X subliminares que prenunciam cada morte, passando por atuações que nenhum estúdio atual consegue reunir.

Em fevereiro de 2026, enquanto blockbusters recém-lançados disputam atenção fragmentada nas plataformas, um thriller de quase duas décadas de idade está dando um show de audiência que desafia todas as métricas de “relevância algorítmica”. ‘Os Infiltrados’ se tornou um fenômeno inexplicável à primeira vista: o filme de Martin Scorsese ocupa a quarta posição global na Max (antiga HBO Max), superando estreias como ‘A Morte de um Unicórnio’ e ‘Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado’ no ranking de visualizações. No Brasil, Colômbia, México e Venezuela, ele está firmemente no top 10 — uma resistência rara em tempos de conteúdo descartável.

O que explica que ‘Os Infiltrados’ (2006), remake do hongkonguês ‘Infernal Affairs’ (2002), continue cortando o algoritmo tão facilmente vinte anos após ter arrecadado US$ 291 milhões nos cinemas e conquistado o Oscar de Melhor Filme? A resposta não está apenas na nostalgia ou no star power de Leonardo DiCaprio. Estamos falando do único filme que deu a Scorsese a estatueta de Melhor Diretor — uma vitória que, duas décadas depois, parece mais justificada do que nunca quando você reassiste à obra na tela de casa, onde detalhes que passavam despercebidos no cinema se revelam essenciais.

Como ‘Os Infiltrados’ derrota algoritmos 20 anos depois

Como 'Os Infiltrados' derrota algoritmos 20 anos depois

A dominância de ‘Os Infiltrados’ nas paradas latino-americanas diz algo sobre nossa relação com o gênero policial. Enquanto nos EUA o filme migrou entre plataformas (atualmente no Max e disponível para aluguel digital), aqui ele lidera audiência em 18 países diferentes. Isso não é acidente: a história de Billy Costigan (DiCaprio), policial infiltrado na máfia irlandesa de Boston, e Colin Sullivan (Matt Damon), detetive que na verdade trabalha para o chefão Frank Costello (Jack Nicholson), toca em nervos específicos de sociedades que conhecem bem a corrupção institucional e a performance de dupla identidade.

Reassisti ‘Os Infiltrados’ na semana passada, desta vez em uma tela menor, e fiquei impressionado como o filme ganha intensidade justamente quando você pode pausar e respirar entre as cenas. A sequência do elevador — aquela — ainda funciona como um soco no estômago, mas são os momentos anteriores, aqueles em que Costigan está a um passo de ser desmascarado, que você percebe como DiCaprio constrói uma ansiedade quase insuportável apenas com a respiração e o movimento dos olhos. É atuação de método sem ser ostensiva, algo raro no cinema pós-2010.

O fim da era analógica do crime: por que a ‘sujeira’ visual importa

Se ‘Os Bons Companheiros’ (1990) é a obra-prima definitiva de Scorsese sobre o crime organizado, ‘Os Infiltrados’ representa o fim de uma era: é o último grande thriller de gângster feito com a lógica do cinema pré-streaming, onde cada cena existe porque precisa existir, não porque o algoritmo exige um cliffhanger a cada sete minutos. A montagem de Thelma Schoonmaker — que ganhou o Oscar aqui, uma de suas quatro estatuetas — é um masterclass de ritmo: ela corta rápido quando a tensão exige, mas sabe quando segurar o plano, como na cena icônica onde Costello confronta Costigan no bar, com a câmera fixa enquanto Nicholson improvisa uma ameaça que soa genuinamente imprevisível.

E aqui entra um detalhe técnico que só quem assiste com atenção nota: Scorsese e o diretor de fotografia Michael Ballhaus usam uma paleta de cores deliberadamente “suja” — tons de verde enferrujado, marrom de cerveja velha, o cinza de inverno de Boston — que contrasta violentamente com a estética limpa e digital dos thrillers atuais. ‘Os Infiltrados’ parece ter cheiro: de cerveja derramada, de couro envelhecido, de pólvora. É cinema tátil em uma época de imagens sanitizadas.

Um detalhe subliminar que a compressão digital dos streamings modernos quase destruiu: os X escondidos. Scorsese e Ballhaus inseriram o símbolo de forma subliminar antes de cada morte importante — em luminárias, em sombras, em arranhões de tinta. Na tela grande de 2006, esses X eram quase subconscientes; em uma TV 4K de 2026, com pause e rewind disponíveis, tornam-se um jogo de caça ao tesouro macabro que reforça a inevitabilidade trágica do roteiro.

O triângulo de atuações que não se repete

O triângulo de atuações que não se repete

Nenhum estúdio em 2026 consegue reunir um elenco como este. DiCaprio está no auge de sua fase “adulto angustiado”, pós-‘O Aviador’ e pre-‘O Regresso’, trazendo para Costigan uma vulnerabilidade física que você sente na própria pele. Ele não é o herói invencível; é um cara quebrado, tomando remédios controlados e terapia, a ponto de desenvolver um relacionamento com a psiquiatra Madolyn (Vera Farmiga) — personagem que não existe no original hongkonguês e que William Monahan adicionou na adaptação para dar camadas extras de culpa e desejo.

Matt Damon, por outro lado, entrega algo que poucos notaram na época: uma performance de antagonista disfarçada de protagonista. Sullivan não é apenas corrupto; ele é o arquétipo do homem branco privilegiado que acredita merecer tudo o que tem, inclusive a proteção do crime organizado. A cena onde ele senta na cadeira de couro da polícia estadual, ajeitando o terno, enquanto Costigan está em um beco sujo, resume a desigualdade americana melhor do que muitos filmes “sérios” sobre o tema.

Mas é Jack Nicholson que rouba cada cena em que aparece. Como Frank Costello, ele não interpreta um gângster; ele interpreta o caos puro. Nicholson entendeu que Costello não precisa ser realista; precisa ser mitológico, uma força da natureza que justifica a paranoia de todos ao redor. A cena da loja de conveniência, onde ele explica sua filosofia de vida para Costigan enquanto segura um saco de sacolas, é aula de como criar personagem sem explicar nada — apenas mostrando.

A ansiedade de 2026: por que o filme ressona agora

‘Os Infiltrados’ ganhou quatro Oscars (Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Edição), mas perdeu nas categorias de atuação — exceto pela indicação de Mark Wahlberg como Coadjuvante, que na verdade deveria ter vindo para Nicholson. DiCaprio, ironicamente, não foi indicado aqui, apesar de entregar uma das melhores performances de sua carreira. Talvez a Academia ainda o visse como o ídolo teen de ‘Titanic’, não como o ator sério que ele se tornou nas mãos de Scorsese.

Mas vinte anos depois, o filme ressoa de forma diferente. Vivemos em uma época onde todos performam identidades múltiplas online, onde a linha entre policial e bandido se dissolveu em discursos políticos, onde a corrupção sistêmica é tão óbvia quanto inescapável. ‘Os Infiltrados’ não é sobre o crime de Boston; é sobre a impossibilidade de integridade em sistemas podres. Costigan e Sullivan são dois lados da mesma moeda destruída: um tentando ser bom num mundo ruim, outro aceitando que é ruim num mundo que o recompensa por isso.

A adaptação de Monahan a partir de ‘Infernal Affairs’ foi inteligente justamente ao americanizar a tragédia. O original hongkonguês é mais elegante, mais budista na sua aceitação do destino. Scorsese fez algo mais sujo, mais católico — no sentido de culpa, redenção e punição violenta. O final do filme, com aquele tiro e aquela cena no corredor (você sabe qual), permanece um dos mais devastadores do cinema mainstream porque nega ao espectador a satisfação da justiça limpa. Em 2026, isso parece honesto. Blockbusters atuais prometem redenção fácil; ‘Os Infiltrados’ entrega a verdadeira consequência de viver mentiras.

Vale o clique no streaming?

Se você está buscando ‘Os Infiltrados’ na Max e encontrou este texto para confirmar se vale o tempo: sim, vale mais do que qualquer estreia da semana. Não porque seja “um clássico do cinema” no sentido museológico, mas porque é um filme que exige atenção e recompensa com densidade emocional que três temporadas de séries policiais atuais não conseguem acumular.

É um filme para quem gosta de ver atores trabalhando no limite de suas capacidades. Para quem aprecia roteiro onde cada diálogo serve para revelar caráter, não apenas para explicar a trama. Para quem suporta a tensão de não saber quem vai sobreviver até o último minuto. E especialmente para quem, vivendo em 2026, sente que as instituições faliram e a identidade é performance — temas que ‘Os Infiltrados’ explorou com precisão cirúrgica duas décadas antes deles virarem discussão de rede social.

Scorsese nunca fez outro filme como este — nem antes, nem depois. ‘Cassino’ é mais épico, ‘Os Bons Companheiros’ é mais perfeito, ‘O Irlandês’ é mais reflexivo. Mas ‘Os Infiltrados’ é o mais urgente, o mais visceral, o que melhor captura a sensação de viver sob vigilância constante. Reassista. Preste atenção nos detalhes — nos X’s que aparecem subliminarmente antes de cada morte, nas cores que mudam conforme a sanidade dos personagens, no som de Boston que Scorsese constrói com Dropkick Murphys e diálogos que soam como música.

Vinte anos depois, ele não envelheceu. A indústria do streaming é que parece ter regredido.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘Os Infiltrados’

Onde assistir ‘Os Infiltrados’ em 2026?

No Brasil, ‘Os Infiltrados’ está disponível na Max (antiga HBO Max) desde 2024, quando a plataforma recuperou os direitos de streaming exclusivo para a América Latina. Nos EUA, o filme migra entre serviços periodicamente, atualmente disponível no Max e para aluguel digital.

‘Os Infiltrados’ é baseado em história real?

Não. O filme é um remake americano de ‘Infernal Affairs’ (2002), thriller hongkonguês dirigido por Andrew Lau e Alan Mak. Embora Boston tenha histórico real de corrupção policial e gangues irlandeses (inspirando personagens como o verdadeiro Whitey Bulger, referência para Frank Costello), a trama específica é ficção.

Por que ‘Os Infiltrados’ está no top do streaming agora?

O fenômeno se explica pela resistência algorítmica de obras de qualidade em momentos de escassez de conteúdo forte, pela nostalgia dos 20 anos do Oscar (2026), e pela relevância temática: o filme sobre identidade performática e corrupção sistêmica ressoa fortemente em 2026. Além disso, a Warner Bros. intensificou a promoção do catálogo Scorsese na Max.

Quantos Oscars ‘Os Infiltrados’ ganhou?

Quatro: Melhor Filme, Melhor Diretor (o único de Scorsese nesta categoria até hoje), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição. Foi indicado em outras duas categorias: Melhor Ator Coadjuvante (Mark Wahlberg) e Melhor Montagem de Som.

Preciso ver ‘Infernal Affairs’ antes?

Não. São obras independentes com filosofias distintas. ‘Infernal Affairs’ é mais elegante e budista na aceitação do destino; ‘Os Infiltrados’ é mais sujo, católico e violento. Se assistir ambos, recomenda-se começar por ‘Os Infiltrados’ para não comparar negativamente o ritmo mais lento do remake.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também