As pontes inesperadas entre o DCU de Gunn e o Snyderverso em ‘Supergirl’

Com Junkie XL na trilha e Jason Momoa como Lobo, ‘Supergirl’ revela pontes inesperadas entre o DCU de Gunn e o Snyderverso. Analisamos como o novo universo herda elementos visuais e sonoros da era Snyder sem repetir seus erros narrativos.

Existe uma ironia deliciosa no fato de Supergirl DCU Snyderverso ter se tornado uma busca recorrente nos últimos meses. Quando James Gunn anunciou seu novo universo DC, a promessa era de um corte limpo — uma pá de cal definitiva sobre os escombros do que restou após ‘Aquaman 2: O Reino Perdido’. O Snyderverso, nascido em 2013 com ‘O Homem de Aço’ e consumido pelo fogo da reestruturação da Warner, parecia enterrado. Mas aqui estamos, em 2026, observando as primeiras imagens de ‘Supergirl’ e percebendo que as pontes entre o passado e o futuro são mais sólidas do que o discurso corporativo sugeria.

A verdade é que o novo DCU está sendo construído com material de demolição do castelo de Zack Snyder. E não estou falando de easter eggs para fãs. Estou falando de colaboradores criativos centrais que definiram a identidade sensorial do Snyderverso e agora migraram para o campo de Gunn. Se isso é pragmatismo inteligente ou admissão tácita de que algumas fórmulas funcionam, é o que precisamos examinar.

Junkie XL e a identidade sonora que o Snyderverso não conseguiu abandonar

Junkie XL e a identidade sonora que o Snyderverso não conseguiu abandonar

Tom Holkenborg, conhecido como Junkie XL, não é apenas um compositor que trabalhou com Zack Snyder. Ele é, em muitos aspectos, o arquiteto sonoro do que o Snyderverso se tornou em sua forma mais pura. Quando ouvimos aquele motif de piano desafinado e bateria eletrônica pulsante em ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’, estávamos ouvindo uma declaração de intenções: este não era o Superman de John Williams, nem o Batman de Danny Elfman. Era algo mais pesado, mais industrial, mais angustiado.

A escolha de Junkie XL para a trilha de ‘Supergirl’ é, portanto, mais significativa do que uma simples contratação de talento. É uma continuidade de linguagem. Eu me lembro da experiência física de assistir ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’ em 2021 e notar como a música de Holkenborg funcionava como personagem — especialmente naquela sequência final de Flash, onde a trilha parece desacelerar e acelerar junto com o próprio tempo, criando uma dissonância que soa como o universo se rasgando. A substituição da trilha de Danny Elfman na versão teatral de 2017 por Holkenborg no Snyder Cut não foi apenas uma melhoria; foi uma correção de identidade.

Agora, Gunn traz esse mesmo compositor para ‘Supergirl’. A pergunta que fica: estamos ouvindo o início de um DCU que absorveu a estética do Snyderverso, ou Junkie XL é simplesmente um profissional versátil o suficiente para mudar de registro? Minha aposta é que estamos diante de uma hibridização. O tom mais leve e colorido que Gunn prometeu para seu universo — visível já em ‘Superman’ (2025) — pode precisar da gravidade orquestral de Holkenborg para dar peso emocional aos momentos de crise de Kara Zor-El, especialmente considerando que Craig Gillespie (diretor de ‘Eu, Tonya’ e ‘Cruella’) tende a usar música como extensão psicológica dos personagens.

De Aquaman a Lobo: A metamorfose de Jason Momoa e o ciclo do blockbuster

Se Junkie XL representa a continuidade sonora, Jason Momoa representa algo ainda mais complexo: a continuidade corpórea. Momoa foi o último ator a encerrar sua jornada no Snyderverso, com ‘Aquaman 2’ funcionando como um epílogo tardio de uma era que já havia terminado em 2021. Ver Momoa retornar ao DCU não como Arthur Curry, mas como Lobo, é um tipo de transmutação que só o cinema de super-heróis permite.

Mas aqui está o insight que poucos estão discutindo: Momoa como Lobo não é apenas um “novo começo”. É uma confissão de que o DCU precisa do carisma físico e da presença de palco que Momoa desenvolveu durante sete anos como Aquaman. Lobo é um personagem que, nas HQs de Keith Giffen, existe em um registro próximo ao que Momoa já fazia naturalmente — um anti-herói brutal, sarcástico, com um código moral próprio que exclui o assassinato de inocentes. A diferença é que agora ele não precisa carregar a responsabilidade de ser um membro fundador da Liga. Ele pode ser o elemento caótico, o wildcard que entra em cena sem a carga dramática de um rei.

Essa reciclagem de talento Snyderverso no DCU revela uma verdade inconveniente sobre a indústria: não existem atores suficientes com a química de Momoa para blockbuster, e Gunn sabe disso. Mais do que isso, sugere que o que funcionava no Snyderverso — a escala épica, a mitologia operática, a física dos confrontos — não era o problema. O problema era a execução narrativa fragmentada e a falta de esperança sistêmica. Gunn está, essencialmente, fazendo o que os fãs pediam há anos: mantendo o que funcionava (os atores, os compositores, a estética visual) enquanto descarta o que não funcionava (a obsessão por deuses angustiados, a edição descontinuada).

Por que ‘Supergirl’ é o filme da reconciliação entre Gunn e Snyder

Por que 'Supergirl' é o filme da reconciliação entre Gunn e Snyder

‘Supergirl’, estrelada por Milly Alcock e dirigida por Craig Gillespie, está posicionada para ser um divisor de águas. Não apenas porque é o segundo grande lançamento do DCU após o reboot, mas porque sua ficha técnica sugere uma fusão de filosofias. Temos o DNA sonoro do Snyderverso (Junkie XL), um ícone do Snyderverso reinventado (Momoa), mas sob a égide de Gunn, que vem do universo Marvel/Guardiões da Galáxia e promete algo mais “espaçoso” e colorido.

Eu assisti ‘O Homem de Aço’ no cinema em 2013 e lembro da sensação de estar vendo algo novo — um Superman que lutava contra a própria natureza divina. Depois, vi essa visão se tornar um fardo, especialmente em ‘Batman vs Superman’, onde a seriedade tornou-se opressiva. O que ‘Supergirl’ parece prometer é um meio-termo: a grandiosidade visual e musical que Snyder cultivou, mas com a acessibilidade emocional que Gunn domina. Kara Zor-El, por natureza do personagem, permite isso — ela é mais jovem que Kal-El, mais impetuosa, menos marcada pelo trauma da destruição de Krypton (ou pelo menos, marcada de forma diferente).

A presença de Junkie XL é particularmente promissora aqui. Se ele conseguir criar uma trilha que honre a mitologia kryptoniana sem cair no luto excessivo de ‘O Homem de Aço’, teremos algo especial. E Momoa como Lobo, inserido em um filme sobre uma heroína jovem, sugere que o DCU finalmente entendeu como usar esses personagens cósmicos sem precisar construir 15 filmes de introdução antes.

A ponte é mais larga do que parece

A busca por Supergirl DCU Snyderverso não é sobre nostalgia. É sobre reconhecimento de que o cinema de super-heróis, apesar de seus reinícios e reboots, é um continuum criativo. James Gunn não está “salvando” a DC do Snyderverso; ele está herdando partes valiosas dele, como um bom construtor reaproveita vigas de qualidade em uma nova fundação.

O que isso significa para nós, espectadores? Significa que podemos parar de escolher lados entre “Snyderverso” e “DCU de Gunn”. ‘Supergirl’, com sua data de lançamento marcada para 26 de junho de 2026, parece destinada a ser o filme que prova que o melhor do passado pode coexistir com as promessas do futuro. Se Junkie XL conseguir criar um tema para Supergirl tão icônico quanto o “Beautiful Lie” de ‘Batman vs Superman’, e se Momoa conseguir fazer de Lobo um personagem que rouba cenas sem desestabilizar o arco de Kara, teremos a prova definitiva de que Gunn entendeu a lição que a Marvel demorou anos para aprender: evolução é melhor que revolução.

Minha recomendação? Se você apreciava a escala épica do Snyderverso mas cansou da angústia constante, este é seu filme. Se você temia que Gunn transformasse tudo em comédia descompromissada, a presença de Holkenborg e Momoa deve acalmar seus receios. Preste atenção não apenas nas cores vibrantes que Gunn prometeu, mas na textura — na forma como a câmera se move, no peso das pancadas, na arquitetura sonora. É lá que você encontrará as verdadeiras pontes entre dois universos que, afinal de contas, sempre foram parte do mesmo sonho cinematográfico.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘Supergirl’ e o Snyderverso

Jason Momoa é Aquaman ou Lobo em ‘Supergirl’?

Em ‘Supergirl’, Jason Momoa interpreta Lobo, não Aquaman. Apesar de ter sido o protagonista de ‘Aquaman’ (2018) e ‘Aquaman 2’ (2023) no Snyderverso, Momoa foi recastado como o caçador de recompensas cósmico no novo DCU de James Gunn.

Quem compõe a trilha sonora de ‘Supergirl’ no DCU?

A trilha sonora de ‘Supergirl’ é composta por Tom Holkenborg, conhecido como Junkie XL. Ele é o mesmo compositor de ‘O Homem de Aço’, ‘Batman vs Superman’ e ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’, mantendo a continuidade sonora entre o Snyderverso e o novo DCU.

‘Supergirl’ tem conexão direta com o Snyderverso?

Não há conexão narrativa direta — ‘Supergirl’ reinicia a personagem com Milly Alcock no papel. No entanto, o filme mantém pontes criativas através de Junkie XL (trilha sonora) e Jason Momoa (agora como Lobo), herdando a estética épica e sensorial da era Snyder.

Quando estreia ‘Supergirl’ nos cinemas?

‘Supergirl’ tem estreia marcada para 26 de junho de 2026. O filme é dirigido por Craig Gillespie (‘Cruella’, ‘Eu, Tonya’) e será o segundo lançamento do novo DCU de James Gunn, após ‘Superman’ (2025).

O que é o Snyderverso?

Snyderverso é o termo usado pelos fãs para designar o universo cinematográfico DC desenvolvido por Zack Snyder, iniciado em ‘O Homem de Aço’ (2013) e encerrado oficialmente com ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’ (2021). É conhecido por seu tom sombrio, estética visual marcante e trilhas sonoras de Junkie XL.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também