De ‘Fúria Sanguinária’ a ‘Xeque-Mate’: os filmes de crime que o tempo esqueceu

Resgatamos 10 filmes de crime subestimados que resistem ao tempo, de ‘Fúria Sanguinária’ (1949) a ‘Xeque-Mate’ (2006). Análise de por que essas obras, apesar de ignoradas pelos algoritmos, são insubstituíveis para fãs do gênero.

Existe uma injustiça peculiar no universo do cinema: alguns filmes de crime envelhecem como vinho fino, mas são tratados como refrigerante vencido. Filmes de crime subestimados não são necessariamente aqueles que floparam na bilheteria ou foram massacrados pela crítica na estreia. São, muitas vezes, obras que, por razões algorítmicas ou pura negligência cultural, simplesmente escaparam da memória coletiva — mesmo carregando em seu DNA elementos que definem o gênero até hoje. Após anos revisitando estes títulos em sessões de cinema de rua e restaurações em Blu-ray, resgatei dez obras que resistem ao tempo, independentemente do que o Rotten Tomatoes possa sugerir.

‘Fúria Sanguinária’ (1949): o código genético do cinema de gangsters

'Fúria Sanguinária' (1949): o código genético do cinema de gangsters

É fácil olhar para um filme de 1949 e presumir arqueologia cultural. Erro grave. ‘Fúria Sanguinária’ não é um artefato; é o manual. James Cagney, em sua performance final como gângster, constrói Cody Jarrett não como um vilão romantizado, mas como uma força da natureza neurótica, obcecada pela mãe e instável em níveis quase shakespearianos.

A cena final — aquela no topo da torre de gás com Cagney gritando “Made it, Ma! Top of the world!” antes da explosão — não é apenas icônica; é o template para todo anti-herói autodestrutivo que viria depois, de Tony Montana a Walter White. Reassisti recentemente em uma cópia restaurada pelo Criterion Channel e fiquei surpreso com a violência implícita: o filme sugere brutalidade que a censura da época não deixava mostrar, criando uma tensão psicológica mais eficaz que muitos gores explícitos modernos. Se você acha que cinema antigo “não segura o ritmo”, tente acompanhar o assalto ao trem da abertura sem segurar a respiração — a montagem de Owen Marks usa cortes rápidos que influenciaram diretamente a ação contemporânea.

‘A Morte num Beijo’ (1955): o thriller que ensinou Tarantino a brincar com objetos

Robert Aldrich transformou um detetive particular em uma máquina de destruição cínica em ‘A Morte num Beijo’, criando o que talvez seja o noir mais cruel e inventivo dos anos 50. Ralph Meeker, como Mike Hammer, não é o detetive charmoso de Humphrey Bogart; é um brutamontes oportunista que pisa em cadáveres para chegar à verdade.

O filme opera como um relógio suíço de suspense mecânico, mas seu legado mais visível está naquela maleta que brilha em dourado no final — sim, a mesma que Quentin Tarantino homenageou em ‘Pulp Fiction: Tempo de Violência’. Assistir hoje é perceber como Aldrich quebrava regras: a trama espiraliza em conspirações atômicas e paranoia macarthista, misturando crime com sci-fi antes disso ser moda. É um filme que exige atenção, mas recompensa com imagens que ficam gravadas — especialmente aquele final apocalíptico na praia, com suas chamas reais queimando contra o céu noturno, uma escolha de produção arriscada que ainda me faz arrepiar quando penso na audácia de terminarem assim um filme de estúdio.

‘Um Peixe Chamado Wanda’ (1988): quando o crime encontra o humor macabro

'Um Peixe Chamado Wanda' (1988): quando o crime encontra o humor macabro

Fazer comédia de crime é andar em uma corda bamba: erra a dose e vira pastelão, acerta e vira clássico atemporal. ‘Um Peixe Chamado Wanda’ acerta com precisão cirúrgica. O roteiro, escrito por John Cleese, constrói um caper (termo do gênero para golpes elaborados) onde o assalto ao diamante é apenas o ponto de partida para uma série de traições inevitáveis e situações de humor negro que beiram o grotesco.

Kevin Kline, ganhador do Oscar de Coadjuvante por este papel, cria Otto como um dos maiores idiotas arrogantes da história do cinema — um americano que acha que entende de filosofia porque leu Nietzsche uma vez. A cena em que ele tenta assassinar Cleese falhando repetidamente é um masterclass de timing cómico. Mas o que torna o filme essencial hoje é como ele equilibra o absurdo com consequências reais: pessoas morrem, traições doem, e o riso vem sempre acompanhado de um nó na garganta. É um filme que prova que crime e comédia não precisam se anular — basta ter um roteiro tão apertado quanto o planejamento do assalto.

‘O Jogador’ (1992): a sátira de Hollywood que antecipou a era do “meta”

Robert Altman nunca fez filmes fáceis, e ‘O Jogador’ é provavelmente seu trabalho mais ácido — uma faca de dois gumes cortando a indústria do entretenimento enquanto conta uma história de chantagem e assassinato. Tim Robbins interpreta Griffin Mill, um executivo de estúdio que começa a receber ameaças de morte anônimas e, em meio ao pânico, acaba cometendo um crime que precisa encobrir.

O que impressiona, especialmente visto em 2026, é como Altman previu a obsessão hollywoodiana por autorreferência que explodiria décadas depois. Séries como ‘O Estúdio’, do Seth Rogen, bebem diretamente desta fonte — aquela mistura de humor insider sobre pitch meetings absurdos com thriller genuíno. Altman usa planos-sequência longuíssimos (aquela abertura de oito minutos sem corte é legendaria) para criar uma sensação de claustrofobia luxuosa. É um filme sobre crimes reais e morais, onde a violência física é quase um alívio comparada à brutalidade das reuniões de produção.

‘A Negociação’ (1998): Samuel L. Jackson em seu modo “ator de repertório”

'A Negociação' (1998): Samuel L. Jackson em seu modo

Perdido entre os blockbusters e a franquia Star Wars, ‘A Negociação’ representa Samuel L. Jackson em sua forma mais virtuosística — não como cool icon, mas como artista de intensidade controlada. Ele interpreta Danny Roman, um negociador de reféns da polícia de Chicago que é enquadrado por corrupção e, ironicamente, se vê obrigado a tomar reféns para provar sua inocência.

O filme funciona como um drama de câmara estufada, onde a tensão vem do diálogo, não da ação. Kevin Spacey, como o negociador rival que se torna aliado, forma uma química com Jackson que eletrifica as cenas de telefone — sim, cenas de gente falando ao telefone que mantêm você na ponta da cadeira graças à variação de timbre e ritmo dos atores. É um exemplo raro de thriller policial dos anos 90 que envelheceu bem porque depende de performance, não de efeitos. Recomendo especialmente para quem acha que conhece a filmografia de Jackson apenas por Jules Winnfield ou Nick Fury.

‘Um Plano Simples’ (1998): a tragédia grega escondida na neve

Sam Raimi, antes de abraçar completamente o blockbuster com ‘Homem-Aranha’, dirigiu este drama de crime que é, essencialmente, uma advertência moral em forma de filme. Bill Paxton, Billy Bob Thornton e Bridget Fonda encontram mais de quatro milhões de dólares em um avião caído na floresta de Minnesota. O que segue não é uma aventura, mas uma dissolução ética lenta e dolorosa.

Thornton, indicado ao Oscar por este papel, cria um personagem de tal vulnerabilidade e desespero que torna impossível não sentir compaixão mesmo quando ele comete atrocidades. O filme é silencioso — a neve abafa o som e amplifica a culpa — e foca nas consequências emocionais do crime de uma forma que lembra Faulkner mais do que Hitchcock. O clímax é devastador não pela violência, mas pelo peso emocional de ver como pequenas decisões egoístas levam a tragédias irrevogáveis. É um filme que fica com você por dias, não pela adrenalina, mas pela angústia existencial.

‘Violação de Conduta’ (2003): ignore o Rotten Tomatoes e confie na estrutura

'Violação de Conduta' (2003): ignore o Rotten Tomatoes e confie na estrutura

Vou ser direto: o score de 21% no Rotten Tomatoes para ‘Violação de Conduta’ é um erro coletivo de expectativas, não de qualidade. Sim, o filme reúne John Travolta e Samuel L. Jackson nove anos após ‘Pulp Fiction’, dirigidos por John McTiernan (de ‘Duro de Matar’), e não entrega o blockbuster de ação que o marketing prometeu. Mas se você aceitar que está assistindo a um thriller de estrutura ‘Rashomon’ — onde narradores não-confiáveis contam versões conflitantes de um crime militar — encontrará uma obra fascinante e reassistível.

A narrativa se desdobra como um quebra-cabeça onde peças mudam de forma conforme novas perspectivas são reveladas. Travolta, como investigador, e Jackson, como sargento acusado de assassinato, jogam um jogo de gato e rato intelectual que exige atenção total. É bagunçado? Sim. Mas é bagunçado de forma ambiciosa, tentando fazer algo além da fórmula padrão. Às vezes, prefiro um filme que arrisca e erra a um que acerta sendo medíocre — e aqui, o risco é justificado pelas performances.

‘Três Enterros’ (2005): o peso real da morte no neo-western

Estreia na direção de Tommy Lee Jones, ‘Três Enterros’ (título original ‘The Three Burials of Melquiades Estrada’) é o antídoto perfeito para filmes de crime que tratam assassinato como plot device casual. Baseado em eventos reais e inspirado em ‘Enquanto Agonizo’, de William Faulkner, o filme segue um vaqueiro (Jones) que força o assassino de seu amigo mexicano a desenterrar o corpo e transportá-lo de volta à sua terra natal para um enterro decente.

Aqui, o crime não é glamourizado; é um peso físico e espiritual literal — carregar um cadáver em decomposição sob o sol escaldante do Texas. O filme aborda tensões raciais na fronteira México-EUA com uma honestidade que soa perturbadoramente atual em 2026. É visualmente árido, emocionalmente exaustivo, e recusa-se a oferecer redenção fácil. Quando termina, você sente que presenciou algo sagrado e profanado ao mesmo tempo — uma raridade no gênero.

‘Xeque-Mate’ (2006): o camp deliberado que divide águas

'Xeque-Mate' (2006): o camp deliberado que divide águas

‘Lucky Number Slevin’, ou ‘Xeque-Mate’, é o tipo de filme que você ama ou odeia, sem meio-termo. Com 52% de aprovação na crítica, ele é um mash-up intencional de noir clássico, comédia de diálogos afiados e violência estilizada, estrelado por Bruce Willis, Josh Hartnett, Morgan Freeman e Ben Kingsley. A trama gira em torno de um caso de identidade trocada que envolve duas gangues rivais e um assassino profissional.

O que o torna essencial é sua consciência camp: ele sabe que é excessivo, que os diálogos são irreais, que a trama é uma complicação proposital. Alguns atores parecem estar em filmes diferentes — Willis joga com seu persona de durão, enquanto Kingsley vive um rabino gangster com sotaque que desafia a lógica — e isso é parte do charme. É um filme que funciona melhor quando você aceita que está vendo uma fantasia criminal estilizada, não realismo. Para fãs de ‘Snatch’ ou ‘Lock, Stock and Two Smoking Barrels’, é um parente americano esquecido que merece redescoberta.

‘A Última Cartada’ (2007): o caos gonzo antes do streaming dominar

Se ‘Xeque-Mate’ é elegância barroca, ‘A Última Cartada’ (original ‘Smokin’ Aces’) é pura anarquia gonzo. Ryan Reynolds, Jeremy Piven, Alicia Keys e uma dúzia de assassinos de estilos variados convergem para um cassino em Lake Tahoe com uma missão: matar ou proteger um informante da máfia. O resultado é uma sinfonia de violência absurda, humor negro e edição frenética que captura perfeitamente a estética “edgy” do cinema de ação pós-Tarantino dos anos 2000.

O filme foi um sucesso de bilheteria modesto que encontrou sua verdadeira audiência no DVD e, posteriormente, no streaming, desenvolvendo um cult following merecido. Não é perfeito — algumas subtramas não pagam o investimento — mas a energia é inegável. É o tipo de filme que os algoritmos atuais provavelmente não recomendariam porque “não se encaixa em nenhuma categoria limpa”, mas que oferece exatamente o tipo de experiência cinematográfica visceral que justifica a existência do gênero crime.

Por que resgatamos estes filmes de crime subestimados?

O algoritmo de recomendação moderno tende a circular os mesmos títulos de prestígio ou lançamentos recentes, criando um ecossistema onde o passado recente ou distante só é acessível se for “canônico”. Mas filmes de crime subestimados como estes oferecem algo que os novos blockbusters raramente arriscam: vozes distintas, finais corajosos, e a sensação de que você está descobrindo um segredo.

De ‘Fúria Sanguinária’ a ‘A Última Cartada’, o fio condutor é a audácia — cada um desses diretores e roteiristas optou por algo específico em vez de genérico, mesmo quando isso significou alienar parte da audiência. Para o fã obsessivo de cinema de crime, são 10/10 não porque são perfeitos, mas porque são insubstituíveis. E na era do conteúdo descartável, ser insubstituível é a maior das façanhas.

Se você já viu algum destes e discorda veementemente — ou concorda e quer indicar outro esquecido — deixe sua recomendação nos comentários. O crime perfeito é aquele que ninguém mais lembra, mas deveria.

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Perguntas Frequentes sobre Filmes de Crime Subestimados

O que define um filme de crime “subestimado”?

Um filme de crime subestimado geralmente é uma obra que, apesar de qualidade artística reconhecida por especialistas, não alcançou a popularidade cultural duradoura que merece — seja por falhas de marketing, concorrência de blockbusters na época de lançamento, ou simplesmente por ter sido esquecido pelos algoritmos de streaming. Diferem de “filmes ruins” ou “cult movies” de formação tardia: são obras que deveriam ser parte do cânon, mas permanecem em relativo ostracismo.

Por que ‘Fúria Sanguinária’ (1949) ainda vale a pena assistir?

Além de ser o último grande papel de James Cagney como gângster, o filme estabelece o template psicológico para anti-heróis autodestrutivos que vemos até hoje. A censura da época forçou o diretor Raoul Walsh a sugerir violência através de implicação psicológica, criando uma tensão que envelheceu melhor que muitos efeitos explícitos modernos. A cena final na torre de gás é considerada uma das mortes mais icônicas do cinema noir.

‘Xeque-Mate’ (2006) é realmente bom apesar das críticas negativas?

Sim, mas com ressalvas de expectativa. Com 52% no Rotten Tomatoes, o filme é intencionalmente “camp” — excessivo, com diálogos irreais e trama complicada de propósito. Funciona melhor se assistido como uma fantasia criminal estilizada no estilo de Guy Ritchie, não como um thriller realista. Os performances de Josh Hartnett e Ben Kingsley como rabino gangster tornam-no uma experiência única para fãs de noir moderno.

Onde posso assistir estes filmes de crime esquecidos?

A disponibilidade varia por região: ‘Fúria Sanguinária’ e ‘A Morte num Beijo’ estão no Criterion Channel e em edições de Blu-ray restauradas; ‘Um Peixe Chamado Wanda’ e ‘O Jogador’ alternam entre Netflix, Amazon Prime Video e HBO Max; ‘A Negociação’, ‘Um Plano Simples’ e ‘Xeque-Mate’ frequentemente aparecem no catálogo do Paramount+ ou Star+; ‘Três Enterros’ e ‘A Última Cartada’ estão disponíveis em plataformas de aluguel digital como Apple TV e Google Play.

Qual destes filmes é melhor para quem prefere comédia de crime?

‘Um Peixe Chamado Wanda’ (1988) é a escolha definitiva — venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original e Kevin Kline levou o Oscar de Coadjuvante por sua performance como Otto. Para um tom mais ácido e metalinguístico, ‘O Jogador’ (1992) oferece sátira de Hollywood com elementos de thriller. Se preferir humor negro com violência gráfica, ‘A Última Cartada’ (2007) mistura ação absurda com comédia gonzo no estilo de filmes britânicos como ‘Snatch’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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