‘Twisted’: Lauren LaVera trocou a final girl de ‘Terrifier’ pela vigarista Paloma

Lauren LaVera abandona a final girl de ‘Terrifier’ para viver uma vigarista manipuladora em ‘Twisted’. Analisamos a transformação física radical, os múltiplos sotaques e por que este é o papel mais arriscado da carreira da atriz.

Existem transições de carreira que parecem óbvias — a atriz de comédia romântica que resolve fazer drama, o astro de ação que tenta a ficção científica. Mas Lauren LaVera em ‘Twisted’ representa algo mais radical: a metamorfose de uma “final girl” moderna, aquela arquétipo do terror que sobrevive pelo sangue nos olhos, em uma vigarista que sobrevive pela manipulação psicológica. Depois de dois filmes como Sienna em ‘Terrifier’ — onde a atuação exigia resistência física quase sobre-humana contra Art, o Palhaço — LaVera agora entrega Paloma, uma mulher que constrói identidades falsas como quem troca de roupa, e cuja maior batalha não é contra um monstro de máscara, mas contra a própria vulnerabilidade.

‘Twisted’, dirigido por Darren Lynn Bousman (veterano da franquia ‘Jogos Mortais’), chega como um thriller de horror científico que mergulha na psique de golpistas de aluguel. A trama acompanha Paloma e Smith (Mia Healey, de ‘Motorheads: Velozes e Apaixonados’), um casal millennial que aluga propriedades de luxo que não possuem, até cruzarem com o Dr. Kezian (Djimon Hounsou, indicado duas vezes ao Oscar), um neurocientista brilhante cujas descobertas são sufocadas por regulamentações éticas. Quando Paloma é atacada durante um golpe e salva pelo cientista, ela descobre que sua “salvação” esconde uma agenda experimental macabra.

De “Final Girl” a Vigarista: O Desafio de Abrir Mão do Controle

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A transição de Sienna para Paloma não foi apenas uma mudança de figurino. Em entrevista, LaVera descreveu o processo como “aterrorizante” — um termo curioso vindo de alguém que passou horas sendo perseguida por um palhaço demoníaco em telas gigantes. “Atuar é um estado de vulnerabilidade muito específico”, explicou a atriz. “E Paloma é alguém livre em sua sexualidade, livre em sua personalidade, desinibida. Eu não sou assim no dia a dia.”

O que torna a performance fascinante é exatamente essa tensão: LaVera interpreta uma mulher que performa constantemente. Paloma não é apenas uma vigarista; ela é uma artista de identidades, alternando entre personas como Emma Woodhouse (uma inglesa sofisticada inspirada em Jane Austen e em Nicole Kidman de ‘Da Magia à Sedução’), Flair Forsyte (americana delicada), e outras máscaras linguísticas. A atriz teve apenas três semanas para preparar o papel — um prazo “inédito”, segundo ela, para dominar tantos dialetos. Normalmente, coaches de sotaque recomendam seis meses de preparação. LaVera contratou dois profissionais diferentes, alternando entre eles conforme a disponibilidade, para criar camadas distintas de voz e postura para cada uma das farsas de Paloma.

A Cena da Cabeça Raspada: Vulnerabilidade como Técnica

Um dos momentos mais comentados de ‘Twisted’ envolve a transformação física radical de Paloma. Sem entrar em spoilers detalhados do terceiro ato, a personagem passa por uma modificação corporal extrema que exigiu que LaVera usasse um capuz de careca — simulando uma cabeça raspada — durante boa parte das filmagens.

“Eu chegava no set parecendo Dan Aykroyd em ‘Cônicos e Cômicos'”, revelou a atriz, referindo-se à altura impressionante de seu cabelo naturalmente longo e cacheado escondido sob a prótese. A produção utilizou uma combinação de efeitos práticos e CGI: o capuz continha cabelo falso na parte superior, e a computação gráfica auxiliou em ajustes finos, “encolhendo” a altura da testa para evitar o efeito “dez dedos de testa” comum em carecas artificiais.

Mas o desafio não foi apenas técnico. “Quando você é uma pessoa feminina, ou qualquer pessoa com cabelo longo, o cabelo funciona como uma muleta”, analisou LaVera. “Ele te protege, cobre seu rosto, esconde segredos internos. Não ter isso foi uma situação de vulnerabilidade extrema.” Essa exposição física, segundo ela, auxiliou diretamente nas cenas mais dialogadas e emocionalmente cruas do filme, onde Paloma está literalmente despida de suas armaduras habituais.

Lauren LaVera e Djimon Hounsou: O Xadrez Psicológico

Lauren LaVera e Djimon Hounsou: O Xadrez Psicológico

Se ‘Terrifier’ colocou LaVera contra antagonistas de máscara e pouca fala, ‘Twisted’ a coloca em um jogo de xadrez verbal com Djimon Hounsou. O ator, cuja primeira língua não é o inglês (ele fala cinco a sete idiomas), traz uma presença que LaVera descreveu como “exigente, mas incrivelmente calma”.

“Um dos meus primeiros dias de set, eu tremia”, confessou a atriz. “Eu culpei o frio, mas era nervosismo. É um ator duas vezes indicado ao Oscar, cuja obra eu conheço, sempre tão presente e ancorado.” A dinâmica entre Paloma e Kezian funciona como um duelo de monólogos — o cientista fala extensivamente enquanto realiza procedimentos, e LaVera encontrou-se frequentemente “perdida na voz dele”, esquecendo suas falas porque estava genuinamente absorvida em ouvir Hounsou. “Ele é um parceiro de cena generoso”, destacou. “Ele escuta tão bem que isso torna a cena dinâmica. Ambos estamos tentando impactar um ao outro.”

O Final que Subverte Tudo: A Troca de Identidades

Alerta de spoilers para o final de ‘Twisted’.

O desfecho do filme apresenta uma reviravolta que desafia as expectativas do gênero: Paloma, após os experimentos de Kezian, acaba incorporada — literalmente ou metaforicamente, dependendo da interpretação — no personagem de Rebecca, vivido por Alicia Witt (‘Longlegs – Vínculo Mortal’, ‘The Walking Dead’). A cena final mostra Witt interpretando Paloma, uma transição de atriz que exigiu preparação conjunta entre as duas.

Embora não tenham cenas juntas no filme, LaVera e Witt desenvolveram uma conexão nos bastidores justamente durante os processos de maquiagem para as carecas. “Nos decepcionamos de não dividir cenas, mas nos encontrávamos nos trailers de caracterização”, contou LaVera. Witt estudou as cenas iniciais de LaVera para capturar a postura de Paloma — “a forma de ficar em pé, as expressões faciais mudaram completamente”, notou a atriz.

Em uma inversão interessante, LaVera decidiu incorporar elementos de Rebecca em uma de suas personas falsas — Flair Forsyte — antes mesmo de saber do destino final de Paloma. “Eu queria que Flair tivesse a voz um pouco mais aguda, mais doce, menos sexualmente direta que Emma Woodhouse”, explicou. “Isso faria sentido: talvez o Dr. Kezian quisesse usar o corpo de uma mulher que, subconscientemente, lembrasse sua esposa.” A decisão criou um eco perfeito entre as performances, sugerindo que Paloma e Rebecca sempre compartilharam uma frequência invisível.

A Lição de ‘Twisted’: Liberdade nas Restrições

O paradoxo central da performance de Lauren LaVera em ‘Twisted’ é que, enquanto Paloma passa a maior parte do filme acorrentada — literalmente presa em laboratórios e equipamentos médicos —, a atriz encontrou na personagem uma liberdade pessoal. “Parece engraçado chamar Paloma de ‘livre’ quando ela está presa a maior parte do tempo”, refletiu LaVera. “Mas ela é muito livre no tipo de pessoa que é.”

Ao contrário de Sienna, cuja força vem da resistência moral e física contra o caos, Paloma encontra poder na adaptabilidade. É uma performance que exige que o espectador acompanhe não apenas uma protagonista, mas várias — cada sotaque, cada postura, cada batida de olho representa uma camada de sobrevivência social. Se em ‘Terrifier’ LaVera provou que podia carregar um filme de horror físico, em ‘Twisted’ ela demonstra domínio sobre o horror psicológico, aquele que se instala quando você percebe que não sabe mais quem está vendo através dos olhos da personagem.

Para quem acompanhou a trajetória da atriz desde os curtas independentes até o estrelato em ‘Terrifier 2’, ‘Twisted’ funciona como uma declaração de intenções: Lauren LaVera não será encurralada em um único tipo de horror. Ela pode ser a final girl que sangra para salvar o mundo, ou a vigarista que sangra para salvar a si mesma — e em ambos os casos, você não consegue desviar os olhos.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Twisted’ e Lauren LaVera

‘Twisted’ é continuação de ‘Terrifier’?

Não. ‘Twisted’ é um filme original dirigido por Darren Lynn Bousman, sem conexão com a franquia ‘Terrifier’. A única ligação é a presença de Lauren LaVera, que interpreta a final girl Sienna em ‘Terrifier 2’ e ‘Terrifier 3’, mas vive uma personagem completamente diferente em ‘Twisted’.

Onde assistir ‘Twisted’?

‘Twisted’ está disponível em plataformas digitais por meio de video-on-demand (VOD). O filme não teve lançamento nos cinemas brasileiros e chegou diretamente ao streaming/aluguel digital.

Quem é Lauren LaVera?

Lauren LaVera é uma atriz americana que ganhou destaque internacional interpretando Sienna Shaw na franquia ‘Terrifier’. Antes disso, trabalhou em curtas independentes e como dublê. Em ‘Twisted’, ela interpreta Paloma, uma vigarista complexa que exige múltiplos sotaques e uma transformação física radical.

Qual é a cena da cabeça raspada em ‘Twisted’?

No terceiro ato do filme, Paloma (Lauren LaVera) passa por uma modificação corporal extrema que inclui a cabeça raspada. A atriz utilizou um capuz de careca com efeitos práticos e CGI para simular a aparência, escondendo seu cabelo naturalmente longo e cacheado durante as filmagens.

Quem dirige ‘Twisted’?

‘Twisted’ é dirigido por Darren Lynn Bousman, conhecido por dirigir vários filmes da franquia ‘Jogos Mortais’ (Saw II, III e IV), além de ‘Repo! The Genetic Opera’ e ‘Spiral: From the Book of Saw’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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