‘Drácula: A Love Story’: final explicado e como Besson reescreve Stoker

Analisamos por que Drácula escolhe a morte no final do novo filme de Luc Besson e como essa decisão transforma o vampiro de Stoker em figura trágica. Entenda as diferenças entre o horror original e este gótico romântico.

Luc Besson nunca foi conhecido por sutileza. De ‘O Quinto Elemento’ a ‘Lucy’, seu cinema pulsa por excesso visual e narrativo. Por isso, é surpreendente como ‘Drácula: A Love Story’ revela uma abordagem quase contemplativa — talvez pela primeira vez na carreira do francês, ele parece mais interessado em silêncios do que em explosões. O filme não apenas adapta Bram Stoker; ele subverte a própria natureza do vampiro como figura cultural, transformando o predador imortal em um viúvo enlutado que recusa o horror para abraçar a tragédia.

Por que Drácula escolhe a morte no clímax

Por que Drácula escolhe a morte no clímax

A cena final é, paradoxalmente, a mais silenciosa de um filme repleto de gárgulas gritando e sangue escorrendo. Após descobrir que Mina (interpretada como a reencarnação de sua noiva Elisabeta) é realmente sua amada perdida, o Conde (Caleb Landry Jones) enfrenta uma escolha que nenhuma adaptação anterior de Stoker ousou colocar com tanta clareza: ele pode converter Mina, garantindo uma eternidade juntos, mas condenando-a à mesma corrupção que transformou seu próprio corpo em um túmulo ambulante; ou pode aceitar o esquecimento.

A decisão de deixar o Padre (Christoph Waltz) cravar a estaca em seu coração não é derrota — é redenção ativa. Besson estabelece desde o início que a maldição de Drácula não é mero acidente sobrenatural, mas punição divina por seu rebatismo brutal contra Deus após a morte de Elisabeta. O que o filme esconde habilmente até o terceiro ato, porém, é a verdadeira culpa do príncipe: ao tentar salvá-la de soldados inimigos, ele a matou com sua própria espada, atravessando o atacante e impalando sua amada.

Este detalhe muda tudo. Drácula não é vítima de um Deus cruel, mas arquiteto de seu próprio inferno pessoal. Sua imortalidade — inicialmente parecendo bênção — torna-se prisão de um luto que ele recusa processar. Ao permitir a morte, ele finalmente aceita a responsabilidade pelo acidente que destruiu sua vida, quebrando não apenas a maldição vampírica, mas também o ciclo de raiva que o transformou em monstro através dos séculos.

O destino dos sobreviventes e o mistério das crianças-gárgula

Enquanto Drácula encontra paz no pós-vida (ou no verdadeiro esquecimento, o filme deixa ambíguo), o castelo desmorona revelando uma verdade perturbadora: as criaturas aladas que serviam ao vampiro, aquelas gárgulas que massacraram a milícia do Padre durante o ataque final, eram crianças. Não monstros, não demônios — crianças humanas mantidas em estado bestial pela vontade de Drácula.

Esta revelação acrescenta uma camada de ambiguidade moral ao desfecho. Se Drácula libertou suas “agentes” ao morrer, o que aconteceu com elas? O filme sugere que a maldição se estendia globalmente através de “agentes” espalhados pelo mundo — incluindo Maria, a esposa corrompida de Henry Spencer (o equivalente a Arthur Holmwood desta versão). Com a morte do vampiro, esses escravos recuperam a humanidade, mas a questão que Besson deixa pairar é cruel: se transformaram em crianças após séculos, ou simplesmente voltaram à idade que tinham quando mordidas?

Entre os adultos, a sobrevivência é quase universal: Jonathan Harker é poupado novamente (agradecendo a revelação involuntária sobre Mina), Dr. Dumont (o substituto de John Seward) escapa dos ataques das gárgulas, e o próprio Padre completa sua missão sem morrer heroicamente — uma subversão interessante, já que normalmente o caçador de vampiros paga com a vida em adaptações de Stoker. Apenas Henry Spencer morre, vítima de sua própria obsessão por salvar uma mulher já perdida.

Mina, porém, carrega o peso mais complexo. Curada pela morte de Drácula antes que a conversão se completasse, ela permanece humana, mas não retorna a Jonathan. O filme termina com ela solitária, enlutada por um amor que remonta a vidas passadas. É uma conclusão amarga: Drácula salvou sua alma ao custo de deixá-la para sempre com a memória de um amor impossível.

Como Besson trai Bram Stoker (e por que funciona)

Como Besson trai Bram Stoker (e por que funciona)

Qualquer análise do desfecho precisa confrontar a heresia que Besson comete contra o material fonte. O romance de 1897 é, essencialmente, um documento de puro horror — o vampiro é peste, invasão corporal, ameaça colonial e sexual simultaneamente. Mesmo ‘Drácula de Bram Stoker’ (1992) de Francis Ford Coppola, que introduziu o elemento romântico da reencarnação, manteve o Conde como predador genuíno, cujo “amor” por Mina era possessão disfarçada.

Besson faz o oposto. Seu Drácula mata, sim, mas em surtos de raiva traumática, não como modus operandi. A câmera não saboreia a violência como em ‘Nosferatu’ (2024) de Robert Eggers, onde o horror é visceral e o vampiro é animal. Aqui, as mortes são erros de um homem quebrado, não expressões de natureza demoníaca. O diretor francês está mais interessado em ‘Wuthering Heights’ do que em ‘Varney the Vampire’ — seu filme é gótico romântico, não gótico de terror.

As mudanças no elenco de caçadores reforçam essa transição. Ausente está Van Helsing, o cientista-sacerdote que representa a razão europeia combatendo o paganismo orientalizado de Stoker. Em seu lugar, temos apenas o Padre — uma figura de compaixão, não de guerra. Christoph Waltz interpreta o personagem como alguém que vê o sofrimento de Drácula antes de ver o monstro. Esta escolha narrativa remove completamente o eixo científico/religioso do original, reduzindo o conflito a uma questão teológica pessoal: pode Deus perdoar quem O renegou?

A verdadeira tragédia: luto como maldição

O que eleva o filme acima de mera releitura romântica é sua metáfora central, articulada no desfecho com rigor meticuloso. ‘Drácula: A Love Story’ argumenta que o verdadeiro monstro não é o vampirismo, mas a recusa em aceitar a perda. Drácula transformou seu luto em imortalidade — literalmente — e ao fazê-lo, tornou-se parasita que consome vidas alheias para manter viva uma memória.

A ironia final é que, ao aceitar a morte, Drácula finalmente honra Elisabeta. Ele para de tentar ressuscitá-la através de Mina e permite que ambas descansem. É uma lição brutal sobre deixar ir, embalada em melodrama gótico. Mina, ao contrário, parece destinada a um luto mais saudável — o filme sugere que ela não se tornará uma nova versão do vampiro, mas simplesmente uma mulher que carregou um amor extraordinário e o perdeu.

Besson, que já explorou a immortalidade em ‘Lucy’ como evolução transcendental, aqui a trata como prisão existencial. O final não é feliz — é correto. E no cinema de blockbusters onde “felizes para sempre” é a regra padrão, ousar terminar com uma protagonista viúva de um amor que nem era desta vida, e um antagonista redimido apenas no esquecimento, prova que o francês ainda surpreende.

O veredito: uma Drácula para quem odeia Dráculas

Se você busca o horror claustrofóbico de ‘Nosferatu’ ou o erotismo gótico de Coppola, ‘Drácula: A Love Story’ vai frustrar. Mas se aceitar que alguns mitos precisam ser quebrados para revelar novas verdades, o filme oferece algo raro: uma adaptação que respeita a fonte o suficiente para discordar dela fundamentalmente.

O final explicado é simples em sua ação — vampiro morre, maldição termina — mas complexo em suas implicações. Ao escolher redenção sobre dominação, Drácula finalmente supera a única coisa que nenhuma adaptação anterior ousou questionar: sua própria natureza de predador. Besson não fez um filme sobre um monstro que ama; fez um filme sobre como o amor — quando corrompido pelo luto recusado — é o verdadeiro monstro. E como, às vezes, a única salvação é deixar que a história termine.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Drácula: A Love Story’

Por que Drácula escolhe morrer no final do filme?

Drácula aceita a morte como ato de redenção. Ao descobrir que matou acidentalmente sua noiva Elisabeta séculos atrás, ele entende que sua imortalidade é prisão de um luto mal resolvido. Permitir que o Padre crave a estaca é sua forma de aceitar responsabilidade pelo passado e libertar Mina de uma eternidade amaldiçoada.

O que acontece com as crianças-gárgula após a morte do vampiro?

O filme revela que as gárgulas eram crianças humanas mantidas em estado bestial pela maldição. Com a morte de Drácula, elas recuperam a humanidade, mas Besson deixa ambíguo se retornam à idade atual ou à idade que tinham quando foram transformadas séculos atrás.

Como ‘Drácula: A Love Story’ difere do livro de Bram Stoker?

Enquanto o original é horror puro onde o vampiro representa ameaça corporal e colonial, Besson transforma a história em gótico romântico. Remove Van Helsing (símbolo da ciência europeia) e foca no Padre como figura de compaixão. Seu Drácula é vítima de luto, não predador natural, e o filme prioriza tragédia sobre terror.

Quem são os protagonistas do filme de Luc Besson?

Caleb Landry Jones interpreta o Conde Drácula, Christoph Waltz vive o Padre (substituto do Van Helsing original), e Mina é interpretada como reencarnação da noiva perdida Elisabeta. O elenco inclui ainda Jonathan Harker e Henry Spencer (equivalente a Arthur Holmwood).

O filme tem cenas pós-créditos?

Não. ‘Drácula: A Love Story’ termina de forma conclusiva com a morte do protagonista e Mina solitária, sem cenas adicionais durante ou após os créditos finais.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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