Travis Knight transforma Skeletor em “personificação da masculinidade tóxica” no novo ‘Mestres do Universo’. Analisamos por que o diretor recusou a máscara dourada em favor de um crânio real, e como Jared Leto explora a fragilidade masculina escondida sob a performance de poder do vilão mais icônico dos anos 80.
Jared Leto vestindo Skeletor como “personificação da masculinidade tóxica” soa, à primeira vista, como uma daquelas frases de marketing que tentam emprestar peso político a propriedades intelectuais de brinquedos dos anos 80. Mas quando o diretor Travis Knight — o mesmo que deu alma de stop-motion a Kubo e as Cordas Mágicas — resolveu abraçar essa leitura para ‘Mestres do Universo’, algo mais interessante aconteceu: ele transformou um vilão de desenho animado cujo nome literalmente é “Esqueleto” em um comentário sobre performatividade de gênero e fragilidade masculina.
A interpretação de Skeletor por Jared Leto não é apenas mais uma entrada na filmografia excêntrica do ator. É uma aposta ousada de que até o material mais “camp” e aparentemente superficial pode carregar camadas de significado quando tratado com seriedade criativa — não a seriedade sombria dos filmes de heróis pós-Cavaleiro das Trevas, mas uma seriedade que entende que o absurdo, bem explorado, diz muito sobre nós.
Por que Skeletor precisava ter um crânio real (e não uma máscara dourada)
Houve um momento em que ‘Mestres do Universo’ poderia ter seguido o caminho seguro. Roteiros anteriores previam Skeletor usando uma máscara dourada — uma solução prática, talvez, mas que diluiria a essência do personagem. Knight não hesitou: “Foda-se essa merda. Skeletor tem um rosto de caveira. É uma caveira viva, falante, expressiva, e pronto.”
Essa decisão, aparentemente pequena, é reveladora da abordagem do filme. Em vez de tentar “realismo cínico” ou “gritty reboot”, Knight optou por honrar a estética original dos brinquedos Mattel e do cartoon dos anos 80. O crânio — provavelmente híbrido de animatrônico com captura de movimento facial sobre maquiagem prática — permite que Leto atue através do látex e do CGI. É uma escolha que prioriza expressão sobre conveniência, e que sugere que o diretor entende algo fundamental: Skeletor funciona porque é visualmente ridículo e ameaçador ao mesmo tempo.
Ao manter o design fiel ao original — caveira amarela, capuz azul, musculatura exagerada — Knight criou o palco perfeito para explorar o que ele chama de “personificação da masculinidade tóxica”. Skeletor não é apenas malvadão; é a versão distorcida e hiperbolizada do que acontece quando fragilidade e ambição se misturam sem empatia.
A masculinidade tóxica de um esqueleto azul: mais profundo do que parece
Quando Knight descreve Skeletor como “the embodiment of toxic masculinity”, ele não está fazendo um aceno vazio às buzzwords contemporâneas. Está apontando para algo que sempre existiu no personagem mas raramente foi nomeado: Skeletor é puro desempenho de poder. Ele é frágil (um esqueleto, literalmente oco por dentro), compensando com gestos grandiosos de dominação, risadas teatrais e uma obsessão por força que nunca o satisfaz.
Jared Leto, que segundo o diretor “amava Skeletor e tinha sua própria história com o personagem”, parece ter encontrado no vilão um espelho distorcido para explorar temas que vêm permeando sua carreira. De ‘Clube da Luta’ (onde ele viveu o narcisismo destrutivo de Angel Face) a ‘Esquadrão Suicida’ (como o Joker problemático), Leto tem uma fascinação por personagens que performam masculinidade de formas extremas. Skeletor é, potencialmente, a síntese disso: um corpo que é puro espetáculo de ameaça, escondendo vazio por trás da performance.
A genialidade está em como isso contrasta com He-Man. Enquanto Skeletor representa a masculinidade tóxica — força sem empatia, poder como fim em si mesmo —, He-Man (Nicholas Galitzine) é descrito pelo diretor como representando “força”, mas Prince Adam representa “empatia”. É uma dicotomia que o filme parece levar a sério: o herói musculoso que carrega uma espada mágica é, ironicamente, o lado saudável da moeda, enquanto o vilão esquelético é o lado doentio.
O elenco que entendeu a tarefa: entre o camp e a sinceridade
O que torna essa abordagem viável é o restante do elenco, que parece ter comprado a visão de Knight sobre honrar as raízes de brinquedo do material. Idris Elba, como Man-At-Arms, trouxe uma perspectiva pessoal reveladora: “Meus pais não podiam pagar pelos brinquedos de Guerra nas Estrelas, e os de He-Man eram mais baratos. Então eu tinha He-Man, She-Ra, Battle Cat…” Essa confissão de classe, de um ator de grande prestígio, legitima o filme como algo mais do que nostalgia vazia — é reconhecimento de que essas histórias pertenciam às crianças que não tinham acesso aos blockbusters “sérios”.
Alison Brie como Evil-Lyn, com seu capacete roxo e orbe cósmico, e o próprio Galitzine — que descreveu a preparação física como “a coisa mais difícil que já fiz”, comparando o traje revelador a fazer cenas de sexo (“todos no set estão mais desconfortáveis do que você”) — completam um time que parece entender que ‘Mestres do Universo’ precisa abraçar o “inherently silly”, como diz Knight. Não é sobre fazer piada do material, mas sobre deixar que o material respire dentro de sua própria lógica absurda.
O que está em jogo além do CGI
Em um momento onde blockbusters de heróis competem por quem consegue ser mais “sombrio” ou mais “épico”, a aposta de Knight em ‘Mestres do Universo’ parece ser justamente a recusa dessa escolha binária. O filme pode ser colorido, camp, e ainda assim dizer algo sobre masculinidade — não através de monólogos didáticos, mas através do design de personagens e da dinâmica entre um príncipe que precisa aprender empatia e um esqueleto que nunca teve.
A data de estreia está marcada para 5 de junho de 2026. Entre agora e lá, a questão não é se Leto vai “entregar” uma performance excêntrica — ele sempre entrega. A questão é se o filme conseguirá manter o equilíbrio que promete: ser fiel ao espírito dos brinquedos baratos que Idris Elba jogava na infância, enquanto usa Skeletor como um espelho para examinar o que acontece quando homens confundem dominação com força.
Se Knight acertar, teremos algo raro: um blockbuster de verão que entende que “tóxico” não precisa ser sinônimo de “realista e cinzento”. Às vezes, o veneno vem em cores mais vivas. E com um crânio amarelo brilhante.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Mestres do Universo’ (2026)
Quando estreia ‘Mestres do Universo’ nos cinemas?
O filme estreia em 5 de junho de 2026 nos cinemas brasileiros e norte-americanos. A data foi confirmada após vários adiamentos do projeto, que já teve versões em desenvolvimento desde 2007.
Por que Skeletor não usa máscara no filme de 2026?
O diretor Travis Knight recusou a ideia de uma máscara dourada presente em roteiros anteriores. Segundo ele, “Skeletor tem um rosto de caveira. É uma caveira viva, falante, expressiva”. A escolha visa manter fidelidade aos brinquedos Mattel originais e permitir que Jared Leto atue através de efeitos práticos e digitais.
O que Travis Knight disse sobre Skeletor e masculinidade tóxica?
Knight descreveu Skeletor como “the embodiment of toxic masculinity” (a personificação da masculinidade tóxica). O diretor explicou que o vilão representa “força sem empatia”, contrastando com He-Man (força) e Prince Adam (empatia). A interpretação vê Skeletor como fragilidade masculina compensada por performance de dominação.
Quem está no elenco de ‘Mestres do Universo’?
O elenco principal inclui Nicholas Galitzine (He-Man/Prince Adam), Jared Leto (Skeletor), Idris Elba (Man-At-Arms), Alison Brie (Evil-Lyn) e Camila Mendes (Teela). A direção é de Travis Knight, conhecido por ‘Kubo e as Cordas Mágicas’.
O filme será fiel aos desenhos dos anos 80?
Segundo o diretor, sim. Knight prometeu honrar o “inherently silly” (inherente absurdo) do material original, rejeitando o “realismo cínico” de outros reboots. O design dos personagens mantém as cores vibrantes e estética dos brinquedos Mattel, incluindo o crânio amarelo de Skeletor e o capacete roxo de Evil-Lyn.

