‘O Mágico de Oz’ volta à TV aberta após 30 anos: o que mudou

Analisamos por que o retorno de ‘O Mágico de Oz’ à TV aberta em 2026 é um marco cultural. Entenda como o fenômeno ‘Wicked’ e a nostalgia do ritual televisivo resgatam a força do clássico de 1939 frente ao isolamento do streaming.

Existe um fenômeno curioso na história do cinema que desafia a lógica das bilheterias: alguns filmes não nascem clássicos, eles são ‘batizados’ como tal pela televisão. O caso mais emblemático dessa metamorfose é, sem dúvida, o épico musical de 1939. Por isso, o anúncio de que ‘O Mágico de Oz’ na TV aberta retornará ao formato de transmissão gratuita em outubro de 2026, após um hiato de quase 30 anos de grandes exibições em rede nacional, não é apenas uma nota nostálgica. É o retorno de uma obra-prima ao seu habitat natural.

Embora hoje o filme esteja disponível a um clique no streaming (via Max), há algo na natureza coletiva da televisão aberta que moldou o DNA cultural de Dorothy e seus companheiros. Para entender por que essa reestreia importa tanto hoje, precisamos olhar para além da estrada de tijolos amarelos e compreender como a moldura da TV transformou um relativo fracasso financeiro de 1939 no filme mais assistido da história da humanidade.

A TV como o verdadeiro ‘Mágico’ por trás do mito

A TV como o verdadeiro 'Mágico' por trás do mito

É um erro comum pensar que ‘O Mágico de Oz’ foi um sucesso estrondoso imediato. No ano de ouro de 1939 — quando competiu com gigantes como ‘E o Vento Levou’ —, o filme de Victor Fleming mal pagou seus custos de produção. A obra só começou a dar lucro real em seu relançamento em 1949. No entanto, o status de ícone imortal só foi cimentado em 3 de novembro de 1956. Foi nessa data que a CBS o exibiu pela primeira vez na televisão, criando um ritual anual que duraria décadas.

Para gerações inteiras, assistir a ‘O Mágico de Oz’ na TV aberta era um evento sagrado. Não se ‘escolhia’ o filme; você esperava o ano todo por aquele domingo específico. Essa escassez programada gerava uma mística que o algoritmo do streaming é incapaz de replicar. O retorno ao formato linear agora tenta resgatar essa sensação de ‘evento nacional’, algo que se diluiu na fragmentação das telas individuais.

O que mudou: técnica, sombras e a nova febre de Oz

Como crítico, já revisitei esta obra em diversos formatos, do VHS ao 4K, mas a força da sua narrativa técnica nunca deixa de impressionar. A transição do tom sépia de Kansas para o Technicolor vibrante de Oz ainda é um dos momentos mais geniais do cinema. Repare na profundidade de campo quando Dorothy (Judy Garland) abre a porta da casa caída: aquele não é apenas um truque de cenário, é o cinema declarando sua independência da realidade através de uma composição de cores saturadas que, mesmo em transmissões de TV de menor resolução, mantêm sua força visual.

Mas a imortalidade do filme também se alimenta de suas sombras, e o público atual consome a obra com uma consciência muito maior dos seus bastidores traumáticos. A produção foi notoriamente perigosa: desde as queimaduras de segundo grau sofridas por Margaret Hamilton (a Bruxa Má) até o uso de amianto para simular a neve no campo de papoulas. Essa dualidade entre a fantasia lúdica na tela e o sacrifício artístico por trás dela adiciona uma camada de fascínio mórbido que não existia nas exibições das décadas de 70 ou 80.

O efeito ‘Wicked’ e o experimento social da TV aberta

Não é coincidência que este retorno à grade de programação aconteça agora. O sucesso avassalador das duas partes de ‘Wicked’ (2024 e 2025) nos cinemas reacendeu o interesse pelo material original de L. Frank Baum. ‘Wicked’ fez um trabalho primoroso ao humanizar Elphaba e Glinda, mas ele também funciona como uma imensa carta de amor aos elementos visuais estabelecidos pelo filme de 1939 — muitos dos quais, como os icônicos sapatinhos de rubi, tornaram-se símbolos universais graças às reprises exaustivas na TV.

Assistir a ‘O Mágico de Oz’ na TV aberta em plena era digital é um experimento social fascinante. Ele testa se um filme de quase 90 anos ainda tem o poder de parar o tempo e unir famílias em torno de uma única tela, criando uma conversa síncrona que o streaming isolado não permite. É saber que milhões de outras pessoas estão sentindo o mesmo frio na barriga quando os macacos alados aparecem ou se emocionando simultaneamente com os versos de ‘Over the Rainbow’. Às vezes, para encontrar o caminho de volta para casa, precisamos seguir o ritmo de quem já conhece a estrada há muito tempo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Mágico de Oz’

Onde assistir ‘O Mágico de Oz’ atualmente?

Além do retorno programado para a TV aberta em outubro de 2026, o filme está disponível permanentemente no catálogo da Max (antiga HBO Max) e para aluguel em plataformas como Apple TV+ e Google Play.

Qual a relação entre ‘O Mágico de Oz’ e o filme ‘Wicked’?

‘Wicked’ é uma prequela que conta a história das bruxas de Oz antes da chegada de Dorothy. O filme de 1939 serviu de base visual para muitos elementos de ‘Wicked’, como o design da Cidade das Esmeraldas e a caracterização da Bruxa Má.

O filme de 1939 é baseado em um livro?

Sim, o filme é uma adaptação do livro infantil ‘The Wonderful Wizard of Oz’, escrito por L. Frank Baum e publicado originalmente em 1900. O sucesso do filme acabou superando a popularidade da obra literária original.

Quanto tempo dura ‘O Mágico de Oz’?

O filme tem uma duração enxuta de 1 hora e 42 minutos. É considerado um dos roteiros mais precisos de Hollywood, sem cenas excedentes.

Por que os sapatinhos são de rubi no filme e de prata no livro?

A mudança foi puramente técnica e estética: os produtores do filme queriam destacar a nova tecnologia Technicolor, e o vermelho rubi brilhava muito mais intensamente na tela colorida do que o prata original.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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