Analisamos como a introdução da Morte na 5ª temporada de ‘Supernatural’ elevou a série ao status de ópera cósmica, mas também criou o problema de escala que prejudicou as temporadas finais. Entenda por que a saída de Julian Richings marcou o fim da coerência narrativa do show.
Existem momentos na televisão que funcionam como uma fronteira invisível, um “antes e depois” tão nítido que altera permanentemente o DNA de uma obra. Em ‘Supernatural’, esse divisor de águas tem nome, um Cadillac branco 1959 e uma trilha sonora de gelar o sangue. A introdução da Morte Supernatural no episódio ‘Two Minutes to Midnight’ (5×21) não foi apenas uma das melhores estreias de personagem da história; foi o ponto de inflexão onde o show deixou de ser uma caçada familiar para se tornar uma ópera cósmica — um movimento audacioso que, ironicamente, pavimentou o caminho para os excessos que desgastariam a franquia anos depois.
A Morte e a expansão da cosmologia: O teto de vidro de Kripke
Para entender o impacto daquela cena em Chicago, é preciso lembrar o contexto de 2010. Eric Kripke estava encerrando seu plano original de cinco anos. O confronto entre Michael e Lucifer era o ápice prometido, o teto de vidro do poder narrativo. E então, surge Julian Richings. Sem explosões ou efeitos de CGI datados, a direção de Phil Sgriccia apostou no minimalismo. Um homem pálido, de elegância fúnebre, caminhando em câmera lenta enquanto a versão de Jen Titus para ‘O Death’ transformava a atmosfera em algo pesado, quase irrespirável.
A fotografia de Serge Ladouceur naquela sequência usa um alto contraste que isola Richings da multidão. Quando ele esbarra em um transeunte e o homem cai morto apenas por um toque no ombro, a mensagem foi clara: as regras do jogo tinham acabado de mudar. A Morte Supernatural não era apenas mais um monstro da semana; era uma força fundamental da existência que via a guerra entre o Céu e o Inferno como uma briga irrelevante de crianças em um parquinho.
A cena da pizzaria: Onde o terror encontra a insignificância
A famosa cena da pizzaria, onde a Morte se senta com Dean, é um exercício de tensão psicológica. O contraste entre o pavor físico de Dean (Jensen Ackles) e a calma absoluta da Morte — mais interessada na qualidade da pizza de Chicago do que no apocalipse iminente — estabeleceu um novo padrão de poder. Quando Richings afirma, com uma voz fria e precisa, que é mais velho que Deus e que, um dia, “ceifará o próprio Deus”, a série atingiu seu nível máximo de escala.
Naquele instante, ‘Supernatural’ provou que poderia ser mais do que um procedural de terror; poderia ser uma reflexão sobre a insignificância humana diante do eterno. O problema é que, ao apresentar uma entidade que está acima de tudo, o roteiro criou uma armadilha para si mesmo: como manter o perigo real nas temporadas seguintes?
O erro do ‘Power Creep’: Quando o imensurável vira alvo
O grande triunfo da quinta temporada acabou se tornando o fardo das dez temporadas seguintes. Ao introduzir uma entidade que “ceifaria Deus”, o show caiu no erro da progressão de poder desenfreada (o famoso power creep). Se os Winchesters já tinham jantado com a encarnação do fim, o que mais poderia assustá-los? A resposta da série foi tentar superar o insuperável a cada ano, o que inevitavelmente diluiu a aura de mistério que tornava o personagem de Richings tão especial.
O erro fatal aconteceu na 10ª temporada. A decisão de fazer Dean Winchester matar a personificação da Morte foi o momento em que a série sacrificou sua hierarquia cósmica em favor do choque momentâneo. Ao transformar uma força atemporal em um inimigo que pode ser derrotado com uma lâmina, ‘Supernatural’ removeu o peso das consequências. O que era uma entidade transcendental tornou-se apenas mais um nome em uma lista de alvos, perdendo o respeito que a introdução em ‘Two Minutes to Midnight’ havia construído tão meticulosamente.
De entidade a burocracia: O declínio com Billie e o Vazio
Após a queda do personagem original, a série tentou preencher o vácuo com Billie (Lisa Berry). Embora a performance de Berry trouxesse uma nova energia, a dinâmica mudou de “respeito existencial” para “burocracia cósmica”. A morte deixou de ser o fim inevitável para se tornar uma função administrativa, sujeita a regras convolutas envolvendo o Vazio (The Shadow) e entidades que pareciam saídas de um RPG de fantasia genérico.
Nas temporadas finais, a cosmologia de ‘Supernatural’ tornou-se um emaranhado de conceitos sobrepostos. Ao tentar explicar demais a origem e a função da morte, a série removeu o medo do desconhecido. A ironia é que a mesma porta aberta por Julian Richings para elevar o show a novos patamares foi a porta por onde entraram as tramas excessivamente complexas que alienaram parte do público fiel. No fim, a Morte Supernatural permanece como o maior símbolo do auge criativo da série — e um lembrete de que, às vezes, algumas coisas são mais assustadoras quando permanecem intocáveis.
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Perguntas Frequentes sobre a Morte em Supernatural
Quem interpreta o personagem Morte em Supernatural?
O ator canadense Julian Richings interpretou a versão original e mais icônica da Morte. Posteriormente, após os eventos da 10ª temporada, a atriz Lisa Berry assumiu o manto como Billie (a nova Morte).
Qual é a música da entrada da Morte na 5ª temporada?
A música é uma versão da canção folclórica tradicional ‘O Death’, interpretada pela cantora Jen Titus. Ela foi criada especificamente para o episódio ‘Two Minutes to Midnight’ (5×21).
Em qual episódio a Morte aparece pela primeira vez?
A Morte faz sua estreia oficial no episódio 21 da 5ª temporada, intitulado ‘Two Minutes to Midnight’ (Dois Minutos para a Meia-Noite), durante a famosa sequência em Chicago.
Como a Morte original morre em Supernatural?
No final da 10ª temporada (episódio ‘Brother’s Keeper’), Dean Winchester usa a própria foice da Morte para matá-la, após o Cavaleiro exigir que Dean matasse Sam para remover a Marca de Caim.
Onde posso assistir Supernatural completo?
Atualmente, todas as 15 temporadas de ‘Supernatural’ estão disponíveis no catálogo da Max (antiga HBO Max) e no Prime Video no Brasil.

