‘The Bride!’: Gyllenhaal resgata Mary Shelley como personagem

Analisamos como ‘The Bride!’, de Maggie Gyllenhaal, subverte o mito de Frankenstein ao transformar a Noiva em uma justiceira punk e resgatar Mary Shelley como personagem central. Entenda por que esta versão supera o academicismo de Del Toro ao focar na autonomia feminina.

O ano de 2026 marca o ápice do Prometeu Moderno na cultura pop. Enquanto o público ainda digere a melancolia gótica do ‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro, um projeto mais visceral e disruptivo começa a ganhar forma. Em ‘The Bride!’, Maggie Gyllenhaal não propõe apenas uma refilmagem do clássico de terror; ela opera uma reparação histórica que o cinema evitou por quase um século. É uma obra que entende que o mito de Mary Shelley não pertence apenas aos criadores, mas às suas criaturas negligenciadas.

O erro de Del Toro e o resgate de Mary Shelley

O erro de Del Toro e o resgate de Mary Shelley

A versão de Del Toro, embora visualmente deslumbrante, manteve-se fiel à estrutura clássica: o foco é a dor do Criador e a solidão do Monstro. A Noiva, em sua visão, é um pedido negado, uma ausência que motiva a tragédia. Gyllenhaal inverte esse polo de forma radical. Ao escalar Jessie Buckley para um papel triplo — Ida (a vítima), a Noiva e a própria Mary Shelley — a diretora estabelece um diálogo direto com o prólogo de ‘A Noiva de Frankenstein’ (1935), onde Elsa Lanchester interpretou tanto a autora quanto o monstro.

Mas onde o filme de James Whale usava Shelley apenas como uma moldura elegante, Gyllenhaal a transforma na consciência moral da trama. Shelley aparece como uma voz que organiza o caos, conectando a dor da perda pessoal da autora com a fúria de sua criação. Buckley não está apenas atuando; ela está personificando a evolução da agência feminina: do corpo silenciado de Ida à consciência em chamas da Noiva.

A Noiva como vigilante: Frankenstein encontra o punk

Esqueça a criatura sibilante e assustada que foge de tochas. A Noiva de Buckley, após ser reanimada pela Dra. Euphronious (uma Annette Bening que canaliza uma energia de cientista pragmática e subversiva), decide que não deve gratidão a ninguém. A narrativa se transforma em um road movie de vingança pela Chicago dos anos 30, com uma estética que flerta com o punk e o noir.

O contraste central é o que sustenta o filme: enquanto o Frank de Christian Bale é um ser melancólico em busca de conexão e pertencimento, a Noiva busca retribuição. Ela usa sua segunda chance para caçar aqueles que lucram com a violência contra os vulneráveis, espelhando o destino de sua vida anterior. É uma subversão temática que eleva ‘The Bride!’ a um patamar de crítica sociopolítica raramente visto em produções de grande orçamento, tratando a reanimação não como um milagre científico, mas como uma oportunidade de acerto de contas.

Obsessão por imagem e conexões familiares

Obsessão por imagem e conexões familiares

A profundidade do roteiro de Gyllenhaal se revela em detalhes quase obsessivos. A escolha de Jake Gyllenhaal para viver Ronnie Reed, uma estrela de cinema fictícia pela qual o Monstro desenvolve uma fixação, adiciona uma camada de metalinguagem sobre a cultura da imagem. O Monstro consome cinema para tentar ser humano, enquanto a Noiva quer destruir as estruturas que definem o que é ser humano.

O elenco de apoio, com Peter Sarsgaard e Penélope Cruz, ancora o filme em um realismo sujo, contrastando com a fotografia de Lawrence Sher, que evita o óbvio visual do expressionismo alemão em favor de uma textura mais crua e urbana. Não é um filme que quer ser bonito; é um filme que quer ser sentido como uma cicatriz aberta.

Por que este pode ser o filme definitivo do mito

O cinema sempre tratou a Noiva como uma promessa interrompida — um ápice visual de cinco minutos que terminava em explosão. Ao dar a ela uma motivação que transcende o papel de ‘companheira do monstro’, Gyllenhaal finalmente conclui o arco que Mary Shelley iniciou em 1818. ‘The Bride!’ não é apenas sobre o horror de ser criado por mãos humanas, mas sobre o poder de decidir o que fazer com essa existência imposta. Com estreia prevista para março de 2026, o longa promete ser o contraponto necessário ao academicismo gótico, provando que o verdadeiro monstro nunca foi a criatura, mas o sistema que a tornou necessária.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Bride!’

Qual a data de lançamento de ‘The Bride!’?

O filme tem estreia prevista para 6 de março de 2026 nos cinemas brasileiros, distribuído pela Warner Bros. Pictures.

Quem está no elenco de ‘A Noiva!’ de Maggie Gyllenhaal?

O elenco conta com Jessie Buckley (em papel triplo), Christian Bale como o monstro Frank, Annette Bening como Dra. Euphronious, além de Penelope Cruz, Peter Sarsgaard e Jake Gyllenhaal.

‘The Bride!’ é uma continuação do filme de Guillermo del Toro?

Não. Embora ambos adaptem o mito de Frankenstein, são projetos independentes. O filme de Del Toro (Netflix) é uma abordagem mais clássica e gótica, enquanto o de Gyllenhaal é uma releitura punk e feminista ambientada nos anos 30.

Por que Jessie Buckley interpreta Mary Shelley no filme?

A escolha é um recurso metalinguístico para conectar a criadora original à sua criatura. É também uma homenagem ao filme de 1935, onde a mesma atriz (Elsa Lanchester) interpretou a autora e a Noiva.

Qual é a classificação indicativa do filme?

Devido ao tom sombrio e cenas de violência gráfica, o filme deve receber uma classificação indicativa de 16 ou 18 anos.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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