A ausência de Cressida Cowper na 4ª temporada de ‘Bridgerton’ revela uma falha na premissa de redenção da série. Analisamos como o sumiço da personagem, após uma performance humana de Jessica Madsen, contradiz o discurso de empatia da produção da Netflix.
Existe uma crueldade velada em ‘Bridgerton’ que, muitas vezes, é mascarada pelo brilho excessivo dos bailes e pela saturação das cores pastéis da regência britânica. No entanto, ao iniciarmos a quarta temporada focada na jornada de Benedict e Sophie, o silêncio sobre o destino de uma personagem específica grita mais alto que a orquestra de cordas tocando um cover de Taylor Swift. O desaparecimento de Bridgerton Cressida Cowper não é apenas uma lacuna no elenco; é uma rachadura na própria fundação temática que a série tentou construir: a da redenção feminina.
Para quem acompanha a produção da Netflix com um olhar atento à construção de cena, a trajetória de Cressida na terceira temporada foi um dos pontos mais altos de complexidade. Jessica Madsen entregou uma performance que humanizou a ‘vilã’ de forma que os livros de Julia Quinn jamais ousaram. Vimos o desespero de uma mulher sem rede de segurança emocional, cujo único crime real foi tentar sobreviver em um sistema que a descartaria no momento em que sua juventude perdesse o valor de mercado. Ao ignorar sua existência agora, a série contradiz sua própria premissa de empatia e segundas chances.
A sobrevivência como crime na trajetória de Cressida Cowper
O que torna o exílio de Cressida particularmente amargo é a disparidade de tratamento em relação a outros ‘pecadores’ da ton. Lembremos de Cousin Jack Featherington, que aplicou um golpe financeiro em metade de Mayfair e recebeu uma saída muito menos punitiva do que a de uma jovem que, em um ato de puro pânico social, tentou se passar por Lady Whistledown para evitar um casamento arranjado com um homem três vezes mais velho. A série, que sempre se orgulhou de subverter o olhar masculino, falhou ao punir a ambição de sobrevivência de Cressida com o esquecimento absoluto.
Na terceira temporada, a técnica de figurino de John Glaser usou as roupas de Cressida como uma armadura — mangas bufantes e penteados arquitetônicos que pareciam protegê-la do mundo. Aquela sequência em que ela encara o próprio reflexo no espelho antes do baile final, com uma expressão que oscila entre a fúria e o terror, foi um dos momentos mais honestos da obra. Ali, não estávamos vendo uma antagonista de desenho animado, mas uma vítima da engrenagem do mercado matrimonial. Enquanto Eloise Bridgerton desfruta do privilégio de ser uma rebelde com suporte financeiro, Cressida nunca teve um plano B. Sua queda soa menos como justiça poética e mais como uma punição por ela não ter o sobrenome certo.
O erro de ‘deletar’ a profundidade conquistada
É fundamental pontuar que a versão televisiva de Cressida é uma criação muito superior à sua contraparte literária. Nos livros, ela é bidimensional, uma ferramenta narrativa para criar conflito para Penelope. Na série, a showrunner Jess Brownell deu a ela uma ‘interioridade’ — termo técnico para a profundidade psicológica que justifica as ações de um personagem. Ao dar esse passo e depois simplesmente remover a personagem da narrativa atual, a produção joga fora o investimento emocional que exigiu do espectador.
A quarta temporada foca na história de Cinderela de Sophie, que articula para Benedict uma verdade que Cressida já vivia: a pressão implacável de garantir um futuro antes que o tempo se esgote. A ausência de um diálogo entre essas duas perspectivas — a da ‘mocinha’ pobre e a da ‘vilã’ rica que perdeu tudo — é um desperdício de potencial dramático que enriqueceria o subtexto social da série.
Por que o retorno de Cressida é necessário para a moral da série
Redimir Cressida não significa transformá-la em uma santa, mas permitir que ela cresça fora das pressões tóxicas de Mayfair. Existe uma versão alternativa do final da terceira temporada, mencionada em entrevistas, onde a mãe de Cressida se juntava a ela no exílio. O fato de terem escolhido o final mais isolado sugere que ainda há assuntos inacabados. O silêncio da quarta temporada parece indicar uma covardia narrativa em lidar com as consequências de ter criado uma vilã tão humana.
Um arco de retorno para Cressida seria o teste definitivo para os valores de ‘Bridgerton’. Se a série é realmente sobre amor e segundas chances, por que elas são reservadas apenas para quem é simpático ou bem-conectado? Reconectar Cressida com Eloise seria uma forma poderosa de validar a crítica da série às normas sociais rígidas. No fim das contas, abandonar a personagem é admitir que, se você não consegue se encaixar no molde do romance perfeito, você deixa de existir. Para uma produção que se propõe a ser moderna, essa é uma mensagem perigosamente conservadora.
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Perguntas Frequentes sobre Cressida Cowper em Bridgerton
O que aconteceu com Cressida no final da 3ª temporada?
Após falhar em sua tentativa de se passar por Lady Whistledown e ser rejeitada pela sociedade, Cressida foi enviada por seu pai para viver no País de Gales com uma tia rigorosa, como forma de punição e exílio social.
Cressida Cowper aparece na 4ª temporada de Bridgerton?
Até o momento, a personagem não possui um arco central na 4ª temporada, focada em Benedict. Seu sumiço é criticado por fãs que esperavam ver as consequências de seu exílio e uma possível redenção.
A história de Cressida é igual à dos livros?
Não. Na série da Netflix, Cressida ganhou muito mais profundidade e uma amizade complexa com Eloise. Nos livros de Julia Quinn, ela permanece como uma antagonista unidimensional sem um arco de sofrimento detalhado.
Jessica Madsen saiu do elenco de Bridgerton?
Não houve anúncio oficial de saída definitiva. Embora sua participação tenha sido reduzida devido ao exílio da personagem na trama, a atriz continua ligada ao universo da série, deixando aberta a possibilidade de retornos futuros.

