‘A Lenda de Tarzan’ ressurge na Prime Video após fracasso

Analisamos por que ‘A Lenda de Tarzan’, com Alexander Skarsgård e Margot Robbie, superou o fracasso de 2016 para se tornar um sucesso no streaming. Entenda como o tom sombrio de David Yates e a crítica ao colonialismo ganharam nova relevância dez anos depois.

Existe um fardo invisível em tentar reinventar um ícone que a cultura pop já exauriu por mais de um século. Quando ‘A Lenda de Tarzan’ estreou em 2016, o público sofria de uma fadiga crônica de reboots e a crítica não teve piedade. No entanto, dez anos depois, o longa de David Yates encontrou um refúgio inesperado no catálogo da Prime Video, provando que o tempo — e a tela menor — podem ser muito mais generosos com obras incompreendidas do que o frenesi das bilheterias.

O revisionismo de David Yates e o fim do deslumbramento

O revisionismo de David Yates e o fim do deslumbramento

Assistir ao filme hoje, despojado da pressão de ser o novo ‘Harry Potter’ de Yates, revela uma obra muito mais interessante do que os 36% de aprovação no Rotten Tomatoes sugerem. Enquanto a animação da Disney de 1999 apostava no deslumbramento e na trilha solar de Phil Collins, a versão de 2016 escolhe um caminho sombrio. Não é uma história de origem; é um conto sobre o retorno forçado à selvageria.

Yates trouxe para a selva a estética dessaturada e o ritmo deliberado de seus últimos filmes na saga bruxa. Há uma melancolia tátil na fotografia de Henry Braham que distancia o filme das aventuras coloridas da ‘Sessão da Tarde’. Na sequência em que Tarzan confronta seu “irmão” gorila, Akut, a tensão não vem do espetáculo, mas do silêncio opressor que precede o impacto físico. É um cinema de atmosfera que, na época, foi confundido com falta de energia.

Alexander Skarsgård: O protótipo do ‘Homem do Norte’

É fascinante observar a performance de Alexander Skarsgård sob a luz de sua carreira posterior. Antes de atingir o ápice da brutalidade em ‘O Homem do Norte’, ele já demonstrava aqui uma capacidade única de atuar através do corpo. Skarsgård não entrega um Tarzan caricato; ele interpreta um homem assombrado pelo próprio instinto, alguém que parece fisicamente desconfortável dentro de roupas de linho aristocráticas.

Sua química com a Jane de Margot Robbie também merece uma reavaliação. Robbie evita o arquétipo da donzela indefesa, trazendo uma resistência que ancora o filme emocionalmente. Se hoje ela é a força por trás de ‘Barbie’, em 2016 ela já mostrava que não aceitaria papéis unidimensionais. A dinâmica entre os dois é o que impede o filme de se tornar apenas um exercício técnico frio de CGI.

O vilão de Christoph Waltz e o peso do colonialismo

O vilão de Christoph Waltz e o peso do colonialismo

O filme ousa tocar em feridas históricas ao focar na exploração política do Congo pelo rei Leopoldo II da Bélgica. O vilão Leon Rom, vivido por Christoph Waltz, é a personificação dessa maldade burocrática. Waltz usa a polidez ameaçadora que o consagrou em ‘Bastardos Inglórios’, mas aqui há um sadismo mais contido, quase clerical, que torna o conflito mais denso do que o esperado para um blockbuster de verão.

O CGI dos grandes símios, que em 2016 ainda lutava contra o “vale da estranheza”, hoje parece mais palatável. Nossos olhos se acostumaram com essa gramática visual, permitindo que foquemos menos nos pixels e mais na narrativa sólida e no elenco de peso que inclui Samuel L. Jackson como o contraponto moral e histórico da trama.

Por que o streaming redimiu ‘A Lenda de Tarzan’?

O fracasso comercial nos cinemas deveu-se ao orçamento astronômico (US$ 180 milhões) e a um público saturado de heróis torturados. No streaming, a barreira de entrada é menor. O espectador da Prime Video não busca a revolução do cinema, mas uma narrativa bem produzida que convide à imersão. As nuances políticas e o ritmo cadenciado de Yates funcionam melhor na intimidade do lar do que no ambiente disperso das salas de shopping.

‘A Lenda de Tarzan’ não é perfeito, mas tem personalidade — algo raro em produções atuais. Ele ousa ser sério e político demais para uma história baseada em polpas de aventura de Edgar Rice Burroughs. Se você ignorou o chamado da selva em 2016, a Prime Video oferece a chance de corrigir esse julgamento.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘A Lenda de Tarzan’

Onde assistir ao filme ‘A Lenda de Tarzan’?

Atualmente, ‘A Lenda de Tarzan’ (2016) está disponível no catálogo da Prime Video e também pode ser encontrado para aluguel em plataformas como Apple TV e Google Play.

O filme é uma continuação da animação da Disney?

Não. Embora ambos se baseiem na obra de Edgar Rice Burroughs, o filme de David Yates é uma reimaginação independente, com um tom muito mais maduro e realista do que a animação de 1999.

‘A Lenda de Tarzan’ é baseado em fatos reais?

A história de Tarzan é fictícia, mas o contexto histórico é real. O personagem Leon Rom (Christoph Waltz) e o George Washington Williams (Samuel L. Jackson) foram figuras históricas reais envolvidas no Congo Belga sob o domínio do Rei Leopoldo II.

Qual a classificação indicativa do filme?

O filme tem classificação indicativa de 12 anos no Brasil, devido a sequências de ação e violência, além de temas políticos mais complexos.

Por que o filme fracassou nos cinemas em 2016?

O fracasso foi principalmente financeiro: o custo de produção e marketing foi muito alto (cerca de US$ 180 milhões). Além disso, a crítica na época considerou o tom do filme excessivamente sério e sombrio para uma aventura de verão.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também