‘A Árvore da Vida’: O encontro entre a obra de Malick e a vida de Roger Ebert

Analisamos a conexão visceral entre ‘A Árvore da Vida’ Roger Ebert e a própria mortalidade do crítico. Entenda por que o épico de Terrence Malick deixou de ser apenas cinema para se tornar uma experiência de reconhecimento pessoal para um dos maiores nomes da crítica mundial.

Roger Ebert escreveu milhares de críticas ao longo de quatro décadas. Algumas são brilhantes, outras puramente funcionais. Mas sua análise de ‘A Árvore da Vida’ Roger Ebert é um caso à parte no jornalismo cultural: não é apenas uma avaliação técnica, é uma confissão de fim de vida.

Em 2011, quando Terrence Malick lançou seu épico existencial, Ebert estava a dois anos de sua morte. O câncer de tireoide já havia roubado sua voz física e alterado drasticamente sua fisionomia. Quando ele se sentou para assistir a um filme que questiona o silêncio de Deus e a efemeridade da memória, a colisão entre obra e espectador tornou-se devastadora. Para Ebert, o filme não era sobre a família O’Brien; era sobre ele mesmo.

O que Ebert viu na ‘Graça’ de Malick que outros críticos ignoraram

O que Ebert viu na 'Graça' de Malick que outros críticos ignoraram

‘A Árvore da Vida’ dividiu o Festival de Cannes entre vaias e aplausos fervorosos. Enquanto parte da crítica se perdia em debates sobre a ‘pretensão’ de Malick, Ebert foi direto ao ponto emocional: “Não sei quando um filme conectou tão imediatamente com minha própria experiência pessoal”.

Essa afirmação é colossal vinda de um homem que assistiu a mais de dez mil filmes. Ebert não estava elogiando o roteiro — ele estava reconhecendo a textura da própria infância. Malick, auxiliado pela fotografia transcendental de Emmanuel Lubezki, utiliza luz natural e ângulos baixos para capturar como uma criança enxerga o mundo: um lugar de gigantes, sombras longas e mistérios teológicos escondidos no quintal.

A estrutura da memória: Por que o filme não é linear

Terrence Malick abandonou a narrativa tradicional de seus filmes anteriores, como ‘Badlands’ ou ‘Cinzas no Paraíso’, para adotar uma lógica de fluxo de consciência. A infância de Jack no Texas dos anos 50 não é contada, é sentida em fragmentos.

Vemos o contraste entre o pai (Brad Pitt), que encarna a ‘Natureza’ — dura, competitiva e implacável — e a mãe (Jessica Chastain), que representa a ‘Graça’ — o perdão e a aceitação do belo. Ebert entendeu que essa estrutura espelha como o cérebro humano funciona diante da mortalidade. Não lembramos de nossa vida como um filme de três atos; lembramos de sensações: o toque de uma mão, o som do vento nas árvores, o peso de uma culpa não resolvida.

As sequências cósmicas e o ‘piscar de olhos’ da existência

As sequências cósmicas e o 'piscar de olhos' da existência

A sequência de 20 minutos que mostra o Big Bang e o surgimento da vida (incluindo os polêmicos dinossauros) foi o ponto de ruptura para muitos. Mas para um crítico que sabia que seus dias estavam contados, essa perspectiva cósmica era o coração do filme. Malick coloca o drama doméstico de uma família comum dentro da escala do universo para provar um ponto: somos insignificantes e, ao mesmo tempo, infinitamente preciosos.

Ebert defendeu que essas cenas não eram um documentário da National Geographic, mas uma oração visual. Ao contextualizar a dor de Jack dentro da história das galáxias, o filme oferece um conforto estoico que ressoou profundamente com o estado de espírito de Ebert em seus anos finais.

Um legado de sensibilidade sobre técnica

Hoje, ‘A Árvore da Vida’ é frequentemente citado em listas de melhores filmes do século XXI, mas o texto de Ebert continua sendo sua porta de entrada mais honesta. Ele nos ensinou que a grande crítica de cinema não nasce da frieza analítica, mas da capacidade de se deixar vulnerável diante da tela.

Se você busca um filme com começo, meio e fim claros, fuja de Malick. Mas se você busca uma obra que funcione como um espelho para suas próprias perdas e esperanças, ‘A Árvore da Vida’ é essencial. Como Ebert bem notou, é um filme que não pede para ser entendido, mas para ser vivenciado — de preferência, em uma sala escura e com o coração aberto.

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Perguntas Frequentes sobre ‘A Árvore da Vida’ e Roger Ebert

Qual foi a nota que Roger Ebert deu para ‘A Árvore da Vida’?

Ebert deu a nota máxima de 4 estrelas e incluiu o longa em sua lista de melhores filmes de todos os tempos na votação da Sight & Sound em 2012.

Onde posso assistir ‘A Árvore da Vida’?

O filme está disponível para aluguel e compra em plataformas como Apple TV+ e Google Play. A disponibilidade em serviços de assinatura como Prime Video ou Mubi varia conforme o mês.

O que significam os dinossauros no filme?

Os dinossauros representam o surgimento da consciência e da compaixão (a ‘Graça’) na natureza. É o momento em que um predador decide não atacar uma presa ferida, espelhando os temas morais do filme.

Preciso entender de teologia para gostar do filme?

Não. Embora o filme use referências bíblicas (como o Livro de Jó), ele trata de temas universais como luto, infância, relação entre pais e filhos e a busca por sentido na vida.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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