‘The Beauty’: A verdade (e a mentira) sobre Christopher Cross na série

O monólogo viral de Antonio em ‘The Beauty’ culpa a aparência de Christopher Cross pelo fim de sua fama, mas a história real é mais complexa. Analisamos como a série usa essa distorção histórica para construir o caráter de seu vilão e por que o declínio do Soft Rock foi um fenômeno cultural, não apenas estético.

Existe um tipo de monólogo televisivo que transcende a cena e se torna um vírus cultural. O discurso de Antonio sobre Christopher Cross em ‘The Beauty: Lindos de Morrer’ é exatamente esse momento — três minutos de Anthony Ramos explicando, com uma convicção quase messiânica, como a MTV assassinou a carreira de um ícone porque ele era “feio demais” para a era da imagem. É hipnótico, cruelmente lógico e, em grande parte, uma distorção histórica deliberada.

A genialidade da cena não reside em um erro de pesquisa dos roteiristas liderados por Ryan Murphy, mas sim na construção de um narrador não confiável. A mentira de Antonio não é um furo de roteiro; é a fundação de sua própria tragédia pessoal.

A tese de Antonio: Por que a série culpa a MTV pela queda de Christopher Cross

A tese de Antonio: Por que a série culpa a MTV pela queda de Christopher Cross

No terceiro episódio da produção da FX, Antonio — o assassino que ostenta a face de um homem de 34 anos, mas carrega o peso de 65 — decide doutrinar Jeremy, seu aprendiz relutante. O objeto de estudo é Christopher Cross, o fenômeno que em 1981 realizou o feito inédito de vencer os quatro principais Grammys (Álbum, Canção, Gravação do Ano e Revelação) em uma única noite.

Segundo o personagem de Ramos, a queda de Cross foi um ato de eugenia estética executado pela indústria fonográfica. No momento em que o público, condicionado pela estética plástica da MTV, viu um homem comum, acima do peso e sem o sex appeal de um Duran Duran, a música parou de importar. Para Antonio, a beleza é a única moeda que não desvaloriza, e Cross teria ido à falência estética. É uma narrativa sedutora porque confirma nossos piores instintos sobre a superficialidade do pop.

A realidade do Soft Rock: O declínio foi cultural, não apenas visual

Embora a tese da série tenha um fundo de verdade — a imagem tornou-se, sim, um pilar indissociável do sucesso nos anos 80 —, atribuir o declínio de Christopher Cross exclusivamente ao seu rosto é um reducionismo histórico. O que ‘The Beauty’ omite estrategicamente é que o Soft Rock e o Adult Contemporary estavam sofrendo uma erosão estrutural.

Em 1984, o som de ‘Sailing’ soava como um eco de uma década que o público jovem queria enterrar. A New Wave, o Synth-pop e o Rock de arena estavam redefinindo as paradas. Gigantes como Fleetwood Mac e Chicago também precisaram se reinventar drasticamente ou enfrentar o ostracismo, independentemente de serem considerados “bonitos” ou não. Cross ainda venceu um Oscar por ‘Arthur’s Theme’ em 1981, provando que sua relevância persistiu mesmo após sua aparência se tornar pública. O problema não era a calvície de Cross; era que o mundo agora queria sintetizadores e neon, não baladas de iate.

Por que a série PRECISA que Antonio esteja errado

Por que a série PRECISA que Antonio esteja errado

A inteligência de ‘The Beauty: Lindos de Morrer’ reside em usar Christopher Cross como um espelho da psicose de Antonio. Ele é um homem que sacrificou sua identidade real por uma carcaça perfeita. Ele trabalha para uma corporação que comercializa a vaidade como uma droga de sobrevivência.

Antonio precisa acreditar que Cross foi destruído pela feiura. Se ele admitir que o talento pode ser vítima de meras mudanças de ciclo cultural ou azar, todo o seu sacrifício — o de viver uma mentira estética para ter poder — perde o sentido. O monólogo não é uma análise musical; é um mecanismo de defesa. Ele justifica sua existência monstruosa projetando no passado uma ditadura da beleza que ele mesmo ajuda a policiar no presente.

‘The Beauty’ vs ‘A Substância’: Diferentes abordagens do horror estético

É impossível não traçar paralelos entre a série e o filme ‘A Substância’ (2024). Enquanto o longa de Coralie Fargeat mergulha no body horror visceral e no conflito interno da auto-aversão, ‘The Beauty’ expande o tema para um thriller conspiratório e procedural. A série usa o FBI (com Evan Peters e Rebecca Hall) para investigar como essa obsessão se torna sistêmica.

Onde o filme é um grito de dor individual, a série é um exame de como a sociedade aceita mentiras confortáveis para justificar comportamentos superficiais. O monólogo de Cross funciona como o manifesto dessa distopia: uma história falsa contada de forma tão bela que se torna impossível não acreditar.

O veredito: O uso brilhante da desinformação narrativa

Ao escolher Christopher Cross como exemplo, a série faz um jogo metalinguístico com o espectador. Se você assistiu à cena e saiu convencido de que a MTV foi a única vilã, você foi seduzido pelo carisma de Antonio, exatamente como Jeremy. Você caiu na armadilha da beleza.

Quanto ao verdadeiro Christopher Cross, ele continua sendo um dos músicos mais respeitados de sua geração, performando para plateias que ainda se emocionam com sua voz, provando que, fora da ficção niilista de Ryan Murphy, a arte sobrevive à imagem. A série nos lembra que, às vezes, as histórias mais convincentes são aquelas que usamos para esconder nossas próprias inseguranças.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Beauty’ e Christopher Cross

A história contada em ‘The Beauty’ sobre Christopher Cross é real?

Parcialmente. Christopher Cross realmente teve uma queda de popularidade com a ascensão da MTV, mas historiadores musicais atribuem isso à mudança de gosto do público (do Soft Rock para a New Wave) e não apenas à sua aparência física.

Onde assistir à série ‘The Beauty: Lindos de Morrer’?

A série é uma produção original da FX e está disponível no Brasil através do Disney+, seguindo o cronograma de lançamentos internacionais da plataforma.

Quem interpreta Antonio na série?

O personagem Antonio é interpretado por Anthony Ramos (conhecido por ‘Hamilton’ e ‘Em um Bairro de Nova York’). Na trama, ele vive um homem de 65 anos que aparenta ter 34 devido aos efeitos da droga Beauty.

‘The Beauty’ é baseada em algum livro ou HQ?

Sim, a série é baseada na história em quadrinhos homônima criada por Jeremy Haun e Jason A. Hurley, publicada pela Image Comics, que explora uma DST que torna as pessoas fisicamente perfeitas.

Christopher Cross ainda está na ativa?

Sim. O cantor continua gravando e fazendo turnês mundiais. Ele é um dos poucos artistas a ter vencido os quatro principais prêmios Grammy em um único ano, um recorde que manteve por décadas.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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