‘101 Dálmatas’: a vilania de Cruella e o estilo que a Disney perdeu

No 65º aniversário de ‘101 Dálmatas’, analisamos como a Disney criou sua vilã mais visceral e por que a técnica de animação Xerográfica, odiada por Walt Disney, definiu a estética do estúdio por décadas. Uma reflexão sobre o que o cinema de animação perdeu na era da humanização dos vilões.

Existe um tipo de vilania no cinema que, em 2026, parece ter sido extinta por um excesso de cautela editorial. ‘101 Dálmatas’ (1961) completa 65 anos de lançamento neste 25 de janeiro, e revisitar a obra é entender como a Disney de Walt era mais disposta a correr riscos do que a corporação multibilionária de hoje. Cruella de Vil não pede desculpas, não tem um trauma de infância que justifique seu sadismo e não busca redenção. Ela é o mal em estado puro — e é exatamente isso que a torna imortal.

Cruella de Vil: a vilã que a Disney não teria coragem de criar hoje

Cruella de Vil: a vilã que a Disney não teria coragem de criar hoje

Diferente das releituras contemporâneas, como a versão de 2021 estrelada por Emma Stone, a Cruella original não é uma anti-heroína incompreendida. Ela é uma sociopata da elite londrina. Sua introdução é uma aula de character design: a fumaça tóxica do cigarro, o contraste gritante entre o preto e o branco de seu cabelo e a magreza cadavérica envolta em peles volumosas. Ela não precisa de diálogos expositivos para dizer quem é.

O que mais impressiona na revisão atual é a crueza das ameaças. Cruella não usa eufemismos; ela fala abertamente em afogar os filhotes ou ‘bater em suas cabeças’. É uma vilania tátil, doméstica e, por isso, muito mais perturbadora do que vilões intergalácticos que destroem planetas. A Disney moderna frequentemente cai na armadilha de humanizar o antagonista para torná-lo ‘complexo’, mas ao dar um motivo para Cruella, retira-se dela o que a tornava icônica: a imprevisibilidade do mal gratuito.

Xerografia: o ‘defeito’ técnico que virou assinatura visual

Há uma ironia histórica no visual de ‘101 Dálmatas’. O estilo de linhas pretas aparentes e traços que parecem esboços a lápis era algo que Walt Disney detestava pessoalmente. Após o custo astronômico e o relativo fracasso comercial de ‘A Bela Adormecida’ (1959), o estúdio precisava baratear o processo. A solução foi a Xerografia, técnica que transferia os desenhos dos animadores diretamente para as células, eliminando o processo manual de arte-finalização.

O resultado, orquestrado pelo diretor de arte Ken Anderson, deu ao filme uma textura moderna e urbana que o diferencia de qualquer conto de fadas anterior. Observe a cena da ‘Latida ao Crepúsculo’ (Twilight Bark): os cenários têm uma qualidade de aquarela inacabada, com linhas que não se fecham perfeitamente. Isso confere ao filme uma urgência e uma energia nervosa que combinam perfeitamente com a perseguição em Londres. O que Walt considerava um erro técnico tornou-se o padrão estético da Disney por quase trinta anos, influenciando de ‘Os Aristogatas’ a ‘Robin Hood’.

A inteligência narrativa de Pongo e Perdita

A inteligência narrativa de Pongo e Perdita

Enquanto as animações atuais tendem a seguir a fórmula da ‘protagonista desajeitada e determinada’, ‘101 Dálmatas’ confia em uma estrutura narrativa mais madura. O filme gasta tempo estabelecendo a rotina doméstica e o vínculo emocional entre os cães e seus ‘animais de estimação humanos’ (Roger e Anita). Quando o sequestro acontece, o peso da perda é real.

Uma das sequências mais brilhantes — e frequentemente subestimada — é a dos filhotes assistindo televisão na mansão de Cruella. Há uma metalinguagem ali: cães assistindo a um show de cães na TV, completamente alheios ao perigo iminente representado por Jasper e Horace. É um momento de respiro que constrói uma tensão hitchcockiana. O filme confia que as crianças na audiência conseguem processar o silêncio e a espera, algo que o ritmo frenético do cinema de animação atual raramente permite.

Legado: por que o clássico de 1961 ainda é superior às versões live-action

As tentativas da Disney de traduzir ‘101 Dálmatas’ para o live-action (tanto em 1996 quanto em 2021) sempre esbarram no mesmo problema: a perda da expressividade elástica que só a animação permite. A Cruella de Glenn Close é magnífica, mas a Cruella animada de Marc Davis desafia as leis da anatomia para transmitir fúria e obsessão.

Ao tentar explicar a vilã, a Disney perdeu o que fazia a história funcionar. ‘101 Dálmatas’ não é sobre a origem da moda ou traumas maternos; é um thriller de sobrevivência sobre família e a resistência contra uma força da natureza imparável e cruel. Sessenta e cinco anos depois, a fumaça verde do cigarro de Cruella ainda paira sobre o cânone da animação como um lembrete de que, às vezes, o mal não precisa de explicação — ele só precisa de um bom par de luvas vermelhas e um casaco de pele.

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Perguntas Frequentes sobre ‘101 Dálmatas’ (1961)

Onde assistir ao filme original de ‘101 Dálmatas’?

A animação clássica de 1961 está disponível permanentemente no catálogo do Disney+. Você também pode encontrar as versões live-action e a continuação no mesmo serviço de streaming.

Por que a animação de ‘101 Dálmatas’ é diferente de ‘Cinderela’ ou ‘Branca de Neve’?

O filme utilizou o processo de Xerografia pela primeira vez em larga escala. Isso permitiu copiar os desenhos dos animadores diretamente para as telas, mantendo as linhas de esboço e dando um visual mais moderno e ‘sujo’ em comparação ao acabamento polido dos filmes anteriores.

Cruella de Vil é baseada em uma pessoa real?

Embora seja uma personagem fictícia do livro de Dodie Smith, o animador Marc Davis inspirou-se na personalidade e na magreza da atriz Tallulah Bankhead para criar os trejeitos e a voz de Cruella na animação.

Qual a idade recomendada para assistir a ‘101 Dálmatas’?

A classificação indicativa é Livre. No entanto, pais de crianças muito sensíveis devem notar que o filme contém cenas de suspense e ameaças diretas contra animais, o que pode ser intenso para os menores.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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