‘A História Sem Fim’: por que o clássico de 1984 ainda define o gênero fantasia

Analisamos por que ‘A História Sem Fim’ (1984) transcende a nostalgia para se tornar o pilar da fantasia moderna. Descubra como o filme usa o ‘Nada’ como metáfora para a depressão e por que seus efeitos práticos ainda superam o CGI contemporâneo em peso emocional.

Existe um tipo de filme que você assiste na infância e passa a vida inteira carregando como um amuleto. ‘A História Sem Fim’ é o exemplo máximo disso — mas não pelos motivos óbvios da nostalgia oitentista. Não é apenas sobre os efeitos práticos charmosos de 1984 ou Falkor voando contra um céu de estúdio nitidamente pintado. É algo mais visceral: a sensação de que aquele filme entende o peso do isolamento infantil melhor do que qualquer adulto ao redor.

Wolfgang Petersen, vindo do claustrofóbico ‘O Barco: Inferno no Mar’, trouxe para os estúdios da Bavaria Film, em Munique, uma sensibilidade alemã sombria que Hollywood raramente permite em produções para crianças. Quarenta anos depois, o que ele criou não é apenas um clássico, mas o manual definitivo do que faz a fantasia funcionar como gênero transformador.

O manual de Petersen: A estrutura que moldou a fantasia moderna

Bastian é o arquétipo do leitor que busca refúgio. Quando ele se esconde naquele sótão escolar para ler sobre Atreyu e a luta contra o Nada, o filme estabelece o esqueleto de praticamente toda fantasia que veio depois. De ‘Coraline’ a ‘A Viagem de Chihiro’, a lição é a mesma: o mundo fantástico não é uma fuga da realidade, mas um espelho dela.

O que diferencia ‘A História Sem Fim’ de tentativas genéricas é a honestidade brutal. Bastian não é um ‘escolhido’ com poderes latentes; ele é um garoto processando o luto pela mãe e a negligência emocional de um pai que o manda ‘manter os pés no chão’. O filme entende que, para uma criança nessa situação, a imaginação não é um hobby — é um mecanismo de sobrevivência.

Fantasia como metáfora clínica para a depressão

Aqui está o que torna o filme imortal: o Nada não é um vilão com planos de dominação mundial. Ele não tem rosto e não pode ser derrotado com uma espada mágica. O Nada é a representação física da apatia e do desespero. Ele consome Fantasia porque as pessoas perderam a capacidade de sonhar e esperar.

A sequência do Pântano da Tristeza permanece como um dos traumas coletivos mais potentes do cinema, e por uma razão técnica e narrativa brilhante. Artax, o cavalo de Atreyu, não morre por um ferimento ou monstro. Ele afunda porque sucumbe ao desespero. É uma metáfora perfeita para a depressão: a tristeza te torna pesado, e quanto mais você desiste, mais rápido o chão desaparece. Petersen tratou seu público mirim com um respeito intelectual raro, expondo-os à ideia de que a tristeza pode ser fatal se enfrentada sozinho.

O design de mundo que o CGI moderno não consegue replicar

Há uma textura em ‘A História Sem Fim’ que o digital raramente alcança. Comedores de Pedra, Morcegos de Corrida e a Tartaruga Gigante Morla possuem peso. Embora Falkor seja claramente um boneco gigante de 13 metros coberto de pelúcia, há uma alma naqueles olhos animatrônicos que um modelo 3D perfeito dificilmente captura.

A trilha sonora de Klaus Doldinger (com o toque sintetizado de Giorgio Moroder na versão internacional) ancora o filme em uma atmosfera onírica. A música-tema de Limahl não é apenas um hit pop; ela evoca a sensação de uma jornada que não tem fronteiras geográficas, apenas emocionais. A limitação técnica da época forçou soluções criativas que resultaram em um mundo tangível, onde você sente a areia do deserto e a umidade das cavernas.

A quebra da quarta parede como ferramenta de cura

O filme é metalinguístico antes do termo virar moda. Quando a Imperatriz Criança olha diretamente para a câmera e pede que Bastian (e nós) lhe dê um nome, o filme destrói a barreira entre espectador e obra. Não é uma piscadela irônica como em filmes da Marvel; é um apelo desesperado pela preservação da subjetividade.

Quando Bastian finalmente grita o nome da mãe, ele não está apenas salvando um reino de fadas. Ele está aceitando sua perda e transformando sua dor em algo criativo. O filme não termina com ele fugindo da realidade, mas voltando para ela equipado para enfrentar seus medos. É o ‘treino emocional’ que define a grande fantasia: você entra no livro para aprender a viver fora dele.

O legado e o futuro da franquia

Com o anúncio recente de uma nova série de filmes produzida pela See-Saw Films, a pergunta é: eles conseguirão capturar essa melancolia necessária? O risco de um remake é higienizar a história, transformando o Nada em um monstro de fumaça digital e removendo as arestas sombrias que tornam o original tão impactante.

‘A História Sem Fim’ permanece a porta de entrada ideal para o gênero porque não subestima a inteligência emocional do espectador. Ele ensina que a esperança é uma escolha ativa e que, sem imaginação, o mundo real se torna um lugar vazio e perigoso. Quarenta anos depois, ainda estamos todos tentando não afundar no pântano, esperando pelo nosso próprio dragão da sorte.

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Perguntas Frequentes sobre ‘A História Sem Fim’

Onde posso assistir ‘A História Sem Fim’ atualmente?

O filme está disponível para streaming na Max (antiga HBO Max) e também pode ser alugado ou comprado em plataformas como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play Filmes.

Qual é o nome que Bastian grita no final do filme?

Bastian grita ‘Moonchild’ (Criança da Lua, ou ‘Filha da Lua’ na dublagem clássica). No contexto da história, este era o nome da mãe falecida de Bastian, simbolizando sua aceitação do luto para salvar Fantasia.

Por que o autor do livro odiou o filme de 1984?

Michael Ende, autor da obra original, achou que o filme transformou sua história filosófica em um ‘espetáculo comercial’. Ele chegou a processar a produção para retirar seu nome dos créditos principais, chamando o filme de ‘um melodrama kitsch’.

‘A História Sem Fim’ terá um remake ou continuação?

Sim. Em 2024, foi anunciado que a See-Saw Films (de ‘O Discurso do Rei’) adquiriu os direitos para uma nova série de filmes que promete adaptar a obra de Michael Ende com mais fidelidade do que a versão de 1984.

Qual a classificação indicativa do filme?

O filme tem classificação Livre (L), mas pais devem estar cientes de que algumas cenas, como a morte de Artax no Pântano da Tristeza e o confronto com o lobo Gmork, podem ser intensas ou assustadoras para crianças muito pequenas.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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