Analisamos por que ‘A Chegada’ de Denis Villeneuve se consolidou como uma obra-prima dez anos após seu lançamento. Explore como o filme usa a linguística e a montagem para questionar nossa percepção do tempo e a coragem por trás da aceitação radical de Louise Banks.
Existe um tipo de ficção científica que não envelhece — ele amadurece. ‘A Chegada’, dirigido por Denis Villeneuve, pertence a essa categoria rara. Lançado originalmente em 2016, o que parecia ser apenas mais um blockbuster de ‘primeiro contato’ se revelou, com o passar de uma década, uma das meditações mais profundas do cinema sobre a dor da escolha e a natureza não-linear da existência.
A montagem como ilusão: como Villeneuve nos engana
Na primeira vez que assistimos a ‘A Chegada’, caímos na armadilha narrativa de Villeneuve junto com a protagonista Louise Banks (Amy Adams). As sequências iniciais com sua filha parecem flashbacks convencionais, um recurso padrão para estabelecer peso emocional. No entanto, a genialidade da direção reside em usar a gramática cinematográfica tradicional contra o próprio espectador.
A revelação de que aquelas memórias são, na verdade, flash-forwards não é apenas um plot twist barato. É a estrutura do filme mimetizando seu tema central: a linguagem dos heptapods. Ao aprender o idioma alienígena, o cérebro de Louise é ‘reconfigurado’ (baseado na hipótese real de Sapir-Whorf) para perceber o tempo de forma simultânea. Villeneuve faz o mesmo conosco: ele nos ensina a ler o filme de forma linear para depois nos forçar a reinterpretar cada frame sob uma ótica circular.
O silêncio de Amy Adams: a atuação mais difícil da década
É um erro comum da Academia ignorar performances em ficção científica, mas o trabalho de Amy Adams aqui é um estudo de caso em contenção. Ela precisa interpretar uma mulher que está descobrindo o futuro enquanto tenta manter a sanidade no presente. Observe a cena em que ela entra na nave pela primeira vez; não há o deslumbramento exagerado típico do gênero, mas uma vulnerabilidade física real, quase tátil.
Adams modula sua performance para que, nas revisitas, percebamos que seu olhar ‘vazio’ no início do filme não é luto pelo que passou, mas o peso esmagador de saber tudo o que ainda virá. É uma das atuações mais subestimadas da história recente, onde o drama não está no diálogo, mas na micro-expressão de quem carrega o segredo do tempo.
A técnica a serviço da filosofia: fotografia e som
O diretor de fotografia Bradford Young evita a estética estéril e excessivamente iluminada de muitos sci-fis. Em vez disso, ele usa tons baixos, névoa e luz natural, criando uma atmosfera que parece um sonho do qual não conseguimos acordar. As naves — os ‘conchas’ — não parecem tecnologia humana; parecem pedras ancestrais flutuando, algo que evoca mais o misticismo do que a engenharia.
Complementando o visual, a trilha sonora do saudoso Jóhann Jóhannsson (com a icônica ‘On the Nature of Daylight’ de Max Richter fechando o arco) utiliza texturas vocais distorcidas que soam como uma linguagem em formação. O som não é apenas acompanhamento; é a representação auditiva da desorientação de Louise. Não há distinção sonora entre as cenas do futuro e do presente, reforçando que, para a consciência da protagonista, essas barreiras caíram.
Aceitação radical: o verdadeiro coração do filme
O que separa ‘A Chegada’ de 99% das histórias de viagem no tempo é a ausência de paradoxos ou tentativas de mudar o destino. O filme apresenta um determinismo sereno. Louise vê que sua filha morrerá jovem e que seu casamento irá desmoronar. Mesmo assim, ela diz ‘sim’.
Muitos críticos na época debateram se a escolha de Louise seria egoísta. Mas essa leitura ignora o ponto filosófico de Villeneuve: se a vida é uma sequência de momentos que acontecem simultaneamente, a dor da perda não anula a beleza da existência; ela é parte integrante da mesma tapeçaria. O filme nos desafia a uma aceitação radical: você viveria sua vida, com todas as tragédias incluídas, se soubesse exatamente como ela termina?
Por que Denis Villeneuve se tornou o mestre do gênero
‘A Chegada’ foi o divisor de águas que permitiu a Villeneuve assumir projetos como ‘Blade Runner 2049’ e ‘Duna’. Ele provou que o público está disposto a acompanhar narrativas lentas e cerebrais, desde que o núcleo emocional seja verdadeiro. Ele trata a ficção científica como literatura de alto nível, confiando na inteligência do espectador para montar o quebra-cabeça sem exposições didáticas irritantes.
Dez anos depois, o filme permanece impecável porque suas questões não dependem de tecnologia, mas da condição humana. É uma obra que exige ser revista — não para entender a trama, mas para sentir o peso daquela escolha final. Se você ainda não o revisitou, faça-o. ‘A Chegada’ é o raro exemplo de um filme que, quanto mais o tempo passa (linearmente para nós), mais ele se torna atemporal.
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Perguntas Frequentes sobre ‘A Chegada’
Qual é o significado do final de ‘A Chegada’?
O final revela que Louise Banks não está tendo lembranças do passado, mas visões do futuro. Ao aprender a língua dos heptapods, ela passa a perceber o tempo de forma não-linear, vendo o nascimento e a morte de sua filha simultaneamente ao presente.
‘A Chegada’ é baseado em qual livro?
O filme é uma adaptação do conto ‘História da Sua Vida’ (Story of Your Life), escrito por Ted Chiang e publicado na coletânea de contos de mesmo nome.
Por que os alienígenas vieram para a Terra em ‘A Chegada’?
Os heptapods vieram oferecer sua linguagem à humanidade como uma ‘ferramenta’ ou ‘arma’. Eles explicam que precisarão da ajuda dos humanos daqui a 3.000 anos, e dar aos humanos a percepção não-linear do tempo é o primeiro passo para essa colaboração futura.
O que é a hipótese de Sapir-Whorf mencionada no filme?
É uma teoria real da linguística que sugere que a língua que uma pessoa fala influencia ou determina sua forma de pensar e perceber a realidade. No filme, aprender a língua alienígena altera fisicamente a percepção temporal de Louise.
Onde posso assistir ‘A Chegada’ de Denis Villeneuve?
Atualmente, o filme está disponível em plataformas de streaming como Netflix e Paramount+, além de estar disponível para aluguel digital na Apple TV e Google Play.

