‘Honey Don’t!’: Chris Evans vive líder de seita em noir de Ethan Coen

Analisamos como ‘Honey Don’t!’ usa o carisma de Chris Evans para subverter sua imagem de herói em um neo-noir ácido. Descubra por que a ‘trilogia de filme B’ de Ethan Coen funciona melhor no streaming do que no cinema.

Assistir a um filme de Ethan Coen sem a parceria de seu irmão Joel é como ouvir o disco solo de um guitarrista de banda lendária: o timbre está lá, mas a estrutura da canção mudou. ‘Honey Don’t!’ Netflix é o exemplo perfeito dessa nova fase. O filme é um neo-noir solar, tingido de humor ácido, que parece mais interessado em se divertir com as convenções do gênero do que em desconstruí-las com a precisão cirúrgica de ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’.

Após uma passagem discreta pelos cinemas em 2025, o longa chega ao streaming em 3 de fevereiro de 2026. A grande questão não é se o filme alcança o status de clássico — ele não alcança. O ponto de interesse aqui é a subversão absoluta de Chris Evans, que entrega sua performance mais corajosa desde que pendurou o escudo de vibrânio.

A perversão do herói: Chris Evans e o Reverendo Drew Devlin

Evans passou mais de uma década personificando a bússola moral do cinema em Steve Rogers. Em ‘Honey Don’t!’, ele utiliza essa mesma aura de ‘bom moço’ para criar algo profundamente sinistro. O Reverendo Drew Devlin não é o vilão de caricatura; ele é o manipulador carismático que usa a confiança que o público projeta em Evans como arma.

Há uma sequência específica, filmada com uma luz quase divina pela diretora de fotografia Ari Wegner (indicada ao Oscar por ‘Ataque dos Cães’), em que Devlin prega para sua congregação. O enquadramento mimetiza os discursos heroicos da Marvel, mas o conteúdo é puro veneno narcisista. É um comentário meta-textual brilhante: Coen usa a bagagem cultural de Evans para nos deixar desconfortáveis.

O neo-noir sob a ótica da ‘Trilogia Lésbica de Filme B’

Oficialmente, ‘Honey Don’t!’ é o segundo capítulo do que Ethan Coen define como sua ‘trilogia lésbica de filme B’, iniciada com ‘Garotas em Fuga’. Se o primeiro era um road movie anárquico, este mergulha no noir pulp. Margaret Qualley interpreta Honey O’Donahue, uma investigadora que exala o cansaço dos detetives clássicos, mas com uma energia caótica própria.

A estética do filme foge do noir tradicional de sombras pesadas. Aqui, o perigo acontece sob o sol forte, em cores saturadas que lembram a fotografia de William Eggleston. É um ‘noir de shopping center’, onde o horror se esconde em igrejas de drywall e estacionamentos vazios. A química entre Qualley e Aubrey Plaza — que interpreta uma personagem cujas motivações mudam a cada cena — é o que mantém o filme nos trilhos quando o roteiro decide flertar com o absurdo.

Por que ignorar os 45% no Rotten Tomatoes

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A recepção crítica morna (45% de aprovação) se deve, em grande parte, à comparação inevitável com a filmografia conjunta dos Coen. Sozinho, Ethan é mais bagunçado. O ritmo do terceiro ato é apressado e algumas subtramas — como a participação de Charlie Day — parecem pertencer a outro filme. No entanto, é justamente essa imperfeição que dá ao longa seu charme de ‘cult instantâneo’.

Filmes como ‘Honey Don’t!’ são feitos para o streaming. Eles florescem na segunda visualização, quando você para de procurar pela lógica narrativa estrita e passa a apreciar os diálogos rítmicos e as situações bizarras. É um filme de nicho que foi vendido como blockbuster, e agora, na Netflix, finalmente encontra seu habitat natural.

Veredicto: Vale o play?

Se você busca a perfeição técnica de ‘Fargo’, vai se decepcionar. Mas se você quer ver um grande ator (Evans) se libertando das amarras de um estúdio gigante, e um diretor veterano (Coen) redescobrindo o prazer de filmar sem a pressão de ser ‘importante’, ‘Honey Don’t!’ é uma recomendação sólida.

Prepare-se para um filme que não pede desculpas por sua estranheza. É um noir solar, cínico e, acima de tudo, uma prova de que Chris Evans tem muito mais a oferecer do que apenas o ‘traseiro da América’.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Honey Don’t!’

Quando ‘Honey Don’t!’ estreia na Netflix?

O filme entra no catálogo da Netflix no dia 3 de fevereiro de 2026, após sua trajetória nos cinemas em 2025.

Preciso assistir ‘Garotas em Fuga’ antes de ‘Honey Don’t!’?

Não. Embora façam parte da mesma ‘trilogia temática’ de Ethan Coen, as histórias e personagens são independentes. A conexão é apenas estética e de tom.

Qual é o papel de Chris Evans no filme?

Evans interpreta o Reverendo Drew Devlin, um líder de seita manipulador. É um papel de vilão que subverte sua imagem de Capitão América.

‘Honey Don’t!’ é um filme de comédia ou suspense?

O filme é um neo-noir com forte teor de humor negro. Ele mistura investigação de assassinato com situações absurdas e diálogos cômicos típicos de Ethan Coen.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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