Analisamos como ‘Alien: Romulus’ resgatou o DNA da franquia ao priorizar efeitos práticos e o horror tátil sobre a filosofia densa dos prequels. Descubra por que a direção de Fede Álvarez e a atuação de David Jonsson definem o novo padrão de ouro para o terror espacial.
Quando a Disney adquiriu a 20th Century Fox, o ceticismo em torno de ‘Alien: Romulus’ era palpável. A ideia da ‘Casa do Mickey’ gerindo uma franquia alicerçada em horror corporal, niilismo e fluidos viscosos parecia o prelúdio de uma diluição inevitável. No entanto, Fede Álvarez não apenas ignorou as expectativas de uma versão ‘higienizada’, como entregou o filme mais visceral da saga em décadas.
‘Alien: Romulus’ não é apenas uma sequência; é uma correção de curso. Enquanto Ridley Scott se perdeu em labirintos teológicos em ‘Prometheus’ e ‘Covenant’, Álvarez voltou ao básico: o medo do escuro, do desconhecido e da biologia distorcida. O resultado é um filme que entende que, no espaço, ninguém ouve você gritar — mas no cinema, o público precisa sentir o peso de cada respiração.
O triunfo do instinto sobre a tese filosófica
O erro fundamental dos prequels recentes foi tratar o Xenomorfo como uma nota de rodapé em uma dissertação sobre a origem da vida. Em ‘Romulus’, a criatura volta ao seu posto de divindade do terror. Álvarez compreende que a força de ‘Alien’ (1979) residia na sua simplicidade brutal. Aqui, a mitologia da Weyland-Yutani está presente, mas serve à tensão, não o contrário.
Um exemplo magistral é a sequência em que os personagens precisam atravessar uma sala infestada de Facehuggers mantendo a temperatura corporal estável. Não há diálogos expositivos sobre a criação do mundo; há apenas o som metálico da estação e o pânico silencioso de quem sabe que um erro significa uma morte invasiva. É o horror em sua forma mais pura.
Design de produção: A Nostromo como trauma herdado
A fotografia de Galo Olivares e o design de produção de Naaman Marshall são os heróis anônimos aqui. A estação Renaissance é dividida em dois módulos: Remus (o velho, analógico) e Romulus (o novo, tecnológico). Essa dualidade visual permite que o filme transite entre o visual industrial ‘lo-fi’ do filme original e a expansão militarista de James Cameron.
Os corredores são deliberadamente claustrofóbicos. O teto parece sempre baixo demais, e a iluminação — muitas vezes limitada a flashes de emergência ou luzes estroboscópicas — força o espectador a vasculhar cada canto da tela. Diferente dos blockbusters modernos que sofrem com um CGI ‘lavado’, ‘Romulus’ usa sombras para esconder e revelar, criando uma textura que você quase pode tocar.
O peso do látex: A vitória dos efeitos práticos
A decisão de Álvarez de usar animatrônicos e efeitos práticos sempre que possível é o que garantirá a longevidade deste filme. Quando Rain (Cailee Spaeny) encara um Xenomorfo, o terror em seus olhos é real porque havia uma criatura de dois metros de altura à sua frente, não uma bola de tênis em um fundo verde.
O destaque técnico vai para o terceiro ato, que introduz uma variação grotesca que remete ao horror corporal de Cronenberg. A forma como essa criatura se move — uma mistura de elegância perturbadora e fragilidade biológica — é algo que o CGI raramente consegue replicar com tanta eficácia. O uso de fluidos reais, sangue ácido e maquiagem prostética devolve à franquia o ‘suor’ que faltava nos filmes digitais de Scott.
Andy: O coração sintético da narrativa
Se Cailee Spaeny ancora o filme como a ‘final girl’ resiliente, David Jonsson entrega a performance mais complexa da franquia desde o Ian Holm original. Andy, o sintético ‘defeito’, é o centro emocional da trama. A transição de sua personalidade — de um protetor infantilizado para um agente corporativo frio após uma atualização de software — é executada por Jonsson com micro-expressões faciais impressionantes.
A relação entre Rain e Andy eleva ‘Romulus’ acima de um simples ‘slasher espacial’. Há um peso dramático na escolha entre a lealdade familiar e as diretrizes lógicas de uma inteligência artificial. Isso dá ao espectador um motivo para se importar com quem está sendo caçado, algo que ‘Covenant’ falhou miseravelmente em fazer.
Veredito: O futuro é tátil e aterrorizante
‘Alien: Romulus’ é um lembrete de que o cinema de gênero prospera sob restrições. Ao limitar o escopo a uma única estação e um grupo de jovens desesperados, Álvarez resgatou a escala humana do terror. O filme não tenta explicar o universo; ele tenta fazer você sobreviver a ele por duas horas.
Com um desempenho sólido no streaming e uma recepção crítica que valida o retorno às raízes, o caminho para a sequência — e para a integração com o universo de ‘Predador’ sugerida em projetos paralelos — parece pavimentado. Se este é o novo padrão para a franquia sob o selo Disney/20th Century, os fãs podem finalmente parar de olhar para o passado e começar a temer o futuro novamente.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Alien: Romulus’
Onde ‘Alien: Romulus’ se encaixa na cronologia da franquia?
O filme se passa aproximadamente 20 anos após os eventos do primeiro ‘Alien’ (1979) e cerca de 37 anos antes de ‘Aliens: O Resgate’ (1986). Ele funciona como uma ponte narrativa entre os dois clássicos.
Onde posso assistir ‘Alien: Romulus’?
No Brasil, ‘Alien: Romulus’ está disponível para streaming no Disney+, após sua passagem bem-sucedida pelos cinemas em 2024.
‘Alien: Romulus’ tem cenas pós-créditos?
Não, o filme não possui cenas pós-créditos. A história termina de forma conclusiva, embora deixe ganchos temáticos para futuras sequências.
Preciso ter visto todos os filmes da saga para entender ‘Romulus’?
Não necessariamente. Embora existam muitos ‘easter eggs’ e referências ao filme original e aos prequels (Prometheus), a trama principal é independente e pode ser apreciada por quem nunca viu a franquia.
O filme é muito violento? Qual a classificação?
Sim, o filme mantém a tradição de horror visceral da saga, com cenas intensas de ‘gore’ e violência biológica. A classificação indicativa no Brasil é de 16 anos.

