Analisamos por que ‘ZeroZeroZero’ é a produção de crime mais realista e tecnicamente superior do Prime Video. Entenda como o diretor Stefano Sollima e o autor Roberto Saviano desconstroem os clichês do gênero para focar na logística brutal do tráfico global.
Existe um tipo de série que recusa o papel de entretenimento passivo. Que te joga no centro de uma engrenagem global e espera que você decifre as regras do jogo sozinho — sem didatismo, sem exposição mastigada e, principalmente, sem bússola moral clara. ‘ZeroZeroZero’ Prime Video é essa raridade: uma produção que trata o espectador com o respeito (e a dureza) que o tema exige, entregando o que ‘Narcos’ nunca conseguiu alcançar.
O título faz referência ao código italiano para a farinha mais fina do mercado, gíria para a cocaína de pureza absoluta. É uma metáfora precisa para a proposta da série: refinar o gênero policial até que sobre apenas o essencial. Esqueça a glamourização dos kingpins carismáticos ou a jornada de ascensão e queda. Aqui, o protagonista é o produto, e o tema é a logística implacável do capitalismo moderno.
Logística como protagonista: o diferencial de Roberto Saviano
Enquanto a maioria das produções sobre tráfico se perde no culto à personalidade (como o Pablo Escobar de Wagner Moura), ‘ZeroZeroZero’ foca na transação. A trama acompanha uma única carga de 5 mil quilos de cocaína, desde a negociação na Calábria até a produção no México e o transporte via Oceano Atlântico. Baseada na obra investigativa de Roberto Saviano — o homem que vive sob proteção policial por expor a Camorra em ‘Gomorra’ — a série tem um pé fincado na realidade documental.
A estrutura narrativa é um quebra-cabeça geográfico. Vemos os compradores da ‘Ndrangheta italiana, os intermediários americanos (a família Lynwood) e os produtores mexicanos. Nenhum deles é herói; todos são peças substituíveis em uma indústria que movimenta bilhões. Essa desumanização dos personagens é o que torna a experiência tão perturbadora e, simultaneamente, tão honesta.
A gramática do pânico de Stefano Sollima
Se você sentiu o peso da violência em ‘Sicário: Dia do Soldado’, reconhecerá a mão de Stefano Sollima aqui. O diretor italiano traz para ‘ZeroZeroZero’ uma estética que chamo de ‘gramática do pânico’: a câmera é frequentemente fixa, observando o horror de longe, o que torna tudo mais real e menos coreografado.
Uma sequência específica no México exemplifica esse estilo. Um ataque de milícia durante uma festa infantil não é filmado para ser ‘épico’ ou visualmente excitante. É seco, confuso e brutal. Sollima utiliza o silêncio e o som ambiente de forma magistral, fazendo com que cada tiro soe como uma violação do espaço. Não há trilha sonora heróica para aliviar a tensão; há apenas a crueza do evento.
Mogwai e a sonoplastia do desastre
Um elemento técnico que define a identidade da série — e que muitos ignoram — é a trilha sonora da banda escocesa Mogwai. Conhecidos pelo post-rock atmosférico, eles criam uma camada sonora que alterna entre o melancólico e o industrial. A música não dita o que você deve sentir, mas amplifica a sensação de que o mundo está constantemente à beira de um colapso. É o som da engrenagem rangendo.
Um elenco internacional sem concessões
O uso de Andrea Riseborough, Gabriel Byrne e Dane DeHaan não é um chamariz de marketing vazio. Eles entregam performances contidas, quase gélidas. Dane DeHaan, em particular, interpreta Chris Lynwood com uma fragilidade física que contrasta violentamente com o mundo brutal onde ele é forçado a operar. Mas o verdadeiro destaque é Harold Torres, como o soldado Manuel Contreras. Sua transformação em um líder paramilitar fanático é uma das coisas mais assustadoras vistas na TV recente.
A série respeita a barreira linguística: italianos falam italiano, mexicanos falam espanhol, e a comunicação entre as frentes é truncada, pragmática. Essa escolha reforça o tema da globalização: o crime é a única linguagem universal que todos esses personagens realmente dominam.
Por que você ainda não assistiu (e por que deveria)
Lançada em 2020, no auge da pandemia, ‘ZeroZeroZero’ acabou soterrada por algoritmos. É uma minissérie de oito episódios sem gordura, sem subtramas românticas irrelevantes e sem episódios de preenchimento. É uma obra fechada, densa e visualmente deslumbrante, filmada em locações reais que vão do deserto do Saara às montanhas da Calábria.
Se você busca um thriller que também funciona como um ensaio sobre como o mundo funciona nos bastidores, esta é a recomendação definitiva. Ela não te deixa sair sentindo que o bem venceu, mas te deixa com a certeza de que você viu algo tecnicamente impecável e intelectualmente desafiador.
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Perguntas Frequentes sobre ‘ZeroZeroZero’
‘ZeroZeroZero’ é baseada em uma história real?
A série é inspirada no livro homônimo de Roberto Saviano, que é uma obra de não-ficção baseada em anos de investigação sobre o tráfico global. Embora os personagens específicos sejam fictícios, os métodos, rotas e a logística apresentados são baseados em fatos reais.
Onde posso assistir ‘ZeroZeroZero’?
A minissérie está disponível exclusivamente no catálogo do Amazon Prime Video.
Haverá uma segunda temporada de ‘ZeroZeroZero’?
Não. A produção foi concebida como uma minissérie (série limitada) com início, meio e fim. A história da carga de cocaína que serve como fio condutor é totalmente concluída nos oito episódios.
Qual o significado do título ‘ZeroZeroZero’?
O termo refere-se à farinha de trigo mais pura na Itália (tipo 000). No submundo do crime, tornou-se uma gíria para a cocaína de pureza máxima, sem misturas.
Quem é o diretor de ‘ZeroZeroZero’?
A série foi criada por Stefano Sollima (diretor de ‘Sicário: Dia do Soldado’ e ‘Gomorra’), em colaboração com Leonardo Fasoli e Mauricio Katz.

