Exploramos como ‘Matéria Escura’ na Apple TV+ expande o dilema existencial do final de ‘A Origem’. Analisamos a conexão entre o totem de Cobb e a ‘Caixa’ de Jason Dessen, revelando por que a série é a sucessora espiritual definitiva da obra-prima de Christopher Nolan.
Mais de uma década depois, o final de ‘A Origem’ continua sendo o teste de Rorschach definitivo do cinema. O pião gira ou cai? Cobb está no mundo real ou em um limbo eterno? Christopher Nolan deixou a resposta em aberto de propósito, sugerindo que, no momento em que Cobb para de olhar para o totem, a realidade objetiva deixa de importar. Se você ainda carrega essa inquietação, ‘Matéria Escura’ (Dark Matter) na Apple TV+ é a progressão natural dessa tese.
Baseada no bestseller de Blake Crouch (que aqui atua como showrunner, garantindo a fidelidade temática), a série não apenas revisita o dilema de Nolan, mas o expande por nove horas de uma ficção científica visceral. Onde ‘A Origem’ comprime a angústia existencial em um objeto sobre a mesa, Matéria Escura Apple TV descompacta essa mesma pergunta ao longo de uma jornada pelo multiverso que é, simultaneamente, um thriller de sobrevivência e um drama sobre arrependimento.
O que Nolan perguntou em segundos, Crouch responde em nove episódios
O final de ‘A Origem’ é brilhante porque é uma elipse. Nolan entendeu que a dúvida é mais poderosa que a confirmação. ‘Matéria Escura’ pega essa mesma semente e a planta em um terreno muito mais vasto. Joel Edgerton interpreta Jason Dessen, um físico que é sequestrado por uma versão de si mesmo — uma versão que escolheu a carreira em vez da família.
Diferente de outras produções sobre multiverso que se perdem em fan service ou piadas internas, esta série ancora a física quântica em algo dolorosamente humano. A ‘Caixa’ — o dispositivo central da trama — não é apenas um portal; é um espelho. Ela força o protagonista a encarar cada ‘e se?’ de sua vida. Se em ‘A Origem’ o perigo era se perder em um sonho, aqui o perigo é se perder em infinitas versões da própria realidade, todas elas tecnicamente ‘verdadeiras’.
O Totem e a Caixa: símbolos de uma mesma verdade incômoda
Em ‘A Origem’, o totem serve para distinguir o real do fabricado. É uma âncora de sanidade. A Caixa em ‘Matéria Escura’ opera em uma lógica invertida: ela revela que a realidade objetiva é uma ilusão de perspectiva. No corredor infinito da Caixa, as portas se abrem para mundos moldados pelo estado emocional de quem as abre. É uma manifestação física do colapso da função de onda.
Há uma cena específica no meio da temporada onde Jason e sua companheira de viagem, Amanda, tentam encontrar um mundo ‘seguro’. A fotografia de Matéria Escura Apple TV usa tons frios e desaturados para mostrar como o medo deles projeta realidades apocalípticas. É o mesmo princípio da Projeção de ‘A Origem’: sua mente é o arquiteto do seu próprio inferno. O dilema final de Jason é uma versão amplificada do de Cobb: como escolher uma família quando você descobre que existem mil versões ‘reais’ dela?
Quando o sentimento de pertencer vence a física quântica
O grande insight que conecta as duas obras é a capitulação diante da subjetividade. Cobb abandona o totem porque estar com os filhos é a sua verdade, independente da física. Jason chega a uma conclusão idêntica, mas após um custo muito mais alto. Ele passa a temporada tentando encontrar sua realidade ‘original’, apenas para perceber que a ‘originalidade’ é um conceito irrelevante diante da escolha consciente de pertencer.
A série brilha ao mostrar que não basta ‘voltar para casa’. Nos episódios finais, a narrativa toma um rumo perturbador que questiona a própria identidade do herói. Se cem Jasons têm o mesmo direito àquela vida, o que define quem é o ‘verdadeiro’? A resposta não está no DNA ou na linha temporal, mas na ação moral. É o existencialismo levado ao limite da ficção científica.
Vale a pena assistir na Apple TV+?
Embora o ritmo no meio da temporada sofra de algumas gorduras típicas do streaming, a performance dupla (ou múltipla) de Joel Edgerton sustenta a tensão. Ele consegue diferenciar as versões de Jason através de micro-expressões e postura, evitando o clichê do ‘gêmeo mau’.
Para quem busca uma obra que respeite a inteligência do espectador e não entregue respostas mastigadas, Matéria Escura Apple TV é obrigatória. Ela prova que a pergunta que Nolan deixou suspensa em 2010 ainda é a mais fértil da ficção científica moderna: o que você está disposto a aceitar como real para poder viver em paz?
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Perguntas Frequentes sobre Matéria Escura
Onde posso assistir à série ‘Matéria Escura’?
‘Matéria Escura’ (Dark Matter) é uma série original da Apple TV+ e está disponível exclusivamente na plataforma de streaming da Apple.
A série é baseada em algum livro?
Sim, a série é uma adaptação fiel do livro homônimo escrito por Blake Crouch, que também atua como criador e produtor executivo da série.
Preciso ter assistido ‘A Origem’ para entender ‘Matéria Escura’?
Não. Embora as obras compartilhem temas filosóficos semelhantes sobre realidade e percepção, as histórias são completamente independentes e não possuem ligação narrativa.
‘Matéria Escura’ terá uma segunda temporada?
Sim, a Apple TV+ confirmou oficialmente a renovação para a segunda temporada, que deve continuar explorando as consequências das viagens entre mundos paralelos.
Qual a classificação indicativa da série?
A série tem classificação indicativa de 16 anos, contendo cenas de violência, suspense psicológico e linguagem adulta.

