‘Victoria’: a agonia de um plano-sequência real de 140 minutos

Analisamos como ‘Victoria’ (2015) utiliza o plano-sequência real de 140 minutos para criar uma experiência de imersão física sem precedentes. Descubra como o roteiro improvisado e a fotografia de Sturla Brandth Grøvlen transformam um thriller de assalto em um estudo visceral sobre solidão e adrenalina em Berlim.

Existe uma linha divisória clara no cinema contemporâneo: de um lado, filmes que usam a tecnologia para simular continuidade; do outro, ‘Victoria’ filme 2015. Enquanto Alejandro González Iñárritu em ‘Birdman’ e Sam Mendes em ‘1917’ coreografaram cortes invisíveis para criar a ilusão de um plano único, Sebastian Schipper optou pelo abismo. São 140 minutos de ação contínua, sem cortes, sem truques de montagem e sem rede de segurança.

A câmera de Sturla Brandth Grøvlen: o herói invisível

A câmera de Sturla Brandth Grøvlen: o herói invisível

Para entender a agonia proposta por ‘Victoria’, é preciso olhar para quem estava atrás da lente. O diretor de fotografia Sturla Brandth Grøvlen não apenas operou uma câmera; ele protagonizou uma maratona física e técnica. Ele atravessou 22 locações em Berlim — de subsolos pulsantes a telhados silenciosos — carregando o peso do equipamento e a responsabilidade de não errar um único foco.

O que torna essa escolha técnica brilhante não é o virtuosismo, mas a claustrofobia temporal. Em um filme comum, o corte é um alívio; ele permite que o espectador processe a informação. Aqui, quando a protagonista (Laia Costa) decide se envolver em um assalto a banco com quatro desconhecidos, o espectador é arrastado junto. Não há elipse para saltar o medo ou a dúvida. Você está preso no banco de trás do carro, sentindo cada batida do coração acelerada pela trilha hipnótica de Nils Frahm.

O roteiro de 12 páginas e o poder do improviso

Muitos não sabem, mas o roteiro de ‘Victoria’ tinha apenas 12 páginas. Schipper não escreveu diálogos rígidos; ele escreveu situações. Isso permitiu que Laia Costa e Frederick Lau (Sonne) reagissem de forma genuína ao ambiente. A química entre eles nos primeiros 40 minutos — que parecem um romance indie europeu — é o que dá peso ao caos que se segue.

A cena no café, onde Victoria toca Liszt ao piano, é o ponto de virada emocional. É ali que entendemos sua solidão profunda em uma Berlim estrangeira. Quando ela erra uma nota e confessa seu passado de pianista frustrada, o filme deixa de ser um exercício técnico para se tornar um estudo de personagem devastador. O plano-sequência registra essa vulnerabilidade sem interrupções, tornando a conexão entre os dois quase tátil.

Por que a forma é o conteúdo neste thriller

Por que a forma é o conteúdo neste thriller

Muitos críticos questionam se o plano-sequência era necessário. A resposta está na sequência do assalto. A tensão não vem de cortes rápidos ou ângulos dramáticos, mas da continuidade inevitável. Quando o pânico se instala, a câmera treme, perde o foco momentaneamente e luta para acompanhar os personagens. Essa imperfeição é o que confere ao filme uma textura documental rara.

Diferente de ‘John Wick’, onde a violência é uma dança coreografada, em ‘Victoria’ a violência é confusa, barulhenta e desesperadora. O espectador sente a exaustão física dos atores, que ao final das duas horas de gravação real, não estavam mais interpretando o cansaço — eles estavam vivendo-o.

O veredito: uma experiência física exaustiva

‘Victoria’ permanece, quase uma década depois, como um dos experimentos mais bem-sucedidos do cinema moderno. Ele exige que você abandone o papel de observador passivo para se tornar um cúmplice. É um filme que não se assiste apenas com os olhos, mas com o sistema nervoso.

Se você procura um thriller convencional, talvez se irrite com o ritmo deliberado do primeiro ato. Mas se você busca entender como o cinema pode usar a técnica para simular a irreversibilidade da vida, ‘Victoria’ é obrigatório. É a prova de que, às vezes, a melhor forma de contar uma história sobre perda de controle é, ironicamente, através de um controle técnico absoluto.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Victoria’ (2015)

O filme ‘Victoria’ foi realmente gravado em um único take?

Sim. Ao contrário de filmes como ‘1917’ ou ‘Birdman’, que usam cortes invisíveis, ‘Victoria’ foi filmado em um único plano-sequência real de 140 minutos, sem interrupções, das 4h30 às 7h da manhã em Berlim.

Onde posso assistir ao filme ‘Victoria’?

Atualmente, ‘Victoria’ está disponível para aluguel e compra em plataformas como Apple TV e Google Play. A disponibilidade em catálogos de streaming como Netflix ou MUBI varia conforme a região e época.

Quanto do filme ‘Victoria’ foi improvisado?

A maior parte dos diálogos foi improvisada. O roteiro original de Sebastian Schipper tinha apenas 12 páginas, focando nas ações e motivações dos personagens, permitindo que os atores reagissem naturalmente durante a gravação contínua.

Quantas vezes eles tentaram filmar o plano-sequência?

A equipe realizou três tentativas completas de gravação. A versão que vemos no cinema é o terceiro e último take, que o diretor considerou o único que capturou perfeitamente a energia e a emoção necessárias.

Quem assina a trilha sonora de ‘Victoria’?

A trilha sonora é assinada pelo renomado músico alemão Nils Frahm. Sua composição minimalista e atmosférica é fundamental para ditar o ritmo emocional do filme, especialmente nos momentos de transição entre o drama e o suspense.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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