De ‘Stranger Things’ a ‘Ozark’: por que a Netflix erra tanto nos finais?

De ‘Stranger Things’ a ‘Ozark’, analisamos por que as produções originais da Netflix sofrem com desfechos decepcionantes. Entenda como o foco em spin-offs e a falta de coragem narrativa criaram os piores finais da plataforma nos últimos anos.

Existe um fenômeno que todo assinante da Netflix conhece: o investimento de dezenas de horas em uma série, a defesa apaixonada do show para amigos céticos e, no fim, um gosto amargo de decepção. Os piores finais da Netflix não são acidentes isolados; eles seguem padrões de uma plataforma que muitas vezes prioriza métricas de retenção e expansão de franquia em detrimento da integridade narrativa.

Assisti a cada uma dessas estreias, do auge do hype ao silêncio dos créditos finais. O que emerge dessa maratona não é apenas uma lista de reclamações, mas um diagnóstico de como o ‘estilo Netflix’ de produção pode ser o maior inimigo de uma conclusão satisfatória.

O problema não é terminar mal — é a incapacidade de encerrar ciclos

O problema não é terminar mal — é a incapacidade de encerrar ciclos

Antes dos culpados, uma distinção necessária: há uma diferença entre um final ruim e um final inexistente. Séries como ‘GLOW’, ‘Mindhunter’ e ‘Santa Clarita Diet’ foram interrompidas no auge criativo. O que analisamos aqui são as obras que tiveram a chance de dizer adeus e, por pressões contratuais ou falta de fôlego criativo, tropeçaram na própria sombra.

‘Stranger Things’: o fenômeno que virou refém do próprio império

Em 2016, ‘Stranger Things’ era uma homenagem íntima a Spielberg e King. Em seu desfecho (agora que finalmente vimos o fim da quinta temporada), a série se transformou em um blockbuster genérico. O erro fatal? O final parecia mais um piloto para três novos spin-offs do que o encerramento da jornada de Eleven.

A batalha final no Mundo Invertido abusou tanto de CGI que a fisicalidade que tornava o Demogorgon assustador na primeira temporada desapareceu. Pior: a covardia narrativa de sugerir a morte de personagens queridos para trazê-los de volta em epílogos intermináveis tirou o peso de qualquer sacrifício. A série morreu tentando ser o ‘MCU da Netflix’ em vez de honrar Hawkins.

‘Ozark’ e a traição do niilismo

Durante quatro temporadas, ‘Ozark’ foi comparada a ‘Breaking Bad’ por sua coragem. Mas o final entregou uma das maiores frustrações recentes. O acidente de carro, construído como um evento cataclísmico, resultou em… nada. Ver a família Byrde sair ilesa foi um banho de água fria na tensão acumulada.

O tratamento dado a Ruth Langmore foi o golpe de misericórdia. Sua morte não foi o problema, mas a forma descuidada e fora de personagem como ocorreu. Ruth era a mente mais brilhante daquele universo; fazê-la morrer por um erro básico de julgamento foi um recurso de roteiro preguiçoso para gerar choque. O corte para o preto no último tiro não foi ‘sopranesco’, foi apenas uma saída fácil para evitar consequências reais.

‘The Umbrella Academy’: o apagamento do crescimento emocional

O final de ‘The Umbrella Academy’ é um estudo de caso sobre como destruir sua própria premissa. A série sempre foi sobre trauma familiar e como os irmãos Hargreeves tentavam superar o abuso do pai, Reginald. No fim, a solução foi o apagamento total da existência deles.

Ver Reginald — o arquiteto de todo o sofrimento — ter um final feliz enquanto os protagonistas são deletados da história é uma mensagem niilista que invalida quatro temporadas de evolução. Se nada do que eles viveram importa ou será lembrado, por que assistimos?

‘Sex Education’ e o erro da última temporada

'Sex Education' e o erro da última temporada

Showrunners deveriam seguir uma regra de ouro: a última temporada não é lugar para introduzir novos elencos. ‘Sex Education’ ignorou isso, gastando tempo precioso com personagens novos e rasos enquanto os veteranos que amamos eram deixados de lado. A tensão entre Otis e Maeve, o motor da série, foi resolvida de forma apática, sem a catarse que quatro anos de ‘will-they-won’t-they’ exigiam.

Por que a Netflix erra tanto?

Ao analisar esses casos, o padrão é claro: o algoritmo não sabe escrever finais. A Netflix frequentemente exige que finais deixem ‘ganchos’ para possíveis retornos, impedindo conclusões definitivas. Além disso, a expansão excessiva do número de personagens para tentar abraçar todos os demográficos acaba diluindo o tempo de tela necessário para um fechamento digno.

Séries como ‘BoJack Horseman’ brilharam porque tiveram a liberdade de serem amargas e definitivas. O problema dos piores finais da Netflix é o medo do fim. E, no storytelling, quem tem medo de terminar raramente termina bem.

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Perguntas Frequentes sobre Finais de Séries da Netflix

Qual é considerado o pior final de série da Netflix?

Embora subjetivo, ‘The Umbrella Academy’ e ‘Ozark’ lideram as críticas de fãs e especialistas por invalidarem o crescimento dos personagens e usarem clichês narrativos para evitar conclusões complexas.

Por que tantas séries da Netflix são canceladas sem final?

A Netflix utiliza uma métrica interna que avalia o custo de produção versus a taxa de novas assinaturas geradas. Se uma série não atrai novos assinantes em massa após a 2ª ou 3ª temporada, ela é cancelada, independentemente da qualidade artística.

‘Stranger Things’ realmente acabou na 5ª temporada?

Sim, a quinta temporada foi anunciada como a última da série principal, embora a Netflix já tenha confirmado diversos spin-offs em desenvolvimento para expandir o universo da franquia.

Existem séries da Netflix com finais bons?

Sim. ‘BoJack Horseman’, ‘Dark’ e ‘The Queen’s Gambit’ (O Gambito da Rainha) são frequentemente citadas como exemplos de roteiros que planejaram seu início, meio e fim com precisão absoluta.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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