‘Better Call Saul’: como a série quase se tornou uma sitcom de 30 minutos

Analisamos como ‘Better Call Saul’ quase foi uma sitcom de 30 minutos e por que a decisão de Vince Gilligan de abandonar a comédia episódica transformou a série em uma obra-prima dramática. Entenda como o DNA da comédia ainda sobrevive em Jimmy McGill.

Existe uma realidade paralela onde ‘Better Call Saul’ sitcom aconteceu. Imagine episódios de 30 minutos, risadas enlatadas e clientes excêntricos entrando e saindo do escritório de Saul Goodman com a frequência de um ‘Seinfeld’ jurídico. Vince Gilligan, o criador, chegou a comparar essa versão original com ‘Dr. Katz, Professional Therapist’ — a animação dos anos 90 focada em diálogos rápidos e humor situacional.

Parece um delírio de fã, mas foi o plano inicial. Quando a AMC deu sinal verde para o spin-off de ‘Breaking Bad’, a premissa era uma comédia episódica leve. Bob Odenkirk, vindo de uma linhagem de ouro da comédia como ‘Mr. Show’, finalmente teria seu palco como protagonista de sitcom. Odenkirk possui um timing cirúrgico, capaz de rivalizar com Steve Carell ou Jason Alexander, e a série parecia o veículo perfeito para isso. No entanto, essa versão morreu antes do primeiro ‘ação’.

A ‘incompetência’ providencial: Por que Gilligan e Gould fugiram da sitcom

A 'incompetência' providencial: Por que Gilligan e Gould fugiram da sitcom

A narrativa oficial de Hollywood costuma focar em gênios que sempre tiveram o mapa completo do sucesso. A história real de ‘Better Call Saul’ é mais humana: Gilligan e Peter Gould abandonaram a sitcom porque admitiram que simplesmente não sabiam escrever uma. Escrever comédia de 30 minutos exige um músculo narrativo específico — um ritmo de setups e payoffs em miniatura que eles, mestres da tensão lenta e do dread existencial, não possuíam.

Eles perceberam que sua força residia em deixar as cenas respirarem, no silêncio desconfortável e na construção meticulosa de consequências. Ao reconhecerem essa ‘limitação’, pivotaram para o drama de uma hora. O que hoje consideramos uma das melhores séries da história nasceu, ironicamente, de uma admissão de incompetência técnica com o formato cômico.

O fantasma da sitcom em ‘Inflatable’: Onde George Costanza encontra Jimmy McGill

Apesar da mudança de tom, o DNA da sitcom nunca foi totalmente extirpado; ele ficou latente, manifestando-se em brechas brilhantes. O exemplo mais puro está no episódio ‘Inflatable’ (S02E07). O setup é puro ‘Seinfeld’: Jimmy quer ser demitido da Davis & Main para manter seu bônus, mas precisa fazer isso sem dar justa causa.

O que se segue é uma montagem que evoca o melhor de George Costanza tentando ser demitido da Play Now. Jimmy toca gaita de foles no escritório, usa ternos que agridem a retina e adota hábitos de higiene duvidosos no banheiro coletivo. É um esquete de comédia de alto nível inserido em um drama denso. A eficácia dessa sequência prova que eles sabiam fazer humor, mas o segredo estava no contraste: o riso só funciona aqui porque sabemos o que Jimmy está arriscando — sua reputação e seu relacionamento com Kim Wexler.

A tragédia de ser Saul: O que ganhamos com o drama

A tragédia de ser Saul: O que ganhamos com o drama

Se tivéssemos ficado com a sitcom, teríamos perdido a revelação de Bob Odenkirk como um dos maiores atores dramáticos da sua geração. Em ‘Breaking Bad’, Saul era o alívio cômico bidimensional. Em ‘Better Call Saul’, ele é uma ferida aberta. A sequência no deserto em ‘Bagman’ (S05E08), onde Jimmy caminha sob o sol implacável carregando sacos de dinheiro e bebendo a própria urina, é o oposto de uma sitcom. É sobrevivência bruta.

A estrutura de drama permitiu um estudo de personagem que a comédia episódica proíbe por natureza. Em uma sitcom, o personagem precisa voltar ao status quo ao final dos 30 minutos para que o próximo episódio funcione. No drama de Gilligan, cada pequena concessão ética de Jimmy deixa uma cicatriz permanente. A transformação em Saul Goodman não é um punchline, é uma erosão lenta e dolorosa da alma de Jimmy McGill.

O humor como arma de destruição emocional

Gilligan e Gould aprenderam a usar a comédia não para aliviar a tensão, mas para torná-la insuportável. Os comerciais de Saul Goodman ou suas interações absurdas com os capangas de Lalo Salamanca são engraçados até deixarem de ser. Quando o público ri com Jimmy, ele se torna cúmplice. E quando a tragédia finalmente bate à porta — como no destino final de Howard Hamlin — o riso anterior se transforma em um gosto amargo de culpa.

A ‘sitcom que não foi’ acabou se tornando a fundação secreta da série. ‘Better Call Saul’ é uma tragédia disfarçada de origem de personagem cômico. Ao final, entendemos que o Saul Goodman fanfarrão de ‘Breaking Bad’ é, na verdade, uma máscara de defesa para um homem que perdeu tudo. A piada final de Gilligan é que, no universo de Jimmy McGill, nunca houve motivo para rir.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Better Call Saul’

‘Better Call Saul’ é uma comédia ou um drama?

Embora tenha começado com uma proposta de sitcom, a série é classificada como um drama criminal (ou dramédia). Ela utiliza humor ácido, mas o foco principal é o desenvolvimento trágico dos personagens.

Preciso assistir ‘Breaking Bad’ antes de ‘Better Call Saul’?

Não é obrigatório, pois a série é um prelúdio. No entanto, assistir ‘Breaking Bad’ primeiro enriquece a experiência, permitindo identificar referências e entender o peso dramático do destino de Saul Goodman.

Onde assistir ‘Better Call Saul’ completo?

Atualmente, todas as seis temporadas de ‘Better Call Saul’ estão disponíveis no catálogo da Netflix no Brasil.

Por que a série quase foi uma sitcom?

Os criadores Vince Gilligan e Peter Gould inicialmente imaginaram o spin-off como episódios curtos de 30 minutos focados nos casos jurídicos absurdos de Saul, mas mudaram para o drama ao perceberem o potencial trágico da história de Jimmy McGill.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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