‘Millennium’: por que a nova série da Sky é a chance de ouro da franquia

Analisamos por que a nova série de ‘Millennium’ na Sky, liderada pelos produtores de ‘Hannibal’, é a oportunidade perfeita para resgatar a densidade investigativa de Stieg Larsson. Descubra como o formato episódico pode finalmente superar as limitações das adaptações cinematográficas anteriores.

A franquia Millennium vive um ciclo de ‘falsos começos’ que testaria a paciência de qualquer fã de Lisbeth Salander. Após o projeto da Amazon definhar no limbo do desenvolvimento por quatro anos, a notícia de que a Sky assumiu as rédeas — com filmagens marcadas para a primavera de 2025 na Lituânia — traz mais do que apenas alívio; traz uma oportunidade técnica que o cinema nunca pôde oferecer totalmente.

O fantasma de David Fincher e o padrão Noomi Rapace

Adaptar ‘The Girl With The Dragon Tattoo’ (ou ‘Os Homens que Não Amavam as Mulheres’) exige enfrentar dois titãs. A trilogia sueca original não apenas revelou Noomi Rapace ao mundo, mas estabeleceu uma crueza documental que parecia extraída diretamente das páginas de Stieg Larsson. Rapace não entregou uma atuação, mas uma simbiose física com o trauma de Lisbeth.

Em 2011, David Fincher elevou o patamar estético. Sua versão, embora criticada por alguns pela ‘higienização’ hollywoodiana, é uma aula de atmosfera. O uso de chiaroscuro digital, a montagem rítmica de Kirk Baxter e a trilha industrial opressiva de Reznor e Ross criaram uma experiência sensorial que transformou a Suécia em um personagem gélido e hostil. O desafio da Sky não é ser ‘melhor’ que Fincher ou Rapace, mas encontrar uma voz que não soe como um eco empobrecido.

A densidade de Larsson exige o formato episódico

O maior trunfo da série da Sky reside na matemática narrativa. Os romances de Larsson são, em essência, procedurais jornalísticos densos. Fincher precisou de 158 minutos para cobrir o primeiro livro e, ainda assim, a complexa teia financeira e a genealogia dos Vanger sofreram cortes drásticos para manter o ritmo de thriller.

Uma série de oito ou dez episódios permite que a investigação de Mikael Blomkvist respire. Há espaço para o ‘trabalho de sola de sapato’ — as horas em arquivos, a análise de fotos antigas (sequência que é o coração do mistério) e, principalmente, a construção da confiança entre os protagonistas. Nos livros, a relação entre Lisbeth e Mikael é uma queima lenta de respeito mútuo e necessidade intelectual; na TV, isso pode finalmente ser explorado sem a pressa de um arco romântico imposto pelo cronômetro do cinema.

Showrunners de ‘Hannibal’ e ‘The Punisher’: Um sinal de maturidade

Showrunners de 'Hannibal' e 'The Punisher': Um sinal de maturidade

A escolha de Steve Lightfoot e Angela LaManna é o elemento que realmente separa este projeto de uma tentativa genérica. Lightfoot, em seu trabalho em ‘Hannibal’, demonstrou uma capacidade rara de traduzir trauma psicológico em estética visual. Ele entende que a violência em Millennium não deve ser gratuita, mas uma consequência da podridão social que Larsson tanto criticava.

Se a série seguir a linhagem de ‘Hannibal’, podemos esperar uma produção que não teme o silêncio e que utiliza o design de som e a fotografia para externalizar a mente fragmentada de Salander. É a antítese do erro cometido em ‘A Garota na Teia de Aranha’ (2018), que tentou transformar Lisbeth em uma variante feminina de James Bond, ignorando que sua força reside na vulnerabilidade blindada, não em acrobacias de ação.

O retorno às raízes e o expurgo de Lagercrantz

Para que a série da Sky seja a ‘chance de ouro’, ela precisa tomar uma decisão editorial firme: ignorar as continuações de David Lagercrantz. Enquanto Larsson escrevia sobre a misoginia estrutural e a corrupção do Estado sueco, os livros posteriores derivaram para conspirações de ficção científica e vilões caricatos. A Sky tem a obrigação de voltar à fonte original, tratando Millennium como o drama policial sociológico que ele sempre foi destinado a ser.

A escolha da Lituânia como locação, embora motivada por incentivos fiscais, oferece uma paleta visual austera que remete ao Leste Europeu e à Escandinávia menos turística. Se o roteiro focar na investigação meticulosa e na crítica social mordaz, a série pode finalmente se tornar a versão definitiva de uma obra que o cinema, por mais brilhante que tenha sido, só conseguiu arranhar a superfície.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre a série Millennium da Sky

Quando estreia a nova série de ‘The Girl With The Dragon Tattoo’?

Ainda não há uma data de estreia oficial, mas as filmagens estão programadas para começar na primavera de 2025. A previsão é que a série chegue às telas em 2026.

Quem será a nova Lisbeth Salander na série da Sky?

Até o momento, o elenco não foi anunciado. A produção busca uma atriz que possa trazer uma interpretação original, evitando comparações diretas com Noomi Rapace e Rooney Mara.

A série da Amazon sobre Millennium foi cancelada?

Sim, o projeto que estava em desenvolvimento na Amazon desde 2020 foi descontinuado. A nova produção da Sky é um projeto totalmente independente e com uma nova equipe criativa.

A série vai adaptar quais livros da franquia?

A primeira temporada deve focar em ‘The Girl With The Dragon Tattoo’ (Os Homens que Não Amavam as Mulheres). Espera-se que a série se concentre na trilogia original escrita por Stieg Larsson.

Onde a série de Millennium será filmada?

A produção confirmou que as filmagens ocorrerão na Lituânia, utilizando as paisagens bálticas para recriar o ambiente gélido e isolado da Suécia descrito nos livros.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também