Analisamos como ‘South Park’ transformou a queda de audiência na TV tradicional em uma estratégia de dominância no Paramount+. Entenda por que o acordo de US$ 900 milhões e o foco em especiais de streaming tornaram a série mais relevante que ‘Os Simpsons’ no cenário atual.
Existe um tipo de sucesso que, aos olhos de um analista de TV dos anos 90, pareceria um fracasso retumbante. ‘South Park’ no Paramount+ é o caso de estudo definitivo dessa nova realidade: um programa que ‘morreu’ na grade de programação tradicional para se tornar o oxigênio de uma plataforma inteira de streaming.
Enquanto a audiência da TV linear despenca para menos de 1 milhão de espectadores por episódio, Trey Parker e Matt Stone operam em uma frequência diferente. Enquanto ‘Os Simpsons’ tenta desesperadamente manter sua relevância na 37ª temporada em um modelo de TV aberta que não favorece mais a sátira ácida, ‘South Park’ completou a transição para o ecossistema digital com uma agressividade que poucos ousaram replicar.
A morte simbólica dos números da Nielsen
Os dados brutos da TV tradicional são, à primeira vista, brutais. O episódio de estreia da 27ª temporada, ‘Sermon on the Mount’, registrou apenas 0,43 milhão de espectadores. Mesmo o pico da temporada, com ‘Sickofancy’, mal alcançou 0,85 milhão. Para efeito de comparação, episódios medianos de ‘Os Simpsons’ na Fox ainda atraem o dobro disso, e seus especiais de Halloween ultrapassam os 3 milhões.
Se parássemos a análise no controle remoto, ‘South Park’ estaria no corredor da morte. Mas no streaming, a métrica é outra: retenção e conversão. No Paramount+, a série não é apenas um título no catálogo; ela é, consistentemente, o maior motor de novas assinaturas da plataforma, competindo em tempo de tela com blockbusters e produções originais de alto orçamento.
O contrato de US$ 900 milhões: Loucura ou visão?
Em 2021, o mercado estranhou o acordo de quase um bilhão de dólares entre a Paramount e os criadores da série. Hoje, o valor parece uma pechincha. O segredo não estava em produzir mais episódios semanais, mas em criar ‘eventos de streaming’.
Especiais como ‘(Not Suitable) for Children’ ou ‘The End of Obesity’ não são apenas episódios longos; são iscas digitais. Ao reduzir a produção de temporadas regulares para focar em filmes de 60 minutos, Parker e Stone treinaram seu público a tratar ‘South Park’ como um evento cinematográfico doméstico. É a estratégia da escassez aplicada à animação: menos episódios, mas cada um deles com peso de estreia de cinema.
A vantagem competitiva sobre ‘Os Simpsons’ e ‘Family Guy’
A ironia para ‘Os Simpsons’ é que sua própria longevidade se tornou uma âncora. Com mais de 800 episódios, a série da Disney/Fox está presa a um contrato de distribuição complexo e a uma identidade visual que precisa agradar a anunciantes de TV aberta. ‘South Park’, por outro lado, nasceu no caos da TV a cabo e migrou para o streaming com a liberdade de quem não precisa de comerciais de sabão em pó para sobreviver.
A diferença é técnica e narrativa. Enquanto ‘Family Guy’ faz especiais esporádicos para o Hulu como uma extensão do que já existe, ‘South Park’ redesenhou sua estrutura. Os especiais do Paramount+ usam uma escala visual e uma continuidade narrativa que a TV tradicional raramente permite. O público de streaming não quer apenas ‘mais do mesmo’; ele quer sentir que está assistindo a algo que não poderia existir na TV comum.
O Paradoxo de Taylor Sheridan
Dentro do Paramount+, ‘South Park’ ocupa um lugar que desafia até o império de Taylor Sheridan (criador de ‘Yellowstone’). Embora as séries de Sheridan tenham picos massivos de audiência, elas são finitas. ‘South Park’ é uma constante cultural. A matemática do streaming favorece a longevidade com engajamento — e quatro crianças desbocadas do Colorado provaram ter mais fôlego digital do que qualquer drama de cowboy moderno.
O que ‘South Park’ entendeu antes de todos é que a relevância em 2026 não é medida por quem liga a TV às 22h, mas por quem busca ativamente o conteúdo em uma barra de pesquisa. A queda na TV linear não foi um declínio; foi uma migração planejada.
Veredito: O mapa para a sobrevivência
Para qualquer animação adulta que pretenda sobreviver à próxima década, a lição de ‘South Park’ é clara: a TV tradicional é onde você constrói a marca, mas o streaming é onde você monetiza a fidelidade. O ‘paradoxo da audiência’ — ter números baixos na Nielsen e ser o #1 no app — será o padrão, não a exceção.
Parker e Stone não estão apenas fazendo piadas; eles estão ditando como a propriedade intelectual deve se comportar em um mundo pós-grade de programação. E, pelo visto, o futuro da TV será decidido em pequenas cidades nevadas do Colorado.
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Perguntas Frequentes sobre South Park no Paramount+
Onde assistir aos novos episódios de South Park em 2026?
Os novos episódios e especiais exclusivos de South Park estão disponíveis no Paramount+. Algumas temporadas antigas ainda podem ser encontradas em outros serviços devido a contratos anteriores, mas os lançamentos recentes são exclusivos da Paramount.
Por que South Park tem poucos episódios por temporada agora?
Como parte do acordo de US$ 900 milhões, os criadores optaram por produzir temporadas mais curtas (geralmente 6 episódios) para focar na produção de dois grandes especiais exclusivos por ano para o streaming, que funcionam como filmes.
South Park vai ser cancelado devido à baixa audiência na TV?
Não. Embora os números na TV tradicional (Comedy Central) tenham caído, a série é a produção mais assistida do Paramount+. O sucesso no streaming garante a continuidade do show até, pelo menos, a 30ª temporada.
Qual a diferença entre os episódios normais e os especiais do Paramount+?
Os episódios das temporadas regulares seguem o formato clássico de 22 minutos. Já os especiais (como ‘The End of Obesity’) têm cerca de uma hora de duração e geralmente abordam temas mais amplos com uma qualidade de animação superior.

