Além de ‘11.22.63’: 5 séries de ficção científica histórica que acertam o tom

Ficção científica histórica é um dos gêneros mais complexos da TV. Analisamos 5 séries que, seguindo o rastro de ‘11.22.63’, utilizam elementos especulativos para aprofundar nossa visão sobre o passado, de ‘Watchmen’ à precisão técnica de ‘For All Mankind’.

Existe um subgênero televisivo que parece, por definição, condenado ao fracasso. A ficção científica histórica exige que o espectador aceite simultaneamente duas forças opostas: a precisão cirúrgica de um drama de época e a liberdade especulativa do sci-fi. É um equilíbrio precário onde qualquer erro de tom transforma a imersão em paródia.

‘11.22.63’, a adaptação da obra de Stephen King que recentemente chegou ao catálogo da Netflix, é um dos poucos exemplos que domina essa dualidade. Ao acompanhar o professor Jake Epping (James Franco) em sua tentativa de impedir o assassinato de JFK, a série entende que o mecanismo da viagem no tempo é apenas um acessório. O verdadeiro motor é o custo emocional de desafiar a inércia da história — o ‘passado que não quer ser mudado’.

Se você terminou a jornada de Jake e busca produções que tratam o passado como matéria maleável, mas mantêm o peso da realidade histórica, o catálogo é restrito. Selecionamos cinco séries que não apenas sobrevivem ao gênero, mas o elevam através de execuções técnicas impecáveis e roteiros que respeitam a inteligência do público.

‘Kindred: Segredos e Raízes’ — O passado como trauma físico

'Kindred: Segredos e Raízes' — O passado como trauma físico

Diferente de produções que usam o passado como cenário de aventura, ‘Kindred’, baseada na obra de Octavia E. Butler, utiliza a ficção científica para um confronto visceral. Quando Dana James, uma mulher negra no presente, é subitamente ‘puxada’ para uma plantação em Maryland em 1815, não há máquinas de metal ou explicações pseudocientíficas. O deslocamento é bruto, quase biológico.

A força da série reside na recusa em oferecer o ‘conforto do viajante moderno’. Dana não tem superioridade intelectual sobre o período; ela tem apenas o instinto de sobrevivência em um sistema que a enxerga como propriedade. A fotografia utiliza tons terrosos e uma câmera claustrofóbica que elimina qualquer distância romântica do período escravocrata. É uma obra sobre como o passado nunca termina de fato, ele apenas se transmuta.

‘Watchmen’ (HBO) — A história alternativa como reparação e espelho

Damon Lindelof não apenas adaptou a graphic novel; ele a usou para dissecar a anatomia racial dos Estados Unidos. Situada em uma Tulsa alternativa onde a polícia usa máscaras e Robert Redford é presidente há décadas, a série ancora sua ficção no Massacre de Tulsa de 1921 — um evento real e doloroso que muitos livros de história omitiram.

O uso do elemento sci-fi aqui é magistral, especialmente no episódio ‘This Extraordinary Being’, filmado em um preto e branco onírico que utiliza planos-sequência para fundir memórias e traumas através das gerações. ‘Watchmen’ prova que a ficção científica histórica pode ser a ferramenta mais poderosa para expor as feridas que a história oficial tentou cicatrizar à força.

‘Counterpart: Mundo Paralelo’ — A Guerra Fria levada ao limite metafísico

'Counterpart: Mundo Paralelo' — A Guerra Fria levada ao limite metafísico

Se você aprecia a sobriedade de John le Carré com um toque de ‘Além da Imaginação’, ‘Counterpart’ é essencial. A série apresenta uma Berlim contemporânea que esconde um segredo da Guerra Fria: uma passagem para uma Terra paralela que divergiu da nossa nos anos 80 após um experimento científico.

O destaque absoluto é a atuação de J.K. Simmons, que interpreta duas versões do mesmo personagem: o Howard Silk da nossa realidade (um burocrata dócil e invisível) e o Howard da realidade paralela (um espião endurecido e implacável). A distinção que Simmons cria apenas através da postura e do olhar é um estudo de caso em atuação. A estética da série mantém o cinismo e o brutalismo arquitetônico da Berlim dividida, tratando o conceito de multiverso com uma gravidade raramente vista no gênero.

‘O Homem do Castelo Alto’ — A arquitetura do medo totalitário

Imagine uma América onde os Aliados perderam a Segunda Guerra e o território foi dividido entre o Terceiro Reich e o Império Japonês. Baseada em Philip K. Dick, a série da Amazon Prime Video brilha na sua construção de mundo (worldbuilding). A atenção aos detalhes — desde os comerciais de TV nazistas até a arquitetura brutalista em Nova York — cria uma sensação de ‘normalidade distorcida’ que é profundamente perturbadora.

O elemento de ficção científica surge através de filmes misteriosos que mostram uma realidade onde o Eixo perdeu a guerra. Esse contraste entre o que os personagens vivem e o que os filmes mostram gera uma tensão existencial constante: a história é um destino ou uma escolha? É uma produção visualmente suntuosa que exige estômago para encarar as implicações de um mundo onde o fascismo venceu.

‘For All Mankind’ — A corrida espacial que nunca desacelerou

'For All Mankind' — A corrida espacial que nunca desacelerou

A premissa é simples: e se os soviéticos tivessem chegado à Lua primeiro? A partir dessa derrota da NASA, ‘For All Mankind’ reimagina as décadas de 70, 80 e 90 com um avanço tecnológico acelerado pela competição espacial contínua. A série é impecável ao misturar figuras históricas reais (como Neil Armstrong e figuras políticas) com personagens fictícios cujas vidas são moldadas pela expansão para o cosmos.

Diferente de outras ficções espaciais, o foco aqui é o realismo técnico. O som do vácuo, a física da gravidade lunar e a evolução dos designs das naves são tratados com reverência. Ao saltar cerca de uma década por temporada, a série nos permite ver como uma pequena mudança no passado — o primeiro passo na Lua — altera radicalmente os direitos civis, a tecnologia e a geopolítica global. É, talvez, o exemplo mais otimista e tecnicamente preciso de história alternativa na TV atual.

O veredito do editor

O que une ‘11.22.63’ a estas recomendações é o respeito pela fundamentação. Para que a ficção científica funcione no contexto histórico, o mundo precisa parecer ‘vivido’. Se você busca o ritmo cerebral de ‘Counterpart’ ou a escala épica de ‘For All Mankind’, lembre-se: o melhor sci-fi não é aquele que nos leva para o futuro, mas aquele que nos faz olhar para o passado com olhos novos. Se o gênero é difícil de acertar, estas cinco séries são a prova de que, quando o equilíbrio é atingido, o resultado é televisão de altíssimo nível.

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Perguntas Frequentes sobre Ficção Científica Histórica

Onde assistir à série ‘11.22.63’?

No Brasil, ‘11.22.63’ está disponível no catálogo da Netflix. A série é uma produção original da Hulu baseada no livro de Stephen King.

‘For All Mankind’ é baseada em fatos reais?

A série é uma ‘história alternativa’. Ela utiliza a base real da corrida espacial dos anos 60, mas diverge da realidade ao imaginar que a URSS chegou à Lua antes dos EUA, alterando todos os eventos seguintes.

Qual a melhor série para quem gosta de viagem no tempo?

Se você busca realismo histórico e drama, ‘11.22.63’ e ‘Kindred’ são as melhores opções. Se prefere complexidade narrativa e multiversos, ‘Counterpart’ oferece uma abordagem mais cerebral.

‘Kindred’ terá segunda temporada?

Infelizmente, ‘Kindred: Segredos e Raízes’ foi cancelada pelo Hulu após a primeira temporada. No entanto, os episódios existentes são considerados uma adaptação poderosa e fiel ao espírito da obra de Octavia Butler.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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