Bill Skarsgård revela como a tragédia humana de Bob Gray em ‘Bem-Vindos a Derry’ redefine a origem de Pennywise. Analisamos a lógica predatória por trás da escolha do palhaço e como a humanização do hospedeiro torna o horror de ‘IT’ ainda mais perturbador.
Existe uma cena em ‘Bem-Vindos a Derry’ que subverte o que esperamos do terror moderno. Não há jump scares, balões vermelhos ou a risada gutural que Bill Skarsgård imortalizou. O que vemos é um homem embriagado, sentado em um banco, lamentando uma carreira que nunca decolou — instantes antes de ser atraído para a escuridão por algo que mimetiza a vulnerabilidade de uma criança.
Esse homem é Bob Gray. Sua introdução na série da HBO representa a expansão mais sofisticada do universo de Stephen King até agora. Ao contrário de ‘IT: Capítulo Dois’, que apenas sugeriu a existência de um hospedeiro humano, a nova produção mergulha na anatomia de um fracasso real, transformando a origem do mal em algo tragicamente palpável.
A anatomia de um fracasso: Bob Gray além da maquiagem
A série confirma a teoria mais sombria dos fãs: Bob Gray não era uma alucinação, mas um palhaço decadente da Derry do início do século XX. Skarsgård, que já havia construído uma backstory mental para o personagem anos atrás, entrega aqui uma performance que foge do óbvio. Em vez de um pai heróico em um flashback ensolarado, ele nos apresenta um artista medíocre, possivelmente alcoólatra, agarrado a uma glória que ele mesmo inventou.
A fotografia da série utiliza tons terrosos e uma iluminação naturalista para as cenas de Bob, contrastando violentamente com a saturação vibrante e artificial que Pennywise assume nos filmes. Essa escolha visual reforça que Bob era parte daquele mundo sujo e real, antes de ser ‘colonizado’ pela entidade transdimensional.
O improviso que humanizou o monstro
Skarsgård revelou que a cena da floresta — onde IT, sob a forma de uma criança, engana Bob — foi o ponto alto das filmagens. Sob a direção de Andy Muschietti, o ator teve liberdade para explorar o estado alterado do personagem. O resultado é um retrato de desespero: Bob não vai à floresta apenas para ajudar; ele vai porque, em seu estado de embriaguez e autocomiseração, precisa sentir que ainda tem alguma utilidade.
A ‘diversão’ mencionada por Skarsgård nas entrevistas transparece na tela como um realismo desconfortável. O riso de Bob Gray é o riso de um homem quebrado. Quando o personagem desaparece, deixando apenas um lenço manchado, o horror não vem da morte em si, mas do fato de que IT não apenas o devorou, mas roubou sua única posse: sua identidade.
Lógica predatória: Por que IT escolheu o palhaço?
Jason Fuchs, co-criador da série, resolve um dos maiores debates da obra de King: a escolha da forma. IT não escolheu ser um palhaço por uma afinidade estética aleatória, mas por uma observação predatória racional. Bob Gray era genuinamente popular entre as crianças de Derry; ele era o ‘gancho’ perfeito já estabelecido na comunidade.
Essa revelação adiciona uma camada de perversão técnica à atuação de Skarsgård nos filmes anteriores. Ao sabermos que existiu um Bob Gray real, entendemos que cada sorriso de Pennywise é uma paródia cruel de um homem que, apesar de seus defeitos, buscava genuinamente o riso infantil. IT não criou um disfarce; IT profanou uma vida.
O mistério de Ingrid Kersh e o legado de Bob
A conexão com Ingrid Kersh — a enfermeira de Juniper Hill que viria a ser a ‘Sra. Kersh’ em 2019 — fecha o ciclo de tragédia familiar. A série sugere que o trauma de perder o pai para a ‘Coisa’ não gerou apenas dor, mas uma cumplicidade doentia. Ingrid não é apenas uma vítima; ela se torna a guardiã da memória distorcida de seu pai, facilitando o ciclo de alimentação da criatura.
Ao final, a humanidade de Bob Gray não diminui o monstro; ela o torna mais perigoso. Skarsgård entendeu que o terror mais profundo não vem do que é desconhecido, mas do que é familiar e foi corrompido. Bob Gray não era um herói, era apenas um homem comum em uma cidade que nunca perdoou a fraqueza.
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Perguntas Frequentes sobre Bob Gray e ‘Bem-Vindos a Derry’
Quem é Bob Gray em ‘IT: Bem-Vindos a Derry’?
Bob Gray foi um palhaço real que viveu em Derry no início do século XX. Ele era o pai de Ingrid Kersh e teve sua identidade roubada pela entidade IT após ser atraído para a floresta.
Bill Skarsgård interpreta o Pennywise na série?
Sim, Bill Skarsgård retorna tanto no papel de Pennywise quanto na versão humana do personagem, Bob Gray, explorando as origens da aparência icônica do monstro.
Onde assistir à série ‘Bem-Vindos a Derry’?
A série é uma produção original da HBO e está disponível exclusivamente na plataforma de streaming Max (antiga HBO Max).
Bob Gray existia nos livros de Stephen King?
Sim, o nome ‘Robert Gray’ (ou Bob Gray) é mencionado no livro original como um dos pseudônimos usados pela Coisa, mas a série expande significativamente a história de que ele teria sido uma pessoa real.
Qual a ligação entre Bob Gray e a Sra. Kersh de ‘IT: Capítulo Dois’?
A Sra. Kersh é a filha de Bob Gray. A série revela que ela sobreviveu ao desaparecimento do pai e acabou se tornando uma aliada involuntária (ou cúmplice) da criatura ao longo das décadas.

