Analisamos a trajetória de ‘Westworld’ HBO, desde seu auge como fenômeno de ficção científica até o declínio que levou ao cancelamento. Entenda por que a obsessão por mistérios complexos e a perda da identidade visual transformaram a obra-prima de Jonathan Nolan em um labirinto sem saída para os fãs.
Existe um luto cinematográfico particular reservado para quem testemunhou a ascensão e a queda de ‘Westworld’ HBO. Em 2016, a série não era apenas um hit; era um enigma arquitetado com uma precisão que beirava a arrogância. Jonathan Nolan e Lisa Joy não nos deram apenas uma história de robôs; eles entregaram um labirinto onde cada frame era uma pista. Dez anos depois de sua estreia, olhar para o rastro deixado pela série é entender como a obsessão pelo ‘mistério pelo mistério’ pode canibalizar uma obra-prima.
Assisti à primeira temporada três vezes. Na primeira, perdi o fôlego. Na segunda, admirei as engrenagens. Na terceira, tentei entender como algo tão sólido pôde se liquefazer tão rápido nas temporadas seguintes. Ao tentar revisitar o quarto ano para esta análise, a sensação foi de exaustão: a série que antes nos desafiava a pensar passou a nos desafiar a simplesmente não desistir.
A primeira temporada e a perfeição da ‘Mystery Box’
É impossível analisar o declínio sem reverenciar o ápice. A temporada inaugural de ‘Westworld’ foi o auge da era das ‘teorias de Reddit’. Mas, ao contrário de sucessores medíocres, ela não usava o mistério como isca vazia. A estrutura de múltiplas linhas temporais — revelada no impacto do encontro entre o Homem de Preto e Dolores — não era um truque de edição; era uma representação visual da memória não linear dos hosts. Era forma servindo ao conteúdo.
A presença de Anthony Hopkins como Robert Ford dava à série uma gravidade quase shakesperiana. Suas discussões sobre consciência com o Bernard de Jeffrey Wright são, tecnicamente, o ponto alto da ficção científica televisiva desta década. A fotografia de Paul Cameron usava as paisagens de Utah para criar um contraste brutal entre a vastidão do ‘Velho Oeste’ e a claustrofobia dos laboratórios subterrâneos. Ali, o parque era um personagem vivo.
O declínio: quando a complexidade virou autossabotagem
Onde a série se perdeu? A resposta curta é: na segunda temporada. Após os fãs adivinharem quase todos os plot twists do primeiro ano, os showrunners pareciam determinados a criar algo ‘inadivinhável’. O resultado foi uma fragmentação temporal que não iluminava a narrativa, mas a obscurecia. A complexidade deixou de ser uma ferramenta de imersão para se tornar uma barreira defensiva contra o público.
O abandono do parque na terceira temporada foi o golpe de misericórdia na identidade da série. Ao trocar o ‘Oeste’ por uma Los Angeles futurista e estéril, ‘Westworld’ perdeu seu maior trunfo visual e temático. O design de produção, antes rico em texturas de couro, poeira e sangue, tornou-se uma vitrine de arquitetura brutalista genérica. A série que discutia a alma humana passou a parecer um comercial de tecnologia de luxo: bonito, mas frio e vazio.
Mesmo a trilha sonora de Ramin Djawadi, famosa por suas versões em piano mecânico de Radiohead e Rolling Stones, perdeu o propósito. No parque, aquelas músicas eram anacronismos que reforçavam a falsidade do ambiente. No mundo real, eram apenas fan service sem contexto.
Maeve e Dolores: de ícones a símbolos vazios
O desperdício de talento em ‘Westworld’ é um dos maiores pecados da HBO. Thandiwe Newton transformou Maeve Millay em uma força da natureza na primeira temporada — uma mãe em busca de uma memória que ela sabia ser falsa, mas que escolhia como sua verdade. Nas temporadas finais, Maeve foi reduzida a uma ‘arma viva’ com diálogos repetitivos e motivações cíclicas que nunca saíam do lugar.
Dolores, vivida por Evan Rachel Wood, sofreu destino semelhante. A transição de ‘donzela em perigo’ para ‘revolucionária implacável’ foi brilhante no início, mas a série esqueceu de humanizar sua jornada após a fuga. Ela se tornou uma função narrativa, um motor para a trama avançar, perdendo a vulnerabilidade que nos conectava a ela. Quando não nos importamos se o protagonista vive ou morre (ou é reiniciado), a tensão desaparece.
O cancelamento e a lição para o gênero Sci-Fi
O cancelamento de ‘Westworld’ em 2022, antes que pudesse entregar sua quinta e última temporada planejada, foi um choque, mas não uma surpresa. Com um orçamento que ultrapassava os 100 milhões de dólares por temporada e uma audiência que minguava a cada ano, a conta não fechava. A HBO, que costuma proteger suas ‘pratas da casa’ (como fez com ‘Game of Thrones’), preferiu cortar perdas.
A lição que fica é clara: audiência não é inteligência. Ser ‘difícil’ não é o mesmo que ser profundo. Séries como ‘Severance’ ou ‘Dark’ provaram que é possível manter mistérios densos sem alienar o espectador, desde que o núcleo emocional permaneça intacto. ‘Westworld’ esqueceu que, por trás de todos os loops temporais e inteligências artificiais, o que nos prendia era a busca humana por significado.
Vale a pena assistir ‘Westworld’ hoje?
Minha recomendação como editor é herética para alguns, mas necessária: assista à primeira temporada como se fosse uma minissérie fechada. Ela é perfeita, completa e termina com uma das imagens mais poderosas da história da TV. O que vem depois é um exercício de frustração que, embora contenha lampejos de genialidade (como o episódio ‘Kiksuya’ na 2ª temporada), não justifica o tempo investido.
‘Westworld’ começou querendo nos libertar de nossos próprios loops, mas acabou presa em um ciclo de pretensão do qual não conseguiu escapar. Um labirinto fascinante, sem dúvida, mas que esqueceu de construir uma saída.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Westworld’ HBO
Por que ‘Westworld’ foi cancelada pela HBO?
A série foi cancelada devido à combinação de altos custos de produção (mais de US$ 100 milhões por temporada) e queda constante na audiência. Além disso, a nova gestão da Warner Bros. Discovery estava focada em cortes de gastos na época.
Onde posso assistir ‘Westworld’ atualmente?
Após ser removida do catálogo da Max (antiga HBO Max), ‘Westworld’ foi licenciada para plataformas de streaming gratuitas com anúncios (FAST), como a Roku Channel e Tubi em alguns países. Verifique a disponibilidade local no Brasil.
A série ‘Westworld’ tem um final definitivo?
Não totalmente. A quarta temporada termina de forma que poderia servir como um ciclo, mas os criadores tinham planejado uma quinta temporada para encerrar a história oficialmente. O cancelamento deixou algumas pontas soltas.
Preciso assistir a todas as temporadas de ‘Westworld’?
Muitos críticos e fãs recomendam a primeira temporada como uma obra completa e independente. As temporadas seguintes expandem o universo, mas aumentam a complexidade e mudam drasticamente o cenário e o tom.

