Analisamos como ‘The Great Flood’ (Netflix) rompe os clichês de filmes de desastre ao misturar sobrevivência claustrofóbica com uma narrativa cerebral inspirada em ‘A Origem’. Entenda por que a direção de Kim Byung-woo transforma este sci-fi coreano em um marco de tensão psicológica e técnica.
Filmes de ficção científica frequentemente se perdem na escala. Quando o mundo está acabando, a câmera costuma se afastar para mostrar a grandiosidade da destruição. ‘The Great Flood’ Netflix (‘The Flood’) faz o caminho inverso. O diretor Kim Byung-woo, que já provou ser um mestre da tensão em espaços confinados com ‘The Terror Live’, usa o colapso planetário apenas como moldura para um thriller psicológico claustrofóbico e temporalmente complexo.
Chamar ‘The Great Flood’ de “filme de desastre” é um equívoco compreensível, mas limitante. Embora a água subindo seja a ameaça constante, o verdadeiro motor da trama é o mistério que envolve Anna (Kim Da-mi) e Hee-jo (Park Hae-soo) dentro de um complexo de apartamentos que se torna um túmulo subaquático. O filme não quer que você olhe para o horizonte; ele quer que você olhe para as rachaduras nas paredes e nas memórias dos protagonistas.
O tédio como ferramenta de suspense: A herança de Kim Byung-woo
A decisão de situar quase toda a ação dentro de um edifício inundado permite que o filme explore uma verticalidade narrativa rara. Kim Byung-woo utiliza o design de produção para criar uma sensação de urgência física — cada andar subido é um minuto a mais de vida, mas também uma camada a menos de sanidade. A fotografia de tons frios e desaturados transforma a água em uma massa negra e impenetrável, evocando o vazio existencial de ‘Blade Runner: O Caçador de Andróides’.
Diferente dos blockbusters de Roland Emmerich, onde o CGI é o protagonista, aqui os efeitos visuais servem à atmosfera. O som da estrutura metálica rangendo e o eco da água em corredores vazios criam um design sonoro que substitui a trilha sonora em momentos cruciais. É um exercício de contenção que recompensa o espectador atento aos detalhes técnicos.
Por que a comparação com ‘A Origem’ é mais profunda que a estética
Muitos críticos apontaram semelhanças com ‘A Origem’ de Christopher Nolan, e elas vão além da estrutura de quebra-cabeça. ‘The Great Flood’ utiliza o conceito de anomalias temporais e repetição de forma intrínseca ao seu roteiro. Não se trata apenas de sobreviver à enchente, mas de entender quando e por que os personagens estão presos naquele ciclo de eventos.
Enquanto ‘Blade Runner’ questionava a natureza da alma através da memória, o filme coreano questiona a natureza da culpa. A estrutura narrativa exige que o público monte o cronograma emocional dos personagens enquanto eles lutam contra a correnteza. É um sci-fi cerebral que confia na inteligência do espectador, evitando diálogos expositivos desnecessários que costumam poluir produções do gênero no streaming.
Kim Da-mi e Park Hae-soo: Atuações que sustentam o isolamento
O sucesso de um filme contido depende inteiramente do elenco. Kim Da-mi (conhecida por ‘The Witch’ e ‘Itaewon Class’) entrega uma performance física exaustiva. Sua expressão transita entre o desespero técnico de uma pesquisadora e o trauma de alguém que carrega um segredo sistêmico. Ao seu lado, Park Hae-soo (‘Round 6’) serve como o contraponto ambíguo, mantendo a tensão sobre suas verdadeiras intenções até o ato final.
Há uma sequência específica — o confronto no laboratório enquanto a água atinge o teto — que exemplifica a força do filme. A câmera fixa nos rostos dos atores, ignorando a escala do desastre lá fora para focar no micro-momento da decisão moral. É cinema de gênero em sua forma mais pura e emocional.
Veredito: ‘The Great Flood’ é para você?
Se você busca a adrenalina visual de ‘O Dia Depois de Amanhã’, este filme pode parecer frustrante. O ritmo é deliberadamente lento no primeiro ato, construindo uma base de desconforto antes de mergulhar nas revelações de ficção científica. É uma obra para quem aprecia o cinema coreano contemporâneo — que usa o gênero para dissecar a condição humana sob pressão extrema.
‘The Great Flood’ eleva o padrão dos originais Netflix ao provar que o sci-fi mais impactante não é aquele que mostra o fim do mundo, mas o que mostra o que resta de nós quando o mundo acaba.
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Perguntas Frequentes sobre ‘The Great Flood’
Qual é a história de ‘The Great Flood’ na Netflix?
O filme acompanha Anna, uma pesquisadora de IA, e Hee-jo, um agente de segurança, que tentam sobreviver dentro de um complexo de apartamentos durante uma inundação global catastrófica. A trama envolve mistérios sobre manipulação temporal e segredos corporativos.
‘The Great Flood’ é um filme de ação ou suspense?
Embora tenha elementos de ação, o filme é predominantemente um thriller de ficção científica e suspense psicológico. O foco está na sobrevivência em ambiente confinado e na resolução de um quebra-cabeça narrativo.
Quem é o diretor de ‘The Great Flood’?
O filme é dirigido por Kim Byung-woo, cineasta sul-coreano aclamado por ‘The Terror Live’ (2013) e ‘Take Point’ (2018), conhecido por sua habilidade em criar tensão em cenários limitados.
Preciso prestar atenção em detalhes temporais no filme?
Sim. Assim como em ‘A Origem’, a cronologia de ‘The Great Flood’ não é linear. Detalhes em flashbacks e diálogos sobre o projeto de IA são fundamentais para compreender o desfecho da trama.
O filme tem cenas pós-créditos?
Não, ‘The Great Flood’ não possui cenas pós-créditos. A conclusão da história ocorre integralmente antes do início dos créditos finais.

